Objetos humanos e seres desumanos


Por Gilson Aguiar

Estamos em um ambiente perigoso. Tudo parece humano. Objetos falam, interagem, se impõe como uma verdade absoluta. Alguns, inegavelmente unânimes. Amados por muitos. Desejo e expressão da felicidade exposta. Se adquirido, vivida. A materialização dos nossos desejos em forma de mercadorias acessível, aparentemente, se transformou no motivo da existência.

As mensagens publicitárias expressam a fantasia resumida na coisa que se oferece. Se pode ser algo a mais, isto está a disposição, basta poder adquirir. Ser se associa a ter. A dignidade se materializa e inegavelmente atinge o objetivo de gerar respeito no outro. “Veja-me com o objeto e verá como um objeto ressuscitará minha honra”, este é o lema.

Trocamos pessoas por coisas. Confundimos constantemente e satisfatoriamente a pessoa pelo bem de consumo, pelo ambiente, pelo lugar. O complemento agora é alguém, ou ninguém, a materialidade do desejo de consumo é a essência.

Perdemos a capacidade de compreender que o ser humano é o sentido. Ele é o criador dos bens que o cercam, não é a criatura. A perfectibilidade aparente é obra da racionalidade de um ser imperfeito. Esta lógica da maravilha harmônica da felicidade enlatada é mais a expressão da angústia na obra oposta ao autor. Vivemos a contradição e a perda do sentido da vida social.

Não podemos nos deixar levar por esta aparente perfeição. Ela não existe. Não podemos humanizar as coisas sob a pena de massacrar o ser humano. Por não reproduzir a perfeição, pagamos com o desprezo à existência. Talvez por isso o descaso diante da catástrofe, do massacre, da violência.

É preciso olhar a realidade na dimensão do que ela é. Não construir uma aparência sem essência. A vida é humanamente imperfeita.

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