COLUNISTAS

O museu, o incêndio e você

Publicado por Victor Simião , 18:00 - 06 de Setembro de 2018

O incêndio trágico que acabou com o Museu Nacional do Rio de Janeiro é um sinal de como a cultura e a história são destruídas no Brasil: uma fagulha apenas é o necessário para que tudo o que foi construído se perca porque não há medidas de prevenção nem de pósvenção; o alicerce em áreas não prioritárias é nada mais nada menos que a sorte, de modo geral.

Apesar da profissionalização dos últimos anos da gestão de produtos históricos e culturais, o que vemos, de norte a sul do Brasil, é a desconstrução de todo o trabalho de luta em relação a isso. Muita gente não entende a razão do Ministério da Cultura, muito menos do estudo da História na escola. E isso é problemático porque é um tipo de fogo cuja chama é permanente caso não façamos nada.

É por isso que essa coluna não é uma crônica engraçadinha nem mesmo um conto em terceira pessoa. É uma reflexão, uma tentativa de aviso, um balde de água no fogo quase eterno que perpassa a cultura e a história no Brasil.

O foco, aqui, é Maringá.

Então vejamos o a cidade nos oferece em relação a tudo isso. Na questão cultural mais próxima e palpável, o poder público oferta os convites ao teatro, à dança, à música, às artes visuais e ao cinema. Neste ano, o executivo municipal criou o Convite à Literatura, cujos contemplados devem ser conhecidos em breve.

Maringá também tem bons produtores culturais. Com o sério risco de me esquecer de vários, lembro-me tranquilo e calmamente da Rachel Coelho, do Bem-Hur Prado, do Pedro Ochôa, do Danilo Furlan, do Márcio Alex, do pessoal da Cia Pedras de Teatro, do grupo que cuida da Circular Pocket (agora Circular Cultural), da Macuco, que é uma cooperativa de artistas e realizadores.

Boa parte dessas pessoas já utilizou recursos de editais públicos – portanto, mais uma oferta do poder público. O Aniceto Matti, prêmio de incentivo cultural criado por uma lei, é o principal chamariz local. Apesar dos atrasos e de certa burocracia inerente à máquina pública, esse projeto libera R$ 2 milhões em recursos para que iniciativas culturais sejam feitas.

Escrevo tudo isso aqui porque quero chamar a atenção do leitor e da leitora que se espantaram com o incêndio no Museu Nacional. Quero a atenção principalmente daqueles que já foram ao Rio de Janeiro e visitaram o local e daqueles que gostariam de tê-lo visitado um dia: prestigiem as ações culturais em Maringá.

Tá, eu-não-sou-o-maior-visitador-de-museus-da-cidade-e-nem-o-maior- frequentador-de-ações-culturais-do-município. Entretanto, sempre que possível, vou ao Callil Haddad ver o que está exposto. Sim, o museu municipal fica ali, no térreo, sabia? Acima dele, no segundo andar, está o setor de Patrimônio Histórico de Maringá. Oficialmente é ali que a memória da cidade está guardada.

Há o Mudi (Museu Dinâmico Interdisciplinar) que fica dentro da Universidade Estadual do Paraná. Na UEM, aliás, fica o Museu da Bacia do Paraná. Itens históricos e de várias áreas de conhecimento podem ser encontrados nesses espaços.

E é tudo de graça.

A Unicesumar tem museu próprio, cuidado pela aguerrida e talentosa Loide Caetano – um poço de inteligência e dona de uma risada maravilhosa. Tem também o Memorial Kimura, um lugar belíssimo em Floriano com itens arqueológicos da região, desde a pré-história, e também materiais da época do café.

Eu confesso que não sei quantos reais os governos do Paraná e de Maringá investem nos museus que devem ser geridos por eles. Espero que o suficiente para não haver o sucateamento desses locais.

Quanto ao município, aliás, eu só tenho uma ressalva. A pasta da cultura tem sempre um dos menores valores do orçamento. Neste ano são cerca de R$ 17 milhões. Há reduções previstas para os próximos anos. Em 2019, deve ficar em R$ 14,4 milhões; 2020, R$ 16,6 milhões; e 2021, R$ 14,8 milhões.

O incêndio no Museu Nacional tem tudo a ver comigo e com você por isso mesmo. Para manter um bem histórico e cultural é necessário dinheiro. No caso do poder público, que tem essa obrigação, a distribuição de verbas depende da participação das pessoas em ações culturais pois aí fica claro a justificativa financeira.

(Isso, claro, em uma mundo de sociedade de mercado. A arte, infelizmente, é contabilizada pelo que vende e pelo que gera, não apenas pela obra em si mesma.)

Visitar museus em Maringá, prestigiar eventos organizados pelo poder público e por produtores culturais, auxiliar a divulgação e entender a necessidade da cultura e da preservação da memória são ações mais que necessárias para que o orçamento aumente.

Dessa forma, podemos combater a fogueira que incendeia essas áreas tão desprestigiadas no Brasil.

Se você tiver se cansado por conta de todo esse papo e prefere, sei lá, futebol, tudo bem. O grande Antônio Roberto de Paula – que sabe tudo e um pouco mais sobre o esporte bretão – coordena um espaço esportivo na cidade. Ah, é local para a memória também. É o Museu Esportivo de Maringá.


 

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Fotos: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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