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21 de janeiro de 2026

A geração Z está mudando até o crime organizado. E isso diz muito sobre o futuro da liderança


Por Jeferson Cardoso Publicado 21/01/2026 às 15h00
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Há alguns dias ouvi um delegado afirmar algo que, num primeiro momento, parece até improvável: o crime organizado está tendo dificuldade para lidar com a geração Z.
O PCC, o Comando Vermelho e outras facções estruturas que sempre funcionaram na base do medo, do silêncio e da disciplina rígida estão enfrentando problemas internos provocados por jovens que não se encaixam mais na lógica tradicional de comando.

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Imagem ilustrativa | Foto: Unsplash

Quando ouvi isso, como profissional de gestão de pessoas, minha primeira reação foi pensar:
“se até o crime, que sempre foi a instituição mais autoritária e impositiva do país, está sofrendo com essa mudança de comportamento… o que sobra para as empresas?”

A resposta é simples: não sobra nada.
A mudança já chegou e chegou para todo mundo.

A geração que não se curva ao medo

A narrativa dessa nova geração dentro do crime é curiosa:
eles expõem armas em vídeos, mostram a rotina nas redes sociais, fazem ostentação, trocam de facção como quem troca de emprego e questionam ordens de líderes veteranos.

É o oposto do código de silêncio que sempre governou o submundo.

E aqui entra o ponto que mais me chamou atenção:
se nem o medo funciona mais como mecanismo de gestão, que dirá o comando rígido dentro das empresas.

Eu venho conversando com líderes de todos os setores indústria, tecnologia, varejo, agronegócio e a queixa é sempre a mesma:
“a geração nova não respeita hierarquia”,
“não tem paciência para processos”,
“não obedece sem entender”,
“não aceita pressão”.

E a verdade é que eles não aceitam mesmo.
Porque foram formados em outro mundo.

Um mundo onde influência vale mais que cargo, coerência vale mais que título e a palavra de um líder só tem valor se vier acompanhada de exemplo.

Uma geração que busca validação pelo ‘correto’, não pelo proibido

O crime sempre se alimentou do glamour do proibido.
Mas a geração Z não se seduz tão facilmente por isso.

Pelo contrário: eles consomem menos álcool, usam menos drogas, têm uma consciência ambiental e ética muito mais presente, e  talvez o ponto mais importante  buscam aprovação social por um estilo de vida considerado politicamente correto.

O status deles vem de:

  • fazer exercícios,
  • ter uma rotina saudável,
  • defender causas,
  • praticar consumo consciente,
  • rejeitar excessos,
  • mostrar uma vida supostamente equilibrada.

É a geração que posta “rotina”, “autosabotagem”, “soft skills” e “produtividade”, e que encontra pertencimento em comunidades digitais de autocuidado, saúde, propósito e lifestyle.

Isso, obviamente, reduz o apelo de atividades ilícitas. O crime tem menos poder de recrutamento porque o imaginário coletivo mudou:
o “legal” hoje é viver de um jeito saudável, limpo, ético pelo menos na aparência.

E isso coloca o crime numa crise de abastecimento humano inédita.

Nas empresas, eu vejo exatamente a mesma ruptura

Desde 2023 venho entrevistando centenas de profissionais, de diferentes idades e cargos, e o padrão é o mesmo:
a geração Z não vai ficar em empresas fundamentadas no medo, na pressão ou na ausência de diálogo.

Eles não ficam por salário.
Não ficam por status.
Não ficam por apego.
Eles ficam por coerência.

É uma geração que troca de emprego com uma facilidade que assusta quem foi criado na lógica da estabilidade.
Mas essa mobilidade não é falta de comprometimento; é busca por ambientes mais saudáveis e líderes minimamente humanos.

E essa mudança não está restrita à elite.
Ela aparece na indústria, no varejo, na logística, em pequenas empresas familiares e até em organizações públicas.

A lógica é a mesma:
não adianta mandar — é preciso convencer.
Não adianta impor — é preciso dialogar.
Não adianta controlar — é preciso inspirar.

O que isso tudo realmente significa?

Significa que estamos vivendo uma ruptura geracional tão profunda que está afetando estruturas que, por décadas, pareceram imutáveis.
Se até o crime organizado que é a representação máxima da autoridade pela força — está sendo forçado a rever métodos, ninguém está imune.

Isso não deve ser visto como ameaça.
É um alerta.
E também uma oportunidade.

Porque quando uma geração rejeita violência, consumo excessivo, abuso e opacidade, ela obriga os sistemas a se ajustarem.
E sistemas que se ajustam se tornam melhores.

Essa geração vem forçando:

  • empresas mais transparentes,
  • lideranças mais humanas,
  • culturas mais saudáveis,
  • ambientes mais éticos,
  • prioridades mais equilibradas.

No curto prazo, isso gera atrito.
No longo prazo, eleva o padrão do mercado e transforma a sociedade.

E talvez essa seja a maior ironia da nossa época:
quem sempre usou o medo como ferramenta de controle está sendo forçado a aprender aquilo que empresas já deveriam ter aprendido há muito tempo:

não existe gestão sem diálogo, sem coerência e sem humanidade.

A geração Z está apenas escancarando esse fato e nos convidando a fazer melhor.

Pauta do Leitor

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