A nova deterioração das expectativas inflacionárias trazida pelo boletim Focus, mais revisões altistas para a Selic de players importantes, a escalada do petróleo e o ceticismo crescente sobre uma resolução para o conflito no Oriente Médio formaram um combo que impulsionou os juros futuros na sessão de hoje. As taxas renovaram máximas intradia nos minutos finais do pregão e superaram 14% em todos os vértices, diante de percepção “ultra hawk” que dominou o mercado.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,083% no ajuste de sexta-feira para 14,205%. O DI para janeiro de 2029 saltou a máxima intradia de 14,06%, vindo de 13,841% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,884% no ajuste a máxima de 14,04%.
Após recuarem cerca de 10% na última semana, as cotações do petróleo escalaram ao redor de 5% na sessão regular desta segunda, pressionadas pelo acirramento das tensões geopolíticas, após a suspensão de comunicações entre Estados Unidos e Irã, ataques de Israel no Líbano e, ainda, incertezas sobre a oferta global da commodity.
Já por aqui, o Focus mostrou nova rodada de deterioração das estimativas do mercado para a inflação: a mediana dos analistas para o IPCA de 2026 passou de 5,04% a 5,09%; para 2027, de 4,01% a 4,02%; e para 2028, horizonte que tem sido citado como fonte de preocupação pelo BC, de 3,65% a 3,66%.
“Está ganhando corpo no mercado essa narrativa de um BC ‘ultra hawk’, tentando conter as expectativas de inflação longas”, disse um gestor da mesa de renda fixa de uma grande corretora, sob anonimato. “A curva praticamente não tem queda até janeiro de 2027”, observou.
Em reunião trimestral com o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, realizada hoje, a Broadcast apurou que economistas discutiram o espaço para mais flexibilização dos juros. Um grupo minoritário de participantes chegou a levantar um possível risco à credibilidade da autoridade monetária caso siga avançando nas reduções.
A taxa terminal apontada pela curva estava em 14,25% no final da tarde, destaca Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, ante 14,05% na última sexta-feira. Para a reunião de junho, a curva precifica cerca de 70% de chance de redução de 0,25 ponto na Selic, com um corte “residual” projetado para o encontro de agosto do Copom, menciona Serrano. “O petróleo subindo é o pano de fundo”, disse.
Gestor de portfólio da Heritage Capital, Eduardo Cohn afirma que, além do conflito no Golfo Pérsico – que foi o responsável pela alta dos DIs na etapa intermediária do pregão e retroalimenta as expectativas para o IPCA -, fatores internos também estão se somando e devem exigir postura ainda mais cautelosa do Copom daqui em diante.
Na visão de Cohn, o BC deveria interromper o ciclo de calibração da Selic após mais um corte de 0,25 ponto neste mês. “É prudente, no papel de um banqueiro central, dar uma pausa, e esperar o desenrolar da guerra e eleição”, disse o gestor, para quem a Selic deve encerrar 2026 em 14% ano. Em seu cenário, o colegiado deve manter a taxa em 14,25% em agosto, voltando a diminui-la, com outro corte de 25 pontos-base, somente após eleições.
A equipe econômica chefiada por Mario Mesquita, que já foi diretor de Política Econômica do BC, elevou a estimativa para o juro básico ao final deste ano, de 13,25% para 13,75%, citando a nova piora do cenário inflacionário e a resiliência da atividade. O ritmo de quedas de 0,25 ponto porcentual por reunião estimado antes foi mantido, “sem espaço para aceleração”.
Outro ex-integrante do Copom também deu declarações em igual direção. Em entrevista ao Valor Econômico publicada antes da abertura dos negócios, Bruno Serra Fernandes, da família de fundos Janeiro, da Itaú Asset, defendeu que, se estivesse no BC hoje, preferiria interromper o ciclo de flexibilização monetária.
“Os dois já sentaram do outro lado. É preciso prestar atenção no que eles falam, mexe com o mercado”, afirmou Cohn, que também ressalta o ambiente externo volátil como outro fator que atrapalharia o BC a seguir cortando os juros. “Isso vem se somando e não vai dar para cortar tanto a Selic quanto se imaginou”, concluiu.