Paciente da Santa Casa de Maringá é o primeiro paranaense a receber tratamento experimental para lesão medular

Um procedimento inédito no Paraná foi realizado na tarde desta quinta-feira, 8, na Santa Casa de Maringá e ajudou a reacender a esperança de pacientes com lesão medular em todo o país. Um homem de 64 anos, vítima de um acidente de trânsito ocorrido em 18 de dezembro, no município de Colorado (a 87 km de Maringá), tornou-se o primeiro paranaense a receber a aplicação da polilaminina, uma substância desenvolvida no Brasil e que está em fase de pesquisa clínica para regeneração da medula espinhal.
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Juarez Rocha de Almeida pilotava uma motoneta em uma rotatória, em baixa velocidade, quando foi atingido por um carro. Assim que caiu no asfalto, deixou de sentir o corpo todo, do pescoço para baixo. Os socorristas encontraram o aposentado com a perna queimada pelo escapamento sem que ele sentisse nada.

Ele foi trazido à Maringá de helicóptero e, desde então, permanece internado na UTI da Santa Casa. Os médicos constataram que houve fraturas cervicais e lesão na medula, o que provocou tetraparesia, com perda significativa dos movimentos e da sensibilidade do pescoço para baixo. Antes do acidente, Juarez levava uma vida ativa: fazia atividades físicas regularmente, cuidava de uma propriedade rural e mantinha uma rotina independente, que incluía passeios de moto ao lado do filho, o cirurgião-dentista, Felipe de Almeida. Três dias após o internamento, um médico residente do hospital levantou a hipótese de trazer para o paciente um tratamento experimental do qual Felipe já tinha ouvido falar – a polilaminina.
“Eu fiquei muito entusiasmado com os resultados, e foi o que a gente tentou”, diz Felipe. Por se tratar de uma substância ainda em fase de estudos, a família de Juarez precisou conseguir na justiça uma liminar que autorizasse a aplicação. A decisão foi concedida antes mesmo da liberação oficial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que nesta semana autorizou o início dos testes clínicos com a polilaminina para avaliar a segurança do uso da substância no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo, marcando um avanço regulatório e científico no país, com potencial para revolucionar o tratamento no SUS. Dois médicos ligados ao projeto de pesquisa, 100% nacional, que é coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vieram à cidade para fazer a aplicação junto com a equipe do hospital maringaense. Este foi o 25º paciente do Brasil e o primeiro do Paraná a receber medicamento inovador.
A polilaminina é uma proteína desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob responsabilidade da médica e pesquisadora Tatiana Sampaio, que deu início a essa pesquisa há quase três décadas e já apresentou resultados promissores na recuperação de movimentos de pacientes. “Com a liberação da Anvisa, o grupo de pesquisa passa a poder acompanhar os pacientes muito de perto e isso é fundamental para dar garantias ao paciente. Qualquer intercorrência que ele tem, ele vai ser atendido imediatamente. Pelo nosso lado também é importante porque os resultados são todos documentados. Quando você trata um ser humano com um procedimento experimental, é muito importante que você colete, documente todos os dados em relação a ele, para você reduzir ao máximo o número de pessoas que vão ser submetidas a serem objetos de um experimento”, diz a pesquisadora, que frisa que o procedimento é idealmente realizado em casos agudos,no máximo quatro dias após a lesão, mas que casos como o de Juarez, com menos de um mês de lesão, ainda podem se beneficiar. “Para pessoas que têm lesão crônica, nós estamos ainda desenvolvendo um protocolo de tratamento”.
Como funciona o tratamento com polilaminina
O neurocirurgião Bruno Alexandre Cortes, um dos médicos responsáveis pela aplicação no paciente em Maringá, explica que a polilaminina foi administrada por punção percutânea, técnica semelhante à anestesia raquidiana, com aplicações acima e abaixo da área lesionada da medula. A substância é produzida em laboratório a partir da laminina, uma proteína presente no organismo humano e extraída, no projeto, da placenta. De acordo com os pesquisadores, a substância atua reduzindo o processo inflamatório após a lesão e criando um microambiente favorável para a reconexão dos neurônios danificados.
“Ela tem duas ações principais: uma é reduzir o processo inflamatório e, por consequência, diminuir o dano causado pela lesão e a outra é reconectar os neurônios que foram lesionados durante o trauma. Essa reconexão se dá através da formação de caminhos dentro da lesão que vão trazer a parte do neurônio que conecta com outro, que gente chama de axônio, para restabelecer essa conexão. O tratamento posterior à lesão é muito importante, envolve muita fisioterapia para gerar o estímulo, para que essa reconexão seja adequada. Então, sem a fisioterapia, apesar do microambiente ser propenso à regeneração, o microambiente da medula, você não tem o estímulo adequado, detalha o médico Olavo Borges Franco, integrante da equipe de pesquisa.
Os resultados iniciais dos estudos clínicos têm sido considerados promissores. Pacientes que antes não apresentavam qualquer movimento passaram a recuperar funções motoras em diferentes graus, contrariando o prognóstico tradicional das lesões medulares traumáticas. “O paciente que mais se dedicou à fisioterapia, que teve uma fisioterapia de melhor qualidade, voltou a andar. Outros pacientes que perderam o movimento, por exemplo, do pescoço para baixo, ganharam o movimento dos braços. Uns conseguem engatinhar, outros ainda conseguem deambular com apoio. Outro paciente fica em pé sozinho, então isso varia das condições prévias do paciente, se tinha uma musculatura bem viável, se já era uma pessoa mais jovem, mais atlética, tem mais propensão a regenerar”, diz Franco.
“Pequenos movimentos como mexer o dedão do pé, mexer o joelho, que a gente chama de contrações isométricas, a gente já começa a notar com 24, 48 horas. Provavelmente, dentro de um mês a gente já deve notar visivelmente melhora da parte motora”, afirma o neurocirurgião Bruno Alexandre Cortes.
Esperança no tratamento
Para a equipe da Santa Casa de Maringá, o procedimento representa um marco para a medicina no estado. A neurocirurgiã Katia Nakamura, chefe do serviço de neurocirurgia do hospital, ressaltou a mobilização interna para viabilizar a aplicação. “Está sendo uma experiência incrível a possibilidade do Seu Juarez, nosso paciente com lesão medular, que chegou sem andar, sem mexer as pernas, mal podendo movimentar os dedos das mãos, ter a chance de voltar a andar com as próprias pernas, sem precisar de ninguém. A gente foi atrás a partir do momento que a gente ficou sabendo desse estudo, que tinha pacientes voltando a andar, que eram tetraplégicos, a gente embarcou nessa ideia. Por Deus conseguimos trazer essa equipe lá do Rio de Janeiro. Está sendo uma experiência riquíssima e espero que a partir desse momento novos pacientes tenham também a oportunidade de, com essa tecnologia nova, poder voltar a andar. É nossa esperança”.
Victor Parmeggiani, o residente que propôs o tratamento, destaca a importância do trabalho multidisciplinar do hospital maringaense para que o paciente fosse um candidato apto a receber o tratamento. “A equipe da UTI, o pessoal da fisioterapia que manteve ele saudável sem ser entubado, a fono, a psicologia… Essa ideia foi uma ideia bem fora da caixinha. Nós não conhecíamos ninguém que tinha feito a aplicação. Nós não sabíamos como era para fazer contato com as pessoas, mas a equipe do laboratório foi muito receptiva e agora vamos manter os cuidados clínicos para evitar alguma complicação médica. Existem riscos na própria aplicação da medicação, que é na medula”, explica.
“Hoje a palavra que define tudo é esperança. A gente sabe que é um processo, que não é imediato, mas agora existe uma possibilidade real. Nosso desejo é ver ele voltar a ser como era: ativo, andando, cortando grama na chácara, fazendo de tudo. A gente quer ele de volta”, diz o filho do paciente, que segue internado e, nos próximos dias, deve iniciar uma nova fase de reabilitação.

Com a autorização da Anvisa para os testes clínicos, a expectativa dos pesquisadores é que a polilaminina avance nas próximas etapas de pesquisa e represente, no futuro, uma nova abordagem terapêutica para milhares de brasileiros com lesão medular.
