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COLUNISTAS

RINDO DE NERVOSISMO

Publicado por Elton Telles, 12:57 - 04 de Outubro de 2019

No universo DC Comics, nenhuma HQ narra com precisão a origem do personagem Coringa. Nas histórias em que se faz presente como antagonista do super-herói Batman, ele simplesmente surge como a personificação do sadismo e espalha o terror na caótica Gotham City. No entanto, no filme que leva a sua alcunha, o passado enigmático do irresistível vilão ganha forma pelo roteiro da dupla Scott Silver e Todd Phillips – este último também ostenta o crédito de direção.


Eis que Coringa é inicialmente apresentado ao público como Arthur Fleck, um homem com sérios distúrbios mentais que mora com a mãe e trabalha vestido de palhaço onde quer que contratem seu serviço de animador. Fleck alimenta o sonho de ser comediante e fazer carreira nos palcos de stand-up comedy, e também vislumbra um dia participar do talk show humorístico mais assistido do horário nobre.


Semanalmente, ele é atendido por uma servidora pública desinteressada em seu progresso, que lhe receita cartelas de remédios das quais Arthur se faz refém. Para agravar a situação, além do comportamento dúbio e aparência desajeitada, o personagem-título sofre de um doença neurológica que causa risada involuntária e escandalosa em momentos inoportunos, sempre recebida com aversão por quem está ao redor. Um dia no metrô, voltando para casa após ser demitido e trajando fantasia de palhaço, é justamente sua risada que causa confusão com um trio de rapazes agressivos. A partir deste infortúnio, o personagem começa a ser redimensionado, e agregando todos os problemas que explodem em sua cabeça, Arthur Fleck inicia a sua irreversível transição para Coringa.


A construção do protagonista como reflexo de sua infeliz condição somada às mazelas sociais que ele atravessa, tratado como um sujeito insignificante em uma cidade hostil e em situação de calamidade (assolada por greves, poluição, infestação de ratos, desemprego e violência a cada esquina), é um dos vários atributos a se admirar em “Coringa”. A trajetória pintada pelo roteiro, repleta de obstáculos e derrotas, nos aproxima do personagem e nos faz compreender – não aceitar – o grau de insanidade que passa a ser mais nítido em suas atitudes, sem que haja propriamente resistência por parte dele, e que termina por se tornar inerente em sua vida.


Por outro lado, é interessante observar que os fatores externos são encarados como gatilhos para Arthur manifestar todo o ódio e fúria que já carrega dentro de si, pois se trata de um indivíduo que convive com sérias perturbações e que, divago, nem deveria estar andando pelas ruas. Felizmente, o filme não faz do Coringa um coitado, uma vítima per se do sistema. É muito claro que ele tem essência negativa, basta recorrer às situações que ele julga engraçadas ou às alucinações que o perseguem. Todos os problemas que o cercam são combustível para sua psique inflamável e intrinsecamente perigosa. Bem articulado pelo roteiro, é positivo concluir que estamos diante de um personagem complexo em vez de uma caricatura, como ocasionalmente são abordadas as figuras adaptadas dos quadrinhos.

Bloco de Imagem

Cena do filme "Coringa" (Foto: Divulgação)

O fim do mundo, se acontecesse um dia, começaria pela Gotham idealizada neste filme. O caprichado design de produção, que constrói uma cidade suja, cinza, esfumaçada, com sacos de lixo nas calçadas e poças d’água em todos os cantos das vias, é um atrativo à parte e se revela bastante funcional por inserir de forma ágil o espectador curioso em um ambiente pouco convidativo. É quase possível sentir o odor das ruas. Claramente influenciado pelas instalações externas de “Taxi Driver” (1976), obra-prima de Martin Scorsese, que também pinta uma Nova York diminuída em imundícies, “Coringa” é habilidoso em criar uma atmosfera opressiva, ideal para a trama taciturna que discorre aquele espaço.


E já que citei Scorsese, outra referência identificável no filme é “O Rei da Comédia” (1982), com Robert De Niro invertendo o papel da produção oitentista e agora interpretando o apresentnador em vez do convidado. Trata-se de uma homenagem bacana, ainda que algumas decisões pareçam ser chupadas de ambos os clássicos. De Niro está ótimo como o vaidoso jornalista, em uma composição deliciosa como há tempos não o víamos entregar. Uma das cenas finais em que contracena com o Coringa, inclusive, ouso afirmar que é um dos pontos altos do cinema neste ano.


Especialista em dirigir comédias de gosto duvidoso, Todd Phillips surpreende na condução de “Coringa”, sobretudo por aguçar a história e torná-la cada vez mais interessante conforme avança rumo ao seu apoteótico e problemático desfecho. E aqui residem as minhas ressalvas ao filme: o teor político que pouco convence, viabilizado por um discurso deturpado e generalizado.


O pseudo-anarquismo que a trama atinge beira a ofensa em praticamente alçar como justiceiro com brilho de heroísmo um doente mental, uma pessoa com evidente transtorno psicótico. E nem me refiro à questão levantada sobre os incels, que, confesso, era uma terminologia desconhecida por mim antes de estourarem as críticas negativas precedentes ao lançamento do projeto. O desconforto principal é igualar rebeldia e irresponsabilidade, promovendo uma visão macro simplista e predatória quando o Coringa sobe no capô de um carro e é ovacionado por um rebanho de desordeiros. A luta e a indignação são válidas, mas a forma pela qual o roteiro desencadeia sua ideia central se mostra paradoxal e incondizente com a qualidade do filme até ali. O Coringa não é encarado como vítima, ok, mas também não deveria ser tratado como “herói” de uma suposta revolução.


Outros tropeços graves do roteiro incluem flashbacks sem razão de existir e praticamente toda a subtrama preguiçosa envolvendo a mãe do Coringa, interpretada pela atriz Frances Conroy. A participação é necessária, e justamente pela relevância no contexto da dramaturgia, merecia mais arrojo no desenvolvimento.


Agora, o que não há uma linha para retrucar é a performance magistral de Joaquin Phoenix como Coringa. Um dos intérpretes mais talentosos em atividade no cinema mundial, é impressionante como o ator pula de um papel a outro em produções diferentes e não conseguimos identificar nenhuma fagulha de vício ou maneirismo de interpretação, convencendo que a cada desafio Phoenix realmente “começa do zero”. Capaz de reproduzir uma risada assombrosa com naturalismo, o nível de concentração, incorporação, fidelidade e linguagem corporal 100% coerente com que esculpe seu personagem lhe dão méritos a ganhar qualquer estatueta de atuação na próxima temporada de prêmios. Absolutamente genial. Isso sem falar na transformação física para alcançar a magreza de Arthur/Coringa, repetindo algo próximo à dieta radical de desnutrição de Christian Bale para o papel central em “O Operário” (2004), só para citar um caso recente.


Não há uma cena sequer de “Coringa” em que Phoenix não está enquadrado, o que é compreensível, já que é o grande triunfo do filme e para quem os olhos do público se direcionam automaticamente e permanecem fixos, seja em momentos que contracena com outros personagens ou nas emblemáticas cenas do banheiro e quando desce a imensa escadaria ao som irônico de Frank Sinatra. O show é só dele.


Absorto em uma trilha sonora de melodia pesada e dramática assinada pela jovem Hildur Guðnadóttir, merecidamente premiada no Festival de Veneza, onde o filme faturou o cobiçado Leão de Ouro, “Coringa” é, para o bem e para o mal, um projeto ambicioso e transgressor. Consegue fugir do aspecto cartunesco e engrandecer o seu conteúdo, porém, da mesma forma, patina em algumas irregularidades do enredo, principalmente, no culto vazio e pomposo ao protagonista e em sua ingenuidade/ignorância política.

3 estrelas

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