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COLUNISTAS

AMOR VULCÂNICO

Publicado por Elton Telles , 16:30 - 03 de Maio de 2019

Quantos anos de vida você sacrificaria pela pessoa amada? E o que garante que, após cumprida a penitência, ela continuará sendo a mesma pessoa, pensando da mesma forma e compartilhando os mesmos sentimentos? Em seu novo filme, “Amor Até às Cinzas”, o diretor chinês Jia Zhang-ke costura um romance trágico que atravessa os anos e mostra que, além dos indivíduos, a mudança é também constante e influente em um país que está cruzando uma repaginação total de seus espaços físicos, o que os livros definem como “desenvolvimento urbano”.


É fascinante a habilidade já comprovada de Zhang-ke em amarrar a (des)construção do espaço através do tempo e ecoar nos hábitos e modos de se viver em sociedade. Aqui, ele ilustra de maneira envolvente e ajustada para o casal protagonista, inicialmente apaixonados, porém vítimas do destino.


A trama tem início na China de 2001 e é concluída no mesmo país, em 2018. Nesses 17 anos que decorrem a história, mesmo sem a inclusão de legendas, o espectador é capaz de sentir a passagem do tempo pelo visual dos personagens e, principalmente, pelos planos abertos que permitem evidenciar as paisagens sendo demolidas e reconstruídas, aprimoradas, verticalizadas. A dualidade natureza x arquitetura aplicada à alteração do comportamento humano não é novidade entre as obras assinadas por Zhang-ke, podendo ser conferida em títulos como “Em Busca da Vida” (2006) e no maravilhoso “As Montanhas Se Separam” (2015).


A utilização de música incidental, a menção à classe trabalhadora, o flerte proposital com a cultura ocidental e a violência bem representada sem frescuras também se fazem presente. A condução da história, que atinge tons épicos, é muito bem executada, sobretudo na primeira metade do filme, uma demonstração brilhante de exercício gradativo de tensão. Assumindo uma parcela romântica, “Amor Até às Cinzas” invariavelmente abraça e não solta o melodrama, o que redimensiona a história para novos e empolgantes rumos. Há um trecho em que uma das personagens, recém-saída da prisão, tenta sobreviver à base de pequenos golpes em um universo diferente para ela – mais uma vez, a noção do decurso do tempo. A partir daí, o filme se entrega ao drama e à redenção.


Convenhamos que nem todo contador de histórias é eficiente a ponto de articular de forma orgânica todas essas investidas em um único filme de 2 horas. É para poucos e bons.

Foto

Foto: Divulgação

Parceira recorrente nas produções de Zhang-ke – e esposa na vida real –, mais uma vez o público é brindado com uma atuação competente de Zhao Tao. Na pele de Qiao, ela vive uma mulher complacente de início e obediente aos mandos da máfia chinesa. Após as rasteiras da vida, retorna amargurada e sem rumo, uma folha seca para onde o vento leva até o esperado encontro com o antigo amante. A cadência transformadora da personagem é administrada com zelo, tanto pelo diretor quanto pela intérprete, que se beneficia da própria expressividade e do roteiro felizmente imprevisível. Também merece destaque o desempenho de Liao Fan como o contraponto da protagonista, pois mesmo sendo tratado como um “personagem-escada”, admite atenção por ser uma ótima presença em cena.


Quanto ao departamento técnico, o destaque é para os efeitos visuais engenhosos na criação dos cenários em segundo plano, absolutamente brilhantes e que se impõem como personagens dentro do filme. Enquanto isso, a fotografia assinada pelo francês Eric Gautier é inteligente por harmonizar a iluminação com os altos (cor, luz, saturação) e baixos (sombras e monocromia) da trama, oscilando de maneira que não gera estranheza na composição visual do longa. Pelo contrário, o resultado é belíssimo.


Entre os épicos narrados por Jia Zhang-ke, “Amor Até às Cinzas” se diferencia pelo (bem-vindo) toque melodramático. O filme acrescenta uma nova faceta/identidade, e ainda assim, legitima uma das filmografias mais coerentes e interessantes pela ótica sociológica do cinema contemporâneo.

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