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COLUNISTAS

PÍLULAS: O ESCÂNDALO, 1917, JOJO RABBIT

Publicado por Elton Telles, 19:19 - 20 de February de 2020

A premiação considerada mais importante da indústria do cinema, o Oscar, atribuído pela a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, acabou de anunciar seus vencedores. No total, compreendendo as 24 categorias, o saldo foi de 16 produções premiadas com pelo menos 1 estatueta. O sul-coreano “Parasita” liderou o bando com 4 merecidas vitórias, incluindo Melhor Filme.


Nesta edição do Pílulas, a coluna traz resenhas de três filmes reconhecidos no Oscar 2020: “O Escândalo”, drama sobre assédio sexual em um grande conglomerado de comunicação (vencedor em Melhor Maquiagem); o épico de guerra “1917”, premiado com três carecas dourados em categorias técnicas (Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Mixagem de Som); e a sátira “Jojo Rabbit”, narrada em tempos sombrios do Nazismo na Alemanha (Melhor Roteiro Adaptado).

bombshell

Foto: Divulgação

Um dos casos precursores do Me Too, movimento em que mulheres se uniram para denunciar personalidades por assédio sexual, envolve o tradicional canal de TV Fox News, de onde alguns executivos e o presidente magnata, Roger Ailes, foram condenados por estupro. O filme “O Escândalo” remonta este episódio, mostrando particularidades que antecederam a erupção do vulcão, quando a jornalista Gretchen Carlson deu a cara à tapa, abertamente fez sua acusação e abriu processo contra Ailes. Em vez de adotar um tom opressor para uma história nitidamente trágica, o roteiro de Charles Randolph opta por saídas cômicas, que, às vezes surgem inadequadas, mas em sua totalidade não suavizam a situação e sublinham o contexto desesperador da história. Essa escolha da “comédia nervosa” também permite ridicularizar o pensamento conservador dos envolvidos, dos predadores e das presas.


No entanto, além do fato de ser “muito americano”, o enredo de “O Escândalo” patina e nunca alcança o ápice de sua relevância, entregando-se a obviedades e resoluções simplificadas do que poderia ser um documento importante em prol das vítimas de assédio. A sensação é que o filme não demonstra preocupação com as mulheres usadas na trama, encaradas como meros artifícios dramatúrgicos para que o roteiro se acomode em sua mínima coesão. Para ilustrar, é lamentável a lógica da subtrama envolvendo a descartável personagem da atriz Margot Robbie: uma jovem estagiária e aspirante a âncora que topa certas condições para ascender na carreira e depois se arrepende. O despreparo com que essa linha narrativa é contada não despende empatia e beira a crueldade.


Produzido e protagonizado por uma ótima Charlize Theron, “O Escândalo” tem acertos e flashes de momentos inspirados. O filme não chega a ser um desserviço, mas percorre caminhos tortos e joga no lixo a oportunidade de ser mais valioso.

Foto 1917

Foto: Divulgação

Como representar o irrepresentável? Em um cenário de guerra, é um compromisso ético reconstruir (ou desconstruir) fronts, trincheiras, esconderijos e campos de batalha para poder contar uma história. Terrence Malick, por exemplo, se apropriou de uma linguagem poética e contemplativa em “Além da Linha Vermelha” (1998); no mesmo ano, com “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), Steven Spielberg lançou um olhar mais realista sobre o confronto; já no pouco conhecido “Na Ventania” (2014), o diretor estoniano Martti Helde criou uma espécie de ensaio apenas com imagens congeladas mostrando o horror da guerra. Esses são alguns exemplos de que, independentemente da cosmética da representação, cada realizador é responsável pela roupagem emprestada à narrativa de suas produções. No caso de “1917”, em meio aos escombros da Primeira Guerra Mundial, o britânico Sam Mendes escolhe o plano-sequência para acompanhar a odisseia de dois soldados que precisam atravessar o território inimigo para entregar uma informação importante aos aliados.


O recurso dos longos planos, com cortes de cenas muitas vezes imperceptíveis, é muito bem administrado por Mendes. Antes de ser um filme de guerra, o roteiro foca no fator humano e seu dever de lealdade, o que garante imersão e densidade dramática. Entretanto, o que mais se leva de “1917” é a admiração pelos exímios atributos técnicos, desde a operação da câmera, excelente design de som com diversas camadas e o trabalho de iluminação, que é de encher os olhos. É um grande espetáculo, felizmente sem espetacularizar a guerra, não declinando ao virtuosismo gratuito para torná-la “bonita”. Utilizando o plano-sequência, Mendes consegue driblar o conceito puramente estético e usá-lo a seu favor, concebendo uma experiência com forte conexão visual e emocional.

Foto Jojo Rabbit

Foto: Divulgação

“Jojo Rabbit” não é o primeiro filme dirigido e roteirizado por Taika Waititi centrado na infância e com abordagem fabulesca. Anteriormente, não só o cineasta já colocou essa combinação em prática, como havia demonstrado uma veia expressiva para a comédia em projetos como “Boy” (2010) e “A Incrível Aventura de Rick Baker” (2016). É um infortúnio que a sua receita não tenha sido tão bem-sucedida com este novo lançamento, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por alguma razão inexplicável. Afinal, é justamente no script que se encontram as maiores falhas de “Jojo Rabbit”, e não me refiro à (bem-vinda) ousadia de Waititi em abordar o Nazismo com humor, uma vez que tantos mestres da comédia, de Charlie Chaplin a Mel Brooks, já fizeram; o que prejudica o filme é falta de consistência em piadas pouco favorecidas, alusões pobres e sem sabor de novidade, além de uma série de escolhas simplórias, com a inclusão de uma ou duas frases de efeito engraçadinhas para empalidecer a falta de criatividade do escopo.


Definitivamente, o roteiro pastelão de “Jojo Rabbit” não colabora, mas o filme é aliviado pelo ótimo elenco, principalmente o trio de atores mirins Roman Griffin Davis (fantástico), Archie Yates (sensacional), Thomasin McKenzie, além da participação radiante de Scarlett Johansson como a mãe do personagem-título. O mesmo não se pode dizer dos demais atores, a ala de “nazistas do bem”, o que inclui o Hitler imaginário interpretado pelo próprio diretor. Essa, aliás, uma ideia bem desajeitada e que, por vezes, trunca a história de ir adiante. Tendo algumas cartas na manga para seduzir o público, como a trilha sonora incidental com Beatles e David Bowie, “Jojo Rabbit” não conseguiu fazer tão bem a diferenciação de que é possível ridicularizar sem soar ridículo. Tenho comigo que o canal Porta dos Fundos faria melhor...

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