
Tchéquia, Paraguai e Brasil. Três países que fazem parte da história de Anna Paula Moreira, atleta de basquete da ADRM Maringá. A armadora, de 22 anos, chegou à equipe nesta temporada e foi um dos destaques da campanha histórica que colocou o Maringá nos playoffs da Liga de Basquete Feminino (LBF) pela primeira vez.
Apesar do nome brasileiro, Anna Paula nasceu na Tchéquia (República Tcheca), no leste europeu, onde morou até os 18 anos de idade. Mas ela possui raízes brasileiras e paraguaias. Para entendermos, precisamos conhecer a história do pai de Anna Paula, Martin Odilon Moreira Gracia.
Martin nasceu em Curitiba, no Paraná, em 1973. Ele é filho de pai paraguaio e mãe brasileira, que se conheceram na capital paranaense depois da família do pai deixar o Paraguai para morar no Brasil, no fim da década de 1960. A mudança aconteceu devido ao regime ditatorial de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989.
Martin, no entanto, morou no Brasil por apenas alguns meses. Sua família teve condições de voltar ao país natal, onde se instalaram na capital Assunção.
Anos depois, o profissional de TI e empresário queria conhecer a Europa, mas não em lugares comuns, como Itália ou Espanha. Em 2002, aos 29 anos, decidiu ir para a Tchéquia, onde conseguiu um trabalho e conheceu Blanka Bilkova, com quem casou-se. Morando no país tcheco, em Brno, Martin e Blanka tiveram três filhas: Anna Paula, Anna Julia e Anna Lucia. Pai brasileiro-paraguaio e mãe tcheca deram origem à “complexa” nacionalidade das filhas.
Questões políticas fizeram a família se mudar outra vez
Em fevereiro de 2022, a Rússia declarou guerra à Ucrânia, em oposição à adesão do país rival à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O conflito influencia países vizinhos até hoje, como a República Tcheca, gerando insegurança nos habitantes. Na Tchéquia, que faz parte da Otan, as mulheres também são convocadas para servir ao exército, situação que gerou receio na família Moreira.
Pela segurança das filhas, Martin e Blanka decidiram se mudar para o Paraguai em julho de 2022, deixando a Tchéquia e a guerra em seu ápice. O conflito ainda persiste.
— Era onde eu conhecia. Seria mais fácil começar aqui no Paraguai de novo do que tentar uma coisa no Brasil. A gente acreditava, pelo menos — explicou Martin.
O esporte para a família Moreira
Anna Paula começou a jogar basquete aos 5 anos de idade, passando por todas as categorias de base e disputando muitos torneios na Tchéquia, onde jogou nas maiores ligas do país até 2022. Mas foi no Paraguai que a atleta conheceu o esporte.
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— Quando eu era muito pequena, nós fomos visitar a família no Paraguai. Foram dois meses, eu acho, de férias. Lá tem um clube esportivo, que se chama Club Sajonia, e tem todos os esportes. As crianças podem ir e provar de tudo. Então, eu provei bastante esportes. Natação, vôlei, futebol, todas essas coisas. E o basquete foi o que mais eu gostei — contou Anna Paula.
Além de Paula, a irmã Anna Julia também jogou basquete por muitos anos, até decidirem se aventurar no remo, ainda na Europa. O esporte foi uma indicação do pai, que praticou por muitos anos na juventude.
— Ele queria que tivéssemos essa experiência, porque é um esporte muito lindo. E provamos as duas. A mim não me chamou tanto a atenção, mas minha irmã ficou com isso.
Atualmente, Anna Julia, de 19 anos, é atleta de remo no Flamengo, no Rio de Janeiro, no que foi o início da trajetória das irmãs no território brasileiro. Anna Paula não deixou o basquete e focou na continuidade no esporte da bola laranja. Já a caçula Anna Lucia, de 10 anos, também iniciou as práticas no remo.
A vinda para o Brasil
Após a mudança para Assunção, Anna Paula e Anna Julia continuaram em seus esportes. A qualidade das irmãs se sobressaiu e Anna Julia foi sondada para integrar a Seleção Paraguaia de Remo nos Jogos Pan Americano Júnior de 2025, que foi realizado em Assunção. Para isso, era necessário concluir sua naturalização.
A intensa burocracia paraguaia não permitiu que a documentação fosse finalizada a tempo da competição e Anna Julia não participou.
— Como a gente já viu que não ia dar certo, eu falei para a Ana Julia se ela não queria tentar falar com alguém do Brasil, para ver se tinha possibilidades. Na verdade, eu tive essa ideia muito, muito, muito tarde — contou Martin.
Vendo a possibilidade da irmã ir para o Brasil, Anna Paula também pediu aos pais a mesma oportunidade.
— [Escolhi o Brasil] Pela oportunidade do nível do basquete mais alto, porque a Liga Paraguaia é muito curta, tem apenas quatro equipes. Eu sou apaixonada pelo basquete e eu queria crescer um pouco nesse sentido, então me pareceu uma boa ideia também — disse Anna Paula.
Foi então que Martin passou a procurar clubes de remo e basquete que pudessem receber suas filhas. Ele chegou a Blumenau, por meio do técnico do Clube América e atual coordenador nacional de projetos da Confederação Brasileira de Remo, Roque Zimmermann. A cidade catarinense também era sede do Blumenau Basquete, que disputou a LBF em 2025. Seria uma opção para enviar as duas filhas para a mesma cidade.
No fim, a ida para Santa Catarina não deu certo. Anna Julia contou a seu treinador no Paraguai que buscava uma mudança para o Brasil, e então ele indicou que a jovem fosse ao Flamengo, a indicando para a comissão técnica do clube carioca. O próprio treinador Zimmermann aconselhou a jovem a seguir para o Rio de Janeiro, devido à grande estrutura de esportes aquáticos do Flamengo.
Nas primeiras semanas no clube rubro-negro, Anna Julia competiu no Campeonato Brasileiro Interclubes de barcos longos, em 2025, conquistando duas medalhas de ouro, uma prata e uma bronze.
Pela proximidade com o Paraguai, a ADRM Maringá também foi uma das possibilidades de destino de Anna Paula. Com a não ida da irmã a Blumenau, a basquetebolista visitou Maringá em setembro de 2025 e foi muito bem avaliada pelo técnico Rafael Oliveira na disputa do Campeonato Sul-Brasileiro sub-23.
As irmãs se mudaram definitivamente para o Brasil no início deste ano, após finalizarem etapas de estudo no Paraguai. Anna Julia terminou o Ensino Médio, enquanto Anna Paula encerrou o segundo ano da faculdade de Arquitetura. A atleta do Maringá segue na graduação no regime on-line.
Com o sonho de seguir no esporte e chegar ao mais alto nível, Anna Paula pode ter a opção de representar três seleções nacionais. Perguntada a respeito de qual escolheria, ele indiciou sua preferência, mesmo deixando a porta aberta para todas.
— Muitas pessoas me perguntam isso. Já me chamaram na Seleção Paraguaia. Assim como fizeram com minha irmã. Só faltavam os documentos para fazer a tempo, mas não deu. Eu acho que, se me chamarem para alguma seleção, o mais alcançável no momento é a seleção paraguaia. Na verdade, eu gostaria da República Tcheca — declarou Anna Paula.
A vida em Maringá e o desafio do idioma
Anna Paula foi alfabetizada em tcheco e tinha contato com o espanhol através de Martin e nas visitas ao Paraguai. Hoje é fluente nas duas línguas, mas teve pouco contato com o português, apesar da origem brasileira do pai.
A armadora da ADRM Maringá mora em uma casa com as outras atletas da equipe, e é a única estrangeira. No início, todas tiveram problemas de comunicação, mas com o tempo passaram a se acostumar com os diferentes idiomas. Apesar das dificuldades, Anna não faz aulas de português, por acreditar que a prática é a melhor forma de aprender.
— Eu fui com zero nível de português, o treinador não me entendia, as companheiras não me entendiam, foi um pouco caótico. Mas este ano, justamente como estamos vivendo todas juntas, treinamentos duas vezes ao dia, já é mais fácil para as meninas também. Elas estão aprendendo espanhol.
Temporada histórica na LBF
A ADRM Maringá disputou a LBF pela segunda vez em 2026 e se classificou para os playoffs de forma inédita, após a oitava colocação na primeira fase. O time acabou eliminado pelo líder Sampaio Basquete nas quartas de final, com duas derrotas, mas deixou ótima impressão na competição.
— Eu acho que superamos muito as expectativas, não só nossas, mas de todo o mundo, basicamente. Muitas pessoas não acreditavam em nós. Eu posso dizer que fomos um rival difícil, os outros times tinham complicações com a gente, até as melhores equipes. Somos a equipe mais jovem da liga, e acho que crescemos muito nesse tempo. O nosso objetivo foi se classificar aos playoffs, e isso fomos capazes de cumprir. Isso é algo muito bom por estar na competição só no segundo ano. Então, estamos muito felizes com o que pudemos alcançar.
O destaque de Anna Paula na competição rendeu a ela o convite para integrar a Equipe Mundo no Jogo das Estrelas da LBF, time que reúne as melhores jogadoras estrangeiras da liga. O selecionado foi derrotado pelo Time Brasil por 80 a 67. A jogadora do Maringá também foi convidada para participar do Torneio de Habilidades do evento.
— Foi incrível. Porque eu não esperava nem a seleção para o time das estrelas. Foi uma notícia muito inesperada. Fiquei muito feliz. Estava em um ambiente de jogadores com muita experiência. Foi muito enriquecedor.