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25 de fevereiro de 2026

Quando a Lapiseira Some, Quem Resolve de Verdade?


Por Jeferson Cardoso Publicado 25/02/2026 às 14h14
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Em um cenário corporativo que preza pela excelência, existe um exemplo simples, mas profundo: a busca por uma lapiseira. O processo é claro, o pedido é objetivo, a tarefa é desenhada. Em muitos ambientes de trabalho tradicionalmente procedurais, a excelência máxima reside em entregar a lapiseira exatamente como foi solicitada, seguindo o ritual. 

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Foto: Unsplash

No entanto, o mercado global está redefinindo o conceito de excelência. A nova fronteira é entregar o resultado — mesmo quando a forma ou o plano original precisam mudar radicalmente. É neste ponto que o perfil do profissional que resolve, adaptando-se em tempo real, se torna o mais cobiçado. Ao perceber a indisponibilidade da lapiseira, este profissional sugere imediatamente um lápis mais barato, que cumpre a mesma função, soluciona a necessidade imediata e ainda gera uma redução de custo. O objetivo de escrever é atingido, e em um mundo acelerado, o objetivo passa a valer mais do que a rigidez do ritual.A Transformação Impulsionada pelos Dados 

Esta valorização do “solucionador de problemas” não é apenas uma percepção, mas uma tendência inegável baseada em dados robustos sobre o futuro do trabalho. 

O renomado Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial (WEF), aponta que as habilidades mais demandadas e em crescimento até 2030 formam um conjunto que prioriza exatamente o desvio criativo do procedimento. No topo da lista estão: pensamento analítico, resiliência, flexibilidade e agilidade, e pensamento criativo

A urgência dessa mudança é destacada por um dado alarmante: empregadores esperam que 39% das habilidades-chave mudem até 2030. Esse cenário empurra as organizações a buscarem talentos que demonstram capacidade de aprendizado rápido, adaptação e, acima de tudo, a habilidade de resolver exceções, e não apenas de executar tarefas pré-definidas. 

Essa mudança no perfil de competências se soma à reorganização do trabalho. Segundo uma análise da Robert Half, baseada em dados de vagas nos EUA, no 4º trimestre de 2025, 24% das novas vagas foram híbridas e 11% totalmente remotas. Com o trabalho atravessando fronteiras, a contratação se torna global e a régua de competição se eleva, exigindo profissionais com diferenciais competitivos que transcendem a excelência local.O Papel da IA e a Elevação do Julgamento Humano 

A Inteligência Artificial (IA) é o grande acelerador dessa transição. Ao assumir uma parte colossal do trabalho repetitivo, a IA retira do humano a necessidade da execução mecânica. Consequentemente, o mercado é pressionado a “pagar caro” por aquilo que é inerentemente não repetitivo: contexto, julgamento, criatividade aplicada e a resolução de exceções complexas

O Work Trend Index 2025 da Microsoft descreve essa transição para organizações “human-led, AI-operated” (lideradas por humanos, operadas por IA), onde equipes híbridas de humanos e agentes de IA se tornam o padrão. A mensagem é direta: a

ambição e a criatividade humanas continuam sendo o motor de valor. Enquanto os agentes de IA absorvem tarefas específicas, o humano escala de nível para decidir, direcionar e solucionar o que foge do padrão. 

Em essência, ao comprar “mão de obra digital,” a empresa passa a buscar no humano exatamente o que a máquina ainda não entrega bem em ambientes reais — especialmente em situações de falta de informação, ambiguidade e onde a solução precisa ser criada ad-hoc.O “Jeitinho” como Vantagem Competitiva Global 

Este contexto global favorece uma característica cultural brasileira: a habilidade de “dar um jeito.” É crucial, no entanto, separar o estereótipo do diferencial competitivo. 

A literatura acadêmica que discute o “jeitinho brasileiro” aponta que ele pode envolver um conjunto de estratégias de solução de problemas que incluem criatividade e improvisação, mas alerta para o lado ambíguo, que cruza limites éticos. O que o mercado busca é a versão ética e profissional desta habilidade: o “jeito bom” — simplificar processos, otimizar recursos, propor alternativas inteligentes, reduzir desperdício e manter o resultado. 

Essa capacidade está profundamente ligada à cultura de trabalho, repertório e sobrevivência em ambientes complexos que o brasileiro frequentemente desenvolve: aprender a trabalhar com restrições severas e encontrar caminhos onde não há um mapa perfeito. Em projetos e times globais, essa agilidade de resolução torna-se um diferencial competitivo poderoso, desde que esteja ancorada em método, comunicação clara e responsabilidade.A Nova Conversa de Carreira 

Este movimento global muda a essência da conversa de carreira. Não basta ser um executor eficiente. O mercado agora demanda profissionais que: 

  1. Entendem o objetivo do negócio, e não apenas a tarefa delegada.
  2. Prototipam soluções, em vez de apenas reportar problemas ou falhas.
  3. Trazem alternativas claras, apresentando o trade-off (custo, tempo, risco, qualidade) de cada opção. 
  4. Sabem trabalhar com IA para acelerar a execução, mas mantêm o julgamento humano como filtro e decisor final. 

Se o futuro do trabalho é competir com a IA (ou trabalhar com ela), a pergunta crucial não é “Como eu faço igual a uma máquina?”. É: “Quais problemas eu resolvo que uma máquina ainda resolve mal?” 

A lapiseira é apenas um símbolo. No fundo, as empresas estão comprando talentos que garantem o resultado quando a realidade, inerentemente caótica, atrapalha o plano.

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