Os livros da biblioteca do psiquiatra Daniel Martins de Barros são todos etiquetados e listados em uma planilha. Mas ele garante que a organização não nasceu de um traço obsessivo, e sim de uma urgência prática. “Não sou metódico nem bagunçado. Isso aqui foi por pura necessidade.”
As obras estão todas registradas e o médico contou com a ajuda de uma bibliotecária na missão.
A estante do professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP tem livros que vão da divulgação científica à ficção e clássicos da literatura. Seu xodó atual é Kurt Vonnegut, norte-americano autor de obras como Matadouro 5, As Sereias de Titã e Cama de Gato.
“O mais recente que li dele foi Piano Mecânico. Este livro deveria ser debatido nas escolas, nas universidades, porque ele é presciente com relação à inteligência artificial e aos possíveis caminhos a que a IA vai nos levar”, avalia Barros sobre a obra que foi lançada em 1952.
A seguir, mais sete indicações feitas por Barros ao longo do tour por suas estantes:
1. Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler
“Foi esse livro que me fez começar a organizar a biblioteca, porque eu não lembrava que tinha e acabei comprando repetido. Aí eu falei: não pode acontecer isso”, explica Barros.
“O Freud dizia que o Schnitzler era a alma gêmea dele. O que o Freud fazia em ciência, o Schnitzler fazia na literatura. E foi esse livro inclusive que deu origem ao filme De Olhos Bem Fechados longa de 1999 protagonizado por Tom Cruise e Nicole Kidman.” (Companhia de Bolso)
2. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, de Daniel Kahneman
“É um livro muito citado, mas pelo tamanho você vê que ele é pouco lido. E eu mesmo pensei em não ler, porque já tinha estudado tanto sobre vieses cognitivos, já tinha visto tantas citações deste livro… Mas valeu a pena. É como ouvir falar do Pelé e depois assistir de fato ao Pelé jogando. Quando um psicólogo ganha o Nobel de Economia, como é o caso do Kahneman, você precisa prestar atenção.” (Editora Objetiva)
3. Esquisitologia: A Estranha Psicologia da Vida Cotidiana, de Richard Wiseman
“Richard Wiseman faz divulgação científica de uma maneira muito acessível e prática. Ele me influenciou muito no jeito de escrever, de trazer a ciência para a relevância do dia a dia das pessoas.” (BestSeller)
4. Kindred, da Octavia Butler
“Ela é conhecida como a grande dama da ficção científica. Era uma escritora mulher preta nos anos 1970 e 1980 que conseguiu se destacar não só na literatura, mas na literatura de ficção científica, que era um negócio completamente dominado por homens brancos.” (Morro Branco)
5. A Falsa Medida do Homem, de Stephen Jay Gould
“Gould é outro autor de quem gosto muito. Nesta obra, ele volta aos dados brutos e mostra como a comunidade científica interpretou dados com uma ótica racista no século 19 para indicar que algumas raças tinham uma suposta superioridade intelectual. É um livro que mostra que a ciência também não é neutra. Ela tem seus pressupostos e contextos sociais.” (WMF Martins Fontes)
6. Mortais: Nós, a Medicina e o que Realmente Importa no Final, de Atul Gawande
“Ele faz uma reflexão muito atual sobre como nosso instinto de sobrevivência entra em conflito com a tecnologia que prolonga a vida. A maior intensidade de gastos médicos acontece nos últimos momentos da vida. E, no fundo, este livro é um lembrete de que todo mundo vai morrer, e a gente vive um pouco como se isso não fosse acontecer.” (Editora Objetiva)
7. Tempo de Despertar, de Oliver Sacks
“Inspirou um filme, com Robin Williams, que tem o mesmo nome do livro. Ele faz o papel do próprio Oliver Sacks, ou seja, um neurologista que vai trabalhar com pacientes que ficaram décadas paralisados por um transtorno neurológico. Fiquei tão impactado que quase decidi fazer neurologia na época da faculdade. Ele era neurologista.” (Companhia das Letras)