‘Eu era um menino de Maringá’: Alex Santos relembra a carreira, duas Copas do Mundo pela seleção japonesa e partidas contra o Brasil

Com a Copa do Mundo se aproximando, as atenções do planeta futebol já começam a se voltar para as seleções, favoritos e possíveis surpresas do torneio. Em Maringá, um personagem conhece esse palco como poucos. Nascido na Cidade Canção, o ex-jogador Alessandro dos Santos, o Alex Santos, de 48 anos, viveu a experiência que milhões sonham em alcançar: disputou duas Copas do Mundo pela seleção japonesa, enfrentou o Brasil e construiu uma carreira internacional com mais de 600 jogos profissionais.
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Em entrevista ao GMC Online, Alex abriu o coração sobre a trajetória no futebol, a relação construída com o Japão, a naturalização, os bastidores de duas Copas do Mundo e ainda fez uma análise sobre as seleções brasileira e japonesa para o Mundial.
Hoje à frente do Instituto Alex Santos, projeto social voltado à formação esportiva em Maringá, ele também falou sobre o legado que tenta deixar às novas gerações.
De Maringá para o Japão aos 16 anos
Muito antes das Copas do Mundo e dos grandes estádios internacionais, Alex era apenas um garoto maringaense que sonhava em jogar futebol. Formado nas categorias de base do Grêmio Maringá, ele deixou o Brasil ainda adolescente. Aos 16 anos, em 1994, embarcou rumo ao Japão para estudar. O destino era a cidade de Kochi, onde se matriculou no Meitoku Gijuku High School e passou a defender a equipe da escola.
Segundo Alex, naquele momento o plano não era exatamente se tornar jogador profissional. “Eu estava indo para uma escola, não para um clube. Era uma aposta. Depois dos três anos de escola fui fazer avaliação em duas equipes do Japão e em uma delas eu passei”, contou ao GMC Online.
A aposta deu certo. Em 1997, assinou o primeiro contrato profissional com o Shimizu S-Pulse, clube onde rapidamente ganhou protagonismo no futebol japonês.
Melhor jogador do Japão e da Ásia
A trajetória meteórica transformou Alex em um dos principais nomes do futebol asiático. Em 1999, foi eleito o melhor jogador da J-League. No ano seguinte, recebeu o prêmio de melhor jogador da Ásia.
O sucesso abriu portas ainda maiores. Em 2001, após anos vivendo no Japão, conquistou a cidadania japonesa e passou a ser elegível para defender a seleção nacional. Segundo ele, a naturalização não aconteceu inicialmente pensando na Copa do Mundo.
“Eu nunca pensei em me naturalizar japonês para jogar na seleção. Já morava há muito tempo lá, minha namorada era japonesa e eu queria construir minha vida no Japão. A seleção ainda parecia algo distante”, revelou. A mudança de nacionalidade saiu no fim de 2001. Pouco tempo depois, veio a primeira convocação.
Duas Copas do Mundo e um sonho realizado
A estreia pela seleção japonesa aconteceu em março de 2002, contra a Ucrânia. Poucos meses depois, Alex realizava um sonho inimaginável para o garoto que saiu de Maringá ainda adolescente: disputar uma Copa do Mundo. Jogando em casa, no Mundial de 2002, sediado por Japão e Coreia do Sul, os japoneses fizeram campanha sólida e avançaram da fase de grupos antes de serem eliminados pela Turquia.
Mas a história ainda reservaria outro capítulo. Em 2006, Alex voltou a defender o Japão em mais uma Copa do Mundo, desta vez na Alemanha. E justamente naquele torneio viveu um dos momentos mais simbólicos da carreira: enfrentar o Brasil.

O dia em que enfrentou o Brasil na Copa
Antes do duelo no Mundial de 2006, Alex já havia encarado a seleção brasileira na Copa das Confederações de 2005, quando Japão e Brasil empataram por 2 a 2. Na Copa do Mundo do ano seguinte, porém, o Brasil venceu por 4 a 1.
Mesmo defendendo a camisa japonesa, o momento carregava um peso emocional enorme para o maringaense. “Era uma sensação muito esquisita. Você está ouvindo o hino do Japão, que eu escutava todos os dias desde a escola, mas também cresci ouvindo o hino brasileiro. Parecia que eu estava no meio do meu pai e da minha mãe e precisava escolher um dos dois”, disse.
Apesar da emoção, ele garante que a decisão estava tomada. “Eu já tinha escolhido. Minha missão era defender as cores do Japão.” Alex foi titular nas duas partidas diante do Brasil, tanto no empate da Copa das Confederações quanto na derrota pela Copa do Mundo.
Mais de 600 jogos e carreira internacional
A carreira de Alex Santos se consolidou como uma das mais longevas e respeitadas de um jogador brasileiro naturalizado no exterior. Segundo dados do site estatístico oGol, ele disputou pouco mais de 600 partidas profissionais e marcou 95 gols ao longo da carreira. Após passagem de destaque pelo Shimizu S-Pulse entre 1997 e 2003, transferiu-se para o Urawa Reds, onde viveu um período vitorioso e multicampeão. Em 2007, realizou outro sonho ao atuar na Europa, defendendo o Red Bull Salzburg, da Áustria.

“Foi a realização de um sonho jogar na Europa. Fui campeão austríaco e tive a chance de disputar a pré-Champions”, relembrou. Depois disso, voltou ao Japão, acumulando passagens por Nagoya Grampus, Tochigi e FC Gifu. Em 2015, retornou a Maringá para vestir as camisas do Maringá FC e do Grêmio Maringá. A aposentadoria veio em 2016, defendendo o PSTC.
Japão organizado e Brasil incógnita
Com experiência de quem viveu duas Copas do Mundo, Alex também analisou o atual cenário das seleções. Para ele, o Japão chega mais organizado e pode surpreender novamente. “O Japão é uma seleção muito organizada. Eles sabem que talvez tenham menos talento individual que outras seleções, então compensam com intensidade, disciplina e entrega. Vai ser difícil correr mais que os japoneses”, avaliou.
O ex-jogador lembra ainda da campanha surpreendente do Japão na última Copa, quando a equipe eliminou Alemanha e Espanha na fase de grupos. Já sobre o Brasil, a avaliação é cautelosa. “A seleção brasileira é uma incógnita. Pode dar muito certo ou muito errado. Mas individualmente o Brasil tem jogadores que desequilibram qualquer sistema defensivo”, opinou.
Afinal, por quem Alex Santos vai torcer?
Naturalizado japonês, ídolo no futebol asiático e nascido em Maringá, Alex admite que o coração fica dividido. Mas não tanto assim. Segundo ele, nesta Copa a torcida será um pouco mais forte pelo Japão. “Eu tenho que torcer mais para o Japão do que para o Brasil. O Brasil sempre tem camisa e pode chegar longe. Agora, o Japão precisa fazer história. Nunca chegou entre os quatro melhores, então eu torço muito para que isso aconteça.”
O legado fora dos gramados
Longe do futebol profissional, Alex agora dedica a rotina à formação de novos atletas em Maringá. À frente do Instituto Alex Santos, ele tenta passar às crianças e adolescentes parte da experiência acumulada em mais de duas décadas no futebol internacional. “Eu tento mostrar para eles que eu era um menino daqui de Maringá, jogava nos mesmos campinhos, tinha os mesmos sonhos. Futebol não é para todo mundo, mas quem quer precisa buscar mais do que qualquer outro.”
