Taxas de juros disparam na sessão com escalada do petróleo e tom conservador do Fed


Por Agência Estado

Já pressionados desde a abertura dos negócios pelo salto do petróleo, que subiu mais de 5% na sessão e chegou a se aproximar da marca de US$ 120 o barril no caso do Brent, os juros futuros aceleraram ainda mais e renovaram máximas intradia rumo ao fechamento desta quarta-feira, 29.

Entre um viés “hawkish” do comunicado do Federal Reserve (Fed) que acompanhou a manutenção dos juros e um discurso considerado neutro em relação ao texto do presidente do Fed, Jerome Powell, as taxas locais acabaram por ganhar impulso adicional após a decisão, alinhados aos retornos dos Treasuries.

Já por aqui, a geração de vagas formais acima do teto das expectativas, num momento em que o mercado de trabalho é considerado o foco mais resiliente da economia, deu suporte ao movimento, a poucas horas da decisão de juros do Comitê de Política Monetária (Copom). O Ministério do Trabalho divulgou que foram abertas 228.208 vagas formais em março, além das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, de 220 mil. O dado acentuou ligeiramente a alta dos DIs.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 14,123% no ajuste anterior a 14,205%. O DI para janeiro de 2029 disparou a 13,845%, vindo de 13,594% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou forte alta, de 13,597% a 13,835%.

A decisão de manter os juros dos EUA inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% teve apenas uma dissidência, do diretor Stephen Miran, que votou por uma redução de 0,25 ponto. Por outro lado, elementos do comunicado do Comitê de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) foram avaliados como conservadores, assim como a postura dos dirigentes Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan. O trio votou pela manutenção mas não apoiou, neste momento, a inclusão de um viés de flexibilização monetária no texto, que no entanto, acabou sendo mantido.

Profissionais de renda fixa também deram peso à caracterização pelo Fed da inflação como “elevada”, em parte refletindo a elevação dos preços de energia. Para o BC americano, os desenvolvimentos no Oriente Médio estão adicionado alto nível de incerteza às perspectivas econômicas. Na coletiva que sucedeu o comunicado – a última de Powell à frente da autoridade monetária -, o banqueiro central destacou que os custos elevados de energia devem impulsionar a inflação no curto prazo, e que estes preços não atingiram seu pico.

Para Tomás Urani, economista responsável por análise internacional do Santander, a maior surpresa com viés hawkish no documento do Fed veio da dissidência de Hammack, Kashkari e Logan, que votaram contra a manutenção do viés de relaxamento monetário no texto. “De fato, o trecho foi preservado, mas o número de votos contrários reforça uma divisão interna mais evidente, o que confere um tom marginalmente mais duro à decisão”, disse Urani.

Segundo Laís Costa, analista de renda fixa da Empiricus Research, um número maior de modificações ao comunicado tornou a postura do texto também mais dura. Além disso, o BC americano foi “bem incisivo” em relação à sua avaliação de que a inflação está pressionada, bem como desenvolvimentos do conflito entre EUA e Irã, que entra em seu terceiro mês.

As indicações dadas pela autoridade monetária dos EUA dificultam uma aceleração adicional do ritmo de cortes da Selic pelo BC brasileiro, aponta Costa. A definição desta quarta, de acordo com ela, é uma das mais difíceis para o BC comandado por Gabriel Galípolo. “Este choque está alugando um apartamento triplex na cabeça de cada um lá dentro. É difícil eles soarem ‘dovish’ hoje quarta-feira, 29. Precisam tomar cuidado com o tipo de indicação; se for de continuação do ciclo, vão perder a ponta longa da curva”, avaliou.

Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz avalia que o último impulso dos DIs quase na hora final da sessão se deve à proximidade do resultado da reunião do Copom. “Há o risco de ter algum viés ‘hawkish’ deles”, disse.

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