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30 de junho de 2026

Onda de calor na Europa destrói trilho e asfalto: 4 desafios da crise climática para as cidades


Por Agência Estado Publicado 30/06/2026 às 21h49
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A atual onda de calor na Europa vem revelando um novo desafio para as grandes metrópoles mundiais em tempos de aquecimento global: o impacto nas infraestruturas urbanas. Na Alemanha e na França houve casos de derretimento de asfalto e desvios de trem devido à dilatação dos trilhos. Na Holanda, autoridades precisaram manter pontes móveis resfriadas constantemente com jatos de água para evitar o travamento mecânico das vias.

De acordo com relatório recente da ONG CDP (que oferece dados climáticos a empresas), 60% dos governos subnacionais (Estados e municípios) do mundo já relataram algum impacto significativo em sua infraestrutura operacional diária.

“O dimensionamento dos limites de segurança para linhas de trens, pontes, asfalto, foi projetado numa época anterior à questão climática”, explicou o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy. “E os nossos parâmetros eram as séries históricas de chuva e temperatura dos últimos cem anos; agora, o nosso referencial desapareceu e, dentro dessa incerteza, a situação segue piorando. É o que chamamos de incerteza radical.”

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os danos à infraestrutura se dividem em quatro segmentos:

– sistema de transportes e mobilidade
– edificações, habitação e zoneamento
– saneamento, drenagem, gestão de água
– setor de energia e tecnologia

Os impactos podem ser maiores em algumas áreas, de acordo com as vulnerabilidades climáticas e de zoneamento urbano de cada região. No caso recente da Europa, os impactos se concentraram no sistema de transportes.

Ondas de calor extremo como a que se abateu sobre o continente geram estresse térmico no asfalto, amolecendo o pavimento. O calor também provoca a expansão física de trilhos, provocando o descarrilamento de trens ou forçando o desvio dos veículos, impactando a logística interna das metrópoles.

“A tecnologia para tornar a infraestrutura mais resistente aos eventos climáticos extremos já existe”, afirmou o vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Nilson Sarti. “Hoje, contamos com asfaltos modificados, concretos de alto desempenho, pavimentos mais refletivos, materiais de maior durabilidade e soluções baseadas na natureza, que ajudam a reduzir a temperatura das cidades e a aumentar a vida útil das estruturas. O desafio agora é ampliar a escala dessas soluções.”

Pelo menos 1.300 pessoas já morreram por conta do calor, na Europa, desde meados do mês, sobretudo idosos e crianças que têm menos resistência às altas temperaturas. O calor excessivo, sobretudo em países tradicionalmente mais frios, evidencia a falta de infraestrutura para enfrentar dias quentes.

“As questões de saúde são muito preocupantes, o problema maior é justamente saber como lidar com populações submetidas ao calor extremo”, afirmou Bocuhy. “Nem a Europa, nem os Estados Unidos estão preparados para isso; o calor mata mais que as catástrofes naturais, mas isso não aparece tanto por ser uma causa indireta.”

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom, ressaltou que as casas, escolas e locais de trabalho na Europa não foram projetados para suportar temperaturas que chegaram a passar dos 41ºC em países como Alemanha e República Tcheca.

Bocuhy elogia a iniciativa de França e Itália que rapidamente redirecionaram suas equipes de assistência social para visitar idosos que vivem sozinhos durante a onda de calor. Segundo ele, esse tipo de iniciativa deveria ser pensado também no Brasil.

Por outro lado, em países tradicionalmente mais quentes, como o Brasil, as ondas de calor costumam disparar picos simultâneos no uso de aparelhos de ar-condicionado, gerando sobrecarga em transformadores urbanos, quedas de energia e apagões sistêmicos, como os registrados recentemente em São Paulo.

Com a expansão de tecnologias como as da Inteligência Artificial (IA), os centros de processamento de dados localizados nas cidades enfrentam dificuldades crescentes de resfriamento em dias muito quentes, consumindo enormes quantidades de água e energia elétrica para evitar falhas estruturais.

Em locais onde o aquecimento produz chuvas intensas, como no Brasil, as precipitações e inundações podem provocar o colapso de encostas que margeiam rodovias, causando danos a pavimentos e pontes. Foi o que aconteceu na enchente de 2024, no Rio Grande do Sul.

Os deslizamentos de terra decorrentes de tempestades concentradas costumam destruir habitações precárias nas áreas mais pobres, sobretudo aquelas construídas em encostas irregulares e sobre palafitas. No caso do Brasil, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), pelo menos 9,5 milhões de pessoas vivem em áreas consideradas de alto risco.

“Todos esses problemas para os quais não estamos preparados atingem principalmente os mais vulneráveis”, constatou. “Precisamos ter políticas para isso, não só diagnósticos; há mais de dez anos alertamos para o problema.”

O excesso de chuvas pode superar rotineiramente a capacidade projetada de bueiros e galerias pluviais antigas, transformando ruas em rios temporários, podendo gerar inundações repentinas. Foi o que aconteceu no início de 2025 em Recife, após o registro de um volume de chuva superior a 300 milímetros. A infraestrutura pluvial da cidade colapsou, paralisando os serviços de transporte e provocando o transbordamento de canais em toda a cidade.

“Tudo o que a gente construiu foi baseado nos dados pluviométricos dos últimos 100 anos”, lembrou Bocuhy, citando estradas e encostas. “Mas esses dados já não servem mais de referência, as chuvas estão muito mais intensas; nosso padrão de segurança está ultrapassado.”

Por outro lado, longos períodos de seca, como também costumam acontecer no Brasil em anos de El Niño potencializados pelo aquecimento global, podem causar problemas aos volumes de água dos reservatórios. No primeiro semestre do ano passado, o interior paulista registrou condições de seca severa e os sistemas integrados de abastecimento urbano, como Cantareira, operaram em patamares perigosamente baixos, acendendo o alerta para restrições operacionais na rede de distribuição de água potável.

“O Brasil já enfrenta impactos severos das mudanças climáticas, principalmente com enchentes, secas prolongadas, deslizamentos e ondas de calor cada vez mais frequentes”, disse Nilson Sarti. “Se a temperatura média continuar aumentando, também veremos efeitos sobre a durabilidade de pavimentos, rodovias, edificações e demais estruturas urbanas, especialmente nas regiões mais quentes.”

Para Sarti, a construção é parte da solução para a crise climática: “Investir hoje em cidades mais resilientes significa reduzir riscos, preservar vidas, diminuir custos futuros e aumentar a qualidade de vida da população”.

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