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COLUNISTAS

A Dinamarca que queremos

Publicado por Tiago Valenciano, 08:50 - 23 de janeiro de 2020

Bloco de Imagem

Foto: parlamento dinamarquês em sessão / Tiago Valenciano

Quando falamos em Dinamarca, os brasileiros mais ligados ao futebol vão lembrar da famosa “Dinamáquina”, esquadrão que encantou o mundo no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Estrelas como Peter Schmeichel, os irmãos Laudrup, entre outros. Podemos lembrar, ainda, dos contos de Hans Christian Andersen (O patinho feio, a pequena sereia) e do frio que faz por lá.


Estive na Dinamarca por aproximadamente uma semana no final de 2017 e, claro, não somente estas legendas nacionais encantam os turistas. A organização do trânsito, o silêncio quase sepulcral nas ruas de Copenhagen e os incontáveis espaços culturais são bons atrativos para quem deseja conhecer esta monarquia constitucional. Os altos preços praticados na boa Coroa Dinamarquesa podem espantar os visitantes. Mas, já diria o velho ditado: “quem converte não se diverte!”.


Na madrugada de hoje (23), a Organização Transparência Internacional divulgou o ranking mundial de percepção de corrupção de 2019. Publicado desde 1995, o país atingiu o pior índice da história, chegando aos 35 pontos e a posição 106 de 180 países. Por curiosidade, a Somália é a última colocada, com 9 pontos.


Tais rankings podem parecer besteira, uma bobagem que o mundo inventa para que a gente caia. Porém, é preciso ver além dos simples números e recomendações proporcionadas na publicação: o padrão cultural e a noção de participação política interferem – e muito, na constituição de uma sociedade mais consciente de seus direitos e, principalmente, responsável por seus deveres.


Estamos longe demais de alcançar o nível dinamarquês, a primeira colocada no ranking, isto é, o país em que as pessoas mais tem noção do que é a corrupção. Entretanto, se quisermos ser um dos bons, é preciso nos inspirarmos nos melhores. O caso do Reino da Dinamarca nos demonstra que a boa prática política deve começar com um parlamento organizado. Participei de uma sessão ordinária do Folketing, o parlamento nacional. Na visita guiada, foi-nos explicado que lá também existem figuras folclóricas na política, como um palhaço (isto mesmo) que foi eleito deputado. A divisão de partidos é clara: existe quem apoia o governo, quem é contra, quem é o próprio governo e outras oposições.


Chamou atenção a galeria de mulheres no parlamento, crescente a cada ano. No Palácio de Christiansborg, existem 179 deputados, o que corresponde a a 1 deputado a cada 32 mil habitantes – sendo que no Brasil um deputado representa aproximadamente 410 mil pessoas. Na sessão os debates foram variados e, como de praxe, a discussão estava mais direcionada para o orçamento da monarquia para 2018.


O fato é que a percepção social brasileira acerca da corrupção só vai mudar quando a sociedade brasileira também mudar. O caminho para esta transformação, é claro, passa pela educação e pela cultura de qualidade. Viver é um ato político em si, pois temos nossas opiniões, nossas preferências, nossos anseios na vida pública. Tais angústias só serão equacionadas se a participação política for ampliada, se compreendermos que para entender e fazer política é preciso o mínimo de dedicação. Caso contrário, a melhor lembrança que teremos da Dinamarca são os seus belos jardins e a vitória do Brasil sobre a seleção dinamarquesa na Copa da França em 1998.

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