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04 de fevereiro de 2026

Quando dizer “não” ao chefe custa o emprego


Por Jeferson Cardoso Publicado 04/02/2026 às 11h25
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Foto: Freepik

Tenho ouvido cada vez mais histórias de profissionais que não foram demitidos por incompetência, baixa performance ou falta de resultado. Foram demitidos por algo bem mais simples e bem mais perigoso: não obedecer uma ordem injusta.

Ordem essa que, muitas vezes, era imoral, ilegal ou contrariava regras da própria empresa.

Um amigo me contou recentemente uma situação que, infelizmente, não é rara. Na empresa onde ele trabalhava, o planejamento de férias era feito com seis meses de antecedência. Tudo organizado, registrado, com regras claras. Havia prioridade para quem tinha filhos em idade escolar, para quem estudava, e também uma lógica de rodízio: quem saísse em dezembro ou janeiro só poderia repetir esse período depois de dois anos, a menos que ninguém quisesse aquelas datas.

Como ele era organizado, conseguia se planejar. Seguia as regras. E, dentro do que estava combinado, usufruía dos períodos mais disputados.

Até que entrou em cena uma liderança que resolveu ignorar tudo isso.

Essa gestora passou a pressionar funcionários para desistirem das férias, trocarem datas ou “abrirem mão” do período já aprovado. Não era pedido. Era ameaça. Quem não aceitasse, seria demitido.

E foi exatamente o que aconteceu.

Houve denúncia. Houve comunicação formal à empresa. Houve tentativa de resolver pelos canais internos.
Nada aconteceu.

Quem não cedeu, saiu.

O que me chama atenção nessas histórias não é apenas o abuso em si. É a naturalidade com que ele acontece. Como se fosse parte do jogo. Como se obedecer fosse mais importante do que estar certo.

Existe uma confusão perigosa no mundo corporativo entre autoridade e autoritarismo. Liderar não dá a ninguém o direito de constranger, ameaçar ou coagir. O poder de mando tem limite. E esse limite é a lei, a ética e o que foi previamente combinado.

No Brasil, o trabalhador não é obrigado a cumprir ordens ilegais, imorais ou abusivas. Não é obrigado a abrir mão de férias concedidas. Não é obrigado a aceitar retaliação por questionar algo errado. E, ainda assim, muitos obedecem por medo.

Medo de perder o emprego.
Medo de ser rotulado como “difícil”.
Medo de entrar para a lista negra invisível que ainda existe em muitos setores.

Outros não obedecem. E pagam o preço.

Quando uma demissão acontece nesses moldes, ela raramente é sobre o fato em si. É sobre controle. É sobre silenciar quem questiona. É sobre manter uma hierarquia baseada no medo.

E aqui entra um ponto que pouca gente gosta de encarar: quando a empresa sabe e não age, ela deixa de ser espectadora. Ela passa a ser cúmplice.

Não existe discurso de cultura forte, ética ou valores quando a prática é ignorar abusos porque “é só um gestor”. O problema nunca é só a pessoa. É o sistema que permite.

O resultado disso aparece rápido: pessoas boas saem, as organizadas são descartadas, os críticos são eliminados. Ficam os obedientes nem sempre os melhores. O clima piora. O adoecimento cresce. A rotatividade explode. E, mais cedo ou mais tarde, o passivo trabalhista chega.

Muita gente me pergunta: “Mas o que fazer numa situação dessas?”

ão existe resposta simples. Cada caso é um caso. Mas existe algo que sempre repito: ninguém deve enfrentar esse tipo de situação no improviso.

Registrar conversas, guardar mensagens, formalizar decisões, conhecer as regras internas da empresa e buscar orientação jurídica antes do conflito escalar não é exagero é autoproteção. E, acima de tudo, cuidar da própria saúde emocional é essencial. Ambientes de medo adoecem. E adoecem rápido.

Talvez a reflexão mais importante não seja para quem obedece ou não obedece.
É para quem lidera.

Se alguém precisa ameaçar para ser obedecido, já perdeu a autoridade faz tempo.
Se uma empresa só funciona quando as pessoas têm medo de perder o emprego, ela já está doente só ainda não percebeu.

No fim das contas, obedecer faz parte do trabalho.
Abrir mão da dignidade, dos direitos e da ética, não deveria fazer parte de nenhuma empresa.

E talvez a pergunta que líderes e organizações precisem se fazer seja simples, mas incômoda:
o problema é quem diz “não”… ou o tipo de ordem que está sendo dada?

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