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MEU PSICOPATA FAVORITO

Avaliado como um dos mais perversos serial killers do século passado, o jovem promissor Ted Bundy assassinou com requintes de crueldade mais de 30 mulheres nos Estados Unidos. Ele tinha uma tática específica para atrair suas presas: condutor de um fusca, Bundy abordava jovens que estivessem sozinhas para lhe ajudar com o carro, eis que apunhalava as vítimas e desaparecia com o corpo. Quando não colocava a emboscada em prática, o criminoso chegava sorridente e as conquistava com seu charme e lábia, já que os registros o classifica como um rapaz de boa aparência, carismático e inteligente. Muitas vezes, ele seduzia as garotas apenas com a intenção de matá-las e, em alguns casos, estuprá-las. No fim da vida, Bundy confessou a autoria dos homicídios, alegando sentir prazer em pornografia temperada com violência.

Casado, pai de uma garotinha e estudante de Direito, ele foi preso duas vezes, fugiu da prisão em ambas ocasiões, defendeu a si mesmo no tribunal e fez história por ser réu no primeiro caso de sentença televisionado no mundo. Com isso, veio a projeção, a fama e milhares de admiradoras que lhe escrevia cartas apaixonadas enquanto estava enjaulado. No final da década de 1980, aos 42 anos, Ted Bundy foi condenado à pena de morte e executado na cadeira elétrica.

Inspirado no livro escrito pela ex-esposa, Elizabeth Kendall, o filme “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal” narra estas ocorrências abusando de flashbacks, mostrando o início do namoro com a autora da obra até o princípio dos assassinatos e, claro, as consequências deles. É lamentável, no entanto, que tendo um material tão potente em mãos, a incompetência do diretor Joe Berlinger e do roteirista estreante Michael Werwie tenham ecoado, tornando o projeto opaco, chato e pouco empolgante.

É compreensível a opção dos realizadores de não mostrar o personagem central matando as vítimas. Em contrapartida, o retrato irresponsável que se faz de Ted Bundy neste filme beira a glorificação de um psicopata. São poucos os momentos que a índole do protagonista é colocada à prova, pois diante da omissão das cenas de assassinato, parece que estamos acompanhando um homem de família, bem apessoado e futuro advogado de carreira exemplar sendo julgado por crimes bárbaros. Uma defesa possível, porém descartada, é a intenção de evidenciar que até um rapaz com “tudo na vida” pode carregar distúrbios doentios. Simplesmente não cola. “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal” evita ambiguidades e em nenhum momento transmite ameaça quando o criminoso surge em cena. Sabemos que Bundy é um maldito sádico, mas o filme rejeita o fato e prefere pintá-lo como um “cara gente boa”.

Considerando a trajetória do diretor Joe Berlinger no cinema, notamos que o cineasta tem afinidade para lidar com o tema. O ponto alto de sua carreira é a trilogia de documentários “Paradise Lost” (1996-2000-2011), sobre adolescentes acusados sem provas de assassinar três crianças em West Memphis no início dos anos 1990. O filme fez um grande alarde na época por expor o preconceito e a fragilidade do sistema judiciário nos Estados Unidos. De quebra, Berlinger despontou como um jovem diretor em ascensão. Vários documentários vieram na sequência, incluindo uma série documental recente sob encomenda da Netflix intitulada “Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy”, justamente sobre o mesmo homem aqui representado. Era natural que achassem Berlinger uma escolha adequada para conduzir a história; infelizmente os produtores se provaram errados.

Adentramos aqui uma hipótese muito ingrata, mas sabe quando estamos estudando algo e desenvolvemos pelo objeto de pesquisa um tipo de admiração, inexplicável em algumas situações, talvez pelo contato recorrente? É isso o que aparenta na relação Berlinger x Bundy, uma vez que a condescendência com o biografado é muito visível. Além disso, o diretor falha miseravelmente em administrar a tensão, não sabendo tonalizar a trama com saídas dramáticas, muito menos como thriller misterioso. Levando em conta que esta é a segunda ficção comandada por Berlinger e a anterior foi o lixo “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras” (2000), o recomendado é que ele se restrinja apenas ao núcleo documental.

Pra agravar, o roteiro também não colabora. Preenchido por diálogos sofríveis e episódios que denunciam o marasmo do projeto, “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal” carece de uma unidade narrativa mínima. Os avanços no tempo são feitos de forma primária, e o desserviço da montagem assinada por Josh Schaeffer torna a experiência ainda mais confusa.

De “High School Musical” para papéis mais sérios, o ator Zac Efron tem o maior desafio de sua carreira ao interpretar o personagem-título, e se sai bem na maior parte do tempo, com uma caracterização física muito semelhante a Bundy. O mesmo não se pode dizer do restante do elenco, a começar por Lily Collins, que se esforça para convencer, mas é obviamente um caso de miscasting, pois deveriam ter escalado alguém com melhor desenvoltura emocional para lidar com as revelações, até mesmo com a reviravolta besta no ato 3 que só autentica o quão ruim é o roteiro. Já John Malkovich parece crer que está em uma esquete do humorístico Saturday Night Live ao interpretar o juiz dos homicídios mais repercutidos no país naquela época.

Fraco e sem identidade, “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal” é um fracasso: cai no perigo de glamourizar um assassino em série e as escolhas da direção trucidam qualquer possibilidade de relevância. Imagino o que seria deste filme nas mãos de um David Fincher (Se7en, Zodíaco, Mindhunter), por exemplo.

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