Tudo o que você precisa saber sobre o cenário político do Paraná

O Paraná caminha para uma das eleições mais competitivas e imprevisíveis de sua história recente. A disputa pelo Governo do Estado em 2026 reúne múltiplos pré-candidatos viáveis, alianças em formação, movimentos partidários estratégicos e forte influência do cenário nacional. Mais do que uma sucessão estadual, o pleito pode se tornar peça-chave na engrenagem presidencial.

O epicentro das decisões está no governador Ratinho Junior (PSD). Com elevado capital político e projeção nacional, Ratinho avalia disputar a Presidência da República. Se isso ocorrer, deve lançar como candidato ao Governo o atual secretário das Cidades, Guto Silva (PSD), considerado o nome preferido dentro do grupo governista.
O bloco que pode sustentar essa candidatura é robusto: PSD, Republicanos, NOVO, Podemos, PL e PSDB-Cidadania. Trata-se de uma ampla coalizão de centro-direita que, unificada, teria forte capilaridade no interior e competitividade nas principais cidades.
Caso Ratinho Junior não dispute a Presidência, três cenários são possíveis: pode concorrer ao Senado, pode optar por não disputar nenhum cargo ou pode atuar apenas como articulador político. Cada uma dessas decisões reorganiza o jogo. Se for candidato ao Senado, muda a engenharia das vagas e reduz o espaço para aliados que também almejam a Câmara Alta.
A sucessão no PSD e as tensões internas
Embora Guto Silva seja o favorito do governador, a sucessão não é automática. O presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (PSD), também se movimenta.
Curi já deixou claro que deseja protagonismo. Caso não seja escolhido pelo PSD, pode migrar para o Republicanos e viabilizar uma candidatura própria ao Governo. Ele inclusive sondou o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (PSD) para compor como vice em uma eventual chapa alternativa. Além disso, Alexandre Curi já cogitou disputar o Senado, o que ampliaria ainda mais o número de candidatos competitivos à vaga.
Rafael Greca, aliás, é peça-chave no tabuleiro. Ex-prefeito de Curitiba e responsável por ter auxiliado diretamente na eleição do atual prefeito Eduardo Pimentel (PSD), Greca tinha a promessa de assumir a Secretaria das Cidades (SECID), mas acabou sendo deslocado para a SEDEST. O gesto foi lido por parte do grupo como reacomodação política.
Greca pode permanecer fiel ao grupo de Ratinho Junior, pode compor como vice em uma chapa alternativa ou até migrar de partido. O deputado federal Ricardo Barros (PP), que comanda o PP estadual na federação União Brasil-PP, já cogitou levar Greca ao partido para disputar o Governo pelo PP.
Sergio Moro e a federação União Brasil-PP
No campo da direita, o senador Sergio Moro é pré-candidato ao Governo pela federação União Brasil-PP. Entretanto, sua candidatura depende do aval definitivo do comando estadual do PP, liderado por Ricardo Barros.
Caso não consiga consolidar apoio interno, Moro pode migrar para o PL. Mesmo que permaneça na federação, pode atuar como palanque no Paraná para o senador Flavio Bolsonaro (PL), que desponta como pré-candidato à Presidência.
Na composição da chapa, Ricardo Barros pode indicar a vice. O nome mais cotado é o da deputada estadual Maria Victoria (PP), o que reforçaria o controle do PP na aliança.
Para o Senado nesse grupo, a jornalista Cristina Graeml é pré-candidata, fortalecida após a disputa da Prefeitura de Curitiba em 2024.
A frente de esquerda com Requião Filho
No campo progressista, o deputado estadual Requião Filho (PDT) é o pré-candidato ao Governo. A estratégia é formar uma ampla frente com PT, PCdoB, PSOL, Rede e possivelmente o MDB.
Para o Senado, o nome mais forte da chapa é o da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), o que tende a nacionalizar o debate e reforçar o alinhamento com o governo federal.
Os “players avulsos” que podem mudar o jogo
A disputa ao Senado é um capítulo à parte. O ex-governador e senador Alvaro Dias, agora no MDB, deseja disputar uma vaga ao Senado. No entanto, sua candidatura depende da decisão do MDB: apoiar Requião Filho ou integrar o bloco governista.
O deputado federal Felipe Barros (PL) foi escolhido pela família Bolsonaro como pré-candidato ao Senado pelo Paraná e deve integrar a chapa onde o PL estiver.
Já Deltan Dallagnol (NOVO), cassado como deputado federal, quer disputar o Senado, embora enfrente obstáculos jurídicos que podem inviabilizar sua candidatura.
Há ainda a pré-candidatura de Luiz Felipe Franca, advogado que representa o recém-criado partido Missão. Trata-se de uma candidatura em fase de estruturação, mas que pode ocupar espaço no campo conservador fora das grandes federações.
O papel estratégico de Eduardo Pimentel
O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), embora não seja candidato em 2026, é considerado fiel da balança. Ele pode apoiar Rafael Greca, apoiar Alexandre Curi – que coordenou sua campanha para Prefeito, ou manter fidelidade integral ao grupo de Ratinho Junior e apoiar o nome indicado pelo governador. Seu vice é Paulo Martins (NOVO), o que também adiciona complexidade ao alinhamento político na capital.
Um cenário aberto e altamente competitivo
Para o cientista político Tiago Valenciano, o Paraná vive um momento singular. “Estamos diante de um dos cenários mais competitivos dos últimos anos no Estado. Há mais possibilidades reais de candidaturas viáveis e um número maior de indefinições estratégicas. Isso torna a eleição altamente aberta”, afirma.
Segundo ele, a multiplicidade de nomes não representa apenas fragmentação, mas também maior poder de negociação. “Diferentemente de outras eleições em que já havia um favorito consolidado nesta fase pré-eleitoral, agora temos variáveis nacionais que impactam diretamente o Paraná. A decisão de Ratinho Junior sobre disputar ou não a Presidência é a chave do tabuleiro.”
Valenciano acrescenta: “Não será uma eleição protocolar. Será uma eleição de construção política intensa, com negociações até o limite das convenções. É, sem dúvida, um dos cenários mais indefinidos e disputados da história recente do Paraná.”
Com três grandes campos competitivos — o grupo governista, a direita ligada à federação União Brasil-PP/PL e a frente de esquerda — além de candidaturas alternativas, o Paraná entra em 2026 com mais perguntas do que respostas.
