Foi plágio ou não foi?, pergunta filme com o astro pop Nick Jonas


Por Agência Estado

O cineasta John Carney não consegue escrever por mais de 20 minutos seguidos. O baixo limiar de atenção o expulsa do laptop e o joga no piano – e é desse vaivém compulsivo entre as duas coisas que nascem filmes como Sing Street, Mesmo Se Nada Der Certo e, agora, Hit para Dois (Power Ballad), que estreou no Brasil na semana passada.

“Encontro um equilíbrio gostoso entre o roteiro e o instrumento”, diz o diretor irlandês, em evento virtual com a participação do Estadão. A confissão serve como chave para entender o novo longa: uma história sobre o que significa, de fato, fazer uma canção. De quem ela é. O que revela sobre quem a assina.

Em Hit para Dois, Paul Rudd vive Rick Power, um músico americano radicado na Irlanda que toca em banda de casamento e carrega a dor de saber que uma de suas composições foi parar nas mãos de Danny Wilson, astro pop interpretado por Nick Jonas. Ao longo da história, tenta fazer justiça por sua música, por tudo o que ela representa, enquanto luta contra a frustração por não decolar na carreira.

Curiosamente, apesar desse “roubo”, o filme não tem vilão. Essa foi uma decisão deliberada de Carney e de seu corroteirista Peter Straughan. “Eu não acredito que o roubo de música seja assim tão preto no branco”, diz o diretor. “Ninguém se senta para plagiar conscientemente. É muito mais complexo do que isso.”

Para ilustrar, recorre a uma história que conta como se fosse evangelho: a de que George Michael e Barry Manilow chegaram a um acordo discreto sobre a semelhança entre Last Christmas e uma canção na voz de Manilow, Cant Smile Without You, optando por destinar os royalties a uma instituição de caridade. “Dois músicos adultos dizendo: Eu provavelmente não sou dono de Mandy, e você provavelmente não é dono de Last Christmas. É a melhor resolução que já ouvi para uma história de plágio”, diz.

Coincidências

Jonas, que construiu carreira desde a infância, primeiro com os Jonas Brothers e depois solo, diz que versões menores desse conflito fazem parte do cotidiano de qualquer compositor. “Há tantas notas no teclado, tantas melodias possíveis, com milhares de canções escritas todo dia no mundo inteiro, alguma coincidência vai acontecer”, opina.

O que o atraiu no roteiro foi exatamente a recusa em transformar Danny num antagonista de carteirinha. “Ele pode ter sido um cara que tomou uma má decisão sem nem perceber direito o que estava fazendo. Isso complica a história e a torna muito mais interessante”, afirma.

Tanto que Jonas chegou a delinear, para si mesmo, um epílogo não filmado: antes dos créditos, Danny já teria procurado Rick e acertado as contas – não necessariamente em público, mas de forma real. “Espero que o público, depois do filme, debata o que acha que aconteceu”, conta.

Rudd, por sua vez, vai mais longe na dissolução da ideia de autoria. O que ele diria a artistas que tiveram obras negadas ou silenciadas? A resposta surpreende: “Se você tira o ego da equação, o ato de criar algo já é uma coisa extraordinária, mesmo que só você saiba disso”, diz. “A quantidade de pessoas que não receberam crédito pelo que fizeram provavelmente nos esmagaria se soubéssemos o número real.”

É uma fala que poderia soar como consolo vazio, mas vem de alguém que passou décadas numa indústria que ele mesmo descreve como uma sucessão de apostas – algumas que vingaram, muitas que não.

Só música

O que une os três, porém, é algo anterior a qualquer disputa de crédito: a memória de quando a música era só música, sem contrato nem algoritmo. Carney fala do walkman do irmão mais velho, do trajeto de bicicleta para a escola em Dublin, quando uma canção certa fazia até a bike decolar, como em E.T. – O Extraterrestre.

Já Jonas lembra do carro da família em Nova Jersey, com um CD dos Beatles tocando, e de uma frase de Let It Be que ainda o atinge no centro do peito décadas depois. Rudd conta, sem cerimônia, que quando era criança de 4 ou 5 anos subia na cama, segurava uma escova de cabelo como microfone e cantava para o espelho. “Passei a vida inteira imaginando isso. Então foi como brincar de fantasiar por alguns meses”, afirma, rindo.

É nessa sobreposição – entre o menino que cantava para o espelho e o ator que grava num estúdio em Dublin, entre o compositor que não sabe bem de onde veio a melodia e o diretor que não sabe bem de onde veio o filme – que Hit para Dois encontra seu território.

Carney tem uma teoria sobre por que seus filmes emocionam sem que ele precise forçar nada. “Eu nunca me propus a fazer ninguém chorar. Mas a música entrou na minha veia quando eu era criança, direto no coração, sem precisar de letra. Acho que meus filmes tentam recriar isso”, afirma.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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