‘Expectativa fictícia faz processo de venda ser mentiroso’, diz ex-CEO do Red Bull sobre SAFs
As muitas experiências com Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs) no Brasil já mostraram que o modelo pode corrigir rotas, reconstruir e organizar clubes, desde que bem estruturado e compreendido. É isso que defendem especialistas que participaram da constituição de diferentes SAFs no País, caso de Rodolfo Kussarev, ex-CEO do Red Bull – hoje Red Bull Bragantino – e sócio proprietário da Convocados Gestão de Futebol, que debateu o tema nesta quinta-feira, 14, em painel da São Paulo Innovation Week (SPIW).
Maior festival global de tecnologia e inovação, o SPIW é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
“Expectativa fictícia faz com que o processo de venda seja mentiroso. O clube pede bilhões, o investidor sabe que não vale e tenta convencer o clube. Talvez com um pouco mais de tempo e as coisas ficando mais claras, os clubes comecem a perceber que precisam fazer due diligence dos dois lados. Quando você é muito transparente, causa uma frustração absurda”, comentou.
“A SAF sofre do excesso de expectativa que foi criado quando ela nasceu. Vendeu-se que será transformadora a ponto de resolver todos os nossos problemas. Sofre críticas pelos exemplos ruins. A SAF é parte do processo de resolução dos problemas do futebol brasileiro. A SAF não é a bala de prata, não é a panaceia, é parte da solução”, acrescentou Moisés Assayag, sócio-diretor da Channel Associados, que já prestou consultoria para São Paulo e Botafogo.
Longe de ser uma fórmula mágica, a SAF foi parte de experiências ruins em times como o Vasco e o Botafogo – embora, neste segundo, tenha obtido resultados em curto prazo. Patrick Lopes, managing director da Alvarez & Marsal, participou da constituição da SAF vascaína, assim como do projeto bem-sucedido do Cruzeiro, e entende que o modelo ainda vai passar por transformações.
“A gente está engatinhando ainda. É um processo contínuo e constante de aprendizado. Conheço bastante a Lei de Recuperação Judicial, tem 21 anos e passou por uma reforma mais estrutural. A lei da SAF, a gente ainda vai ter um bom tempo de aprendizado e reformulações, apesar de alguns casos sem muito sucesso financeiro”, opinou.
Lopes vê o caso do Cruzeiro como um dos bons exemplos, pois, ao mesmo tempo em que ofereceu os recursos para que o clube se reestruturasse, permitiu que Ronaldo Fenômeno, o investidor, conseguisse retorno ao vender suas ações para Pedrinho Lourenço.
“Dificilmente você faz reestruturação sem dinheiro novo, é sempre necessário, por vários motivos. A lei da SAF trouxe uma ferramenta para acelerar essa parte do projeto. O nome do Ronaldo surge como um processo pouco competitivo. Foi um processo organizado, menos competitivo, mas veio uma proposta que fazia todo o sentido”, disse.
“Foi uma das poucas SAFs que teve sucesso na saída. O investidor se pergunta: Como vou rentabilizar o negócio do futebol se não em uma saída? Foi feliz em ter o Pedrinho como investidor dando uma saída para ele”, concluiu.
Outra SAF muito exaltada pelos especialistas é o Bahia, hoje parte do conglomerado comandado pelo poderoso Grupo City. Kussarev participou do processo de venda e destaca o quão cuidadoso o clube baiano foi durante todas as etapas.
“O Bahia é um clube particular. Houve um cuidado muito grande de fazer o processo de maneira mais tranquilo possível. Quando nos contataram, era pra saber se deveria ou não virar SAF. Depois, saber qual seria o formato. E depois, qual tipo de parceiro eu quero? Foi isso que proporcionou um parceiro premium.”
