26 de março de 2025

‘A Hora da Colheita’: Safra de grãos no Paraná recupera perdas de 2024


Por Luciana Peña/CBN Maringá Publicado 24/03/2025 às 15h30
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A CBN Maringá promoveu nesta segunda-feira, 24, a edição 2025 do evento “A Hora da Colheita”, um encontro que reúne lideranças, especialistas e representantes do agronegócio para debater o panorama da safra e as tendências do setor para o próximo ciclo.

Com 80% da colheita encerrada no Paraná, a previsão é que a produção de soja e milho neste ano compense em grande parte as perdas do ano passado. O clima não atrapalhou tanto quanto na safra anterior e, para se antecipar ao tempo, agricultores da região noroeste do estado investem num sistema inédito de previsão meteorológica.

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Foto: Luciana Peña/CBN Maringá

O Paraná plantou cinco milhões de hectares de soja e milho na safra 2024/2025 e 80% da colheita já foi encerrada. Neste momento, o risco de perda é quase zero. Na safra de verão anterior, 2023/2024, a quebra chegou a 40%, por causa da seca no desenvolvimento vegetativo e da chuva em excesso na colheita.

Neste verão o clima não atrapalhou tanto, quando 20 dias de estiagem em janeiro provocaram quebra de 10% em algumas regiões produtoras. Mas nada que se compare com a safra passada.

A recuperação das perdas será importante, diz o presidente executivo da Coamo Agroindustrial Cooperativa, Airton Galinari.

— Nós temos regiões que realmente foram muito bem, as regiões principalmente de mais altitude, regiões que tradicionalmente fazem sua colheita um pouco mais tarde. Essas realmente foram mais assertivas. Nós temos grande produtividade do centro-sul do Paraná, foi muito bem. As regiões mais do arenito tiveram ainda alguns problemas, não é o mesmo que o ano passado,realmente o ano passado foi um ano muito mais duro, muito mais difícil. Mas esse ano, eu diria que o produtor não perdeu dinheiro na pior das hipóteses.  Então se ele não recuperou, muito provavelmente ele não andou para trás. Em muitas regiões ele realmente recuperou. Então há um otimismo melhor, há uma safra bem melhor do que a do ano passado, a quebra muito menor. Em algumas regiões realmente, infelizmente, o produtor ainda vai ter que aguardar a próxima, mas tem que acreditar que a próxima virá melhor.

O evento da CBN Maringá contou com a mediação do jornalista Cassiano Ribeiro, comentarista do CBN Brasil.

— Como sempre o agro-brasileiro tem muitos desafios macro que são incontroláveis, como políticas públicas, as políticas macroeconômicas, que definem taxa de juros, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem neste ano uma safra melhor, menos ruim, muito melhor do que a do ano passado, que foi muito ruim. E isso acho que traz um pouco mais de esperança para o campo. Também tem boas notícias no que diz respeito a investimentos. Você vê o investimento de cooperativas em novas unidades ou manutenção de unidades.

O tempo é sempre um desafio no campo e os eventos climáticos extremos multiplicam o desafio. No noroeste do Paraná, a Cocamar Cooperativa Agroindustrial de Maringá investe em parceria com prefeituras da região, num sistema de previsão meteorológica inédito no país, com mais de 200 estações e tecnologia suíça, deve começar a operar no segundo semestre deste ano, diz o presidente do Conselho de Administração da Cocamar, Luiz Lourenço.

— Hoje não existe uma previsibilidade para efeitos de agricultura, principalmente. A gente precisa de uma previsibilidade mais precisa. Então, a gente está trazendo uma tecnologia que existe hoje no Ministério do Norte, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Uma empresa suíça que veio nos oferecer essa oportunidade e junto com as prefeituras e com o Sicred, a gente está cobrindo uma área de um milhão e seiscentos mil hectares, que é uma área pequena e representa 8% do território do Paraná. E 200 estações de primeiro mundo, com todas as tecnologias disponíveis, serão instaladas e essas farão a cobertura da região e aí nós teremos uma assertividade muito grande na previsão de tempo. De minutos até, de meia hora, vai atualizando, é um sistema de atualização praticamente imediata, de minuto em minuto. Então, você consegue ver o desenvolvimento da chuva, das nuvens, etc. E isso faz com que a gente tenha, por exemplo, pra plantar ou pra colher, a gente vai ter uma coisa muito mais segura.

Outro investimento que chama a atenção no campo é a instalação de novas torres de telefonia, em um projeto da Usina Santa Terezinha e do Governo do Estado. O objetivo é aumentar a capacidade de processar dados vindos do campo, mas as torres vão aumentar a conectividade de todos os moradores da região, diz o presidente da Usina Santa Terezinha, Paulo Meneguetti.

— É um projeto que iniciou no final do ano passado e está em desenvolvimento ainda dentro do Estado do Paraná, da Secretaria da Fazenda. É uma parceria entre o Estado e a Santa Teresinha, com uma operadora telefônica, para instalação na região noroeste do Paraná, em áreas de interesse da Santa Teresinha, para que as áreas de produção da Santa Teresinha tenham uma melhor qualidade de sinais para monitoramento das operações de campo. Então, toda a operação de transporte, operação de colheita de cana, mecanização agrícola com tratores, plantadores de cana, enfim, que a gente tenha uma qualidade de sinal de internet pra que a gente tenha acesso às informações online na gestão de todas essas operações. Isso só vai ser possível com a instalação dessas torres que trarão uma melhoria significativa de sinal em toda a região noroeste. E isso vai beneficiar toda a sociedade dessa região porque todos acessarão com melhor qualidade de sinais para as suas necessidades individuais. A gestão da colheita, do plantio, da safra é feita 24 horas por dia. Se você não tem o sinal de qualidade, você não tem os dados online pra você tomar decisões, pra você fazer mudança de frente de operações, enfim. Sinal de qualidade é uma necessidade para as nossas operações.

Investimentos como estes e o custeio da safra precisam de crédito, lembrou o presidente da Sicredi Dexis, Wellington Ferreira.

— Olha, nós estamos tendo um planejado nosso. Nós tínhamos planejado uma carteira de crédito rural no final do plano safra de quatro milhões e cem mil reais. E é o que a gente vai conseguir colocar. Embora o mercado tenha caído um pouquinho, não estão conseguindo colocar todo o dinheiro, mas tem vários fatores. O governo tirou um pouco do dinheiro, tem dificuldades. Mas, para o nosso associado, a gente conseguiu colocar aquilo que a gente tinha projetado. 

O tributarista Márcio Rodrigo Frizzo, diretor da empresa Certezza Consultoria, também participou do debate e trouxe atualizações sobre a Reforma Tributária.

— Agora temos a nova reforma tributária, que é sobre a renda, que saiu na semana passada, ao pedido do nosso ministro da Fazenda, para que o Senado desse andamento a ela. E essa reforma vai atingir o agro na questão da agroindústria. Então, a agroindústria, além de pagar o seu imposto normalmente, poderá, na distribuição de dividendos ou de lucros, eventualmente, para os sócios, para os acionistas, os associados, ter mais uma tributação de até 10%. Então, aí nós vamos ter um pouquinho de mão pesada. Mas essa ainda não tem nada de concreto. Apenas um pedido do ministro da Fazenda, para que o Senado dê andamento nela.

A presidente da Sociedade Rural de Maringá, Maria Iraclézia de Araújo, disse que as feiras agropecuárias são um termômetro de como está o campo. E este ano, a situação é bem melhor que no ano passado.

— A gente tem, este ano, um cenário um pouquinho melhor em relação ao ano passado, porque nós tivemos muita frustração de safra. Isso foi um pouquinho atenuado, mas nós também tivemos frustrações de safra. E, assim, o que a gente sente hoje, a menos de 50 dias da Espoingá, é que a gente tem um cenário um pouquinho mais otimista, mas esperando que a chuva venha e que a gente possa realmente ter esse cenário concretizado. Precisamos de chuva e precisamos das transformações dentro da economia, dentro daquilo que precisamos.

O cenário econômico que afeta os investimentos, também influencia na contratação de assistência técnica, diz o vice-presidente da cooperativa Unicampo, Luciano Ferreira Lopes.

— Este ano foi, em termos produtivos, foi bem melhor do que o ano passado. Mas, em relação aos preços, onde está no nível muito baixo, a gente percebe que, ainda, o produtor rural não está com aquela ousadia, aquela ousadia natural de pegar e arriscar, investir, colocar o melhor na sua produção, sabe? E, com a certeza, não retornar na frente. E, sem essa ousadia, acaba limitando, um pouco, a ação da assistência técnica.

Mas para driblar os fatores que o homem do campo não pode controlar, há muita pesquisa e tecnologia vindo por aí, ressalta Marcelo Henrique Picoli, coordenador de Agrárias do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão.

— Nós, do Centro Universitário Integrado, temos uma iniciativa chamada Biagro, que é um universo, na verdade, de educação e inovação para o agronegócio. A gente viu aqui, hoje, a importância cada vez mais de tomarmos decisões nesses cenários de muitas incertezas econômicas, políticas e climáticas, de tomar decisões assertivas. Então, hoje, falamos de sensores na propriedade rural, na tecnificação. Então, precisa ter profissional que esteja antenado nessas tendências e o lifelong learning, que é o que a gente fala. O profissional sempre tem que estar se atualizando, porque o cenário é muito incerto e muda muito. Então, o profissional que tem essa capacitação de estar sempre aprendendo, de estar sempre se reinventando e se renovando, é um profissional que a gente forma no Centro Universitário Integrado para que ele possa atuar nesse segmento agropecuário com mais propriedade. Visando esses cenários de incertezas que sempre vão permear o meio agropecuário e os fatores de produção agrícola.

O evento “A Hora da Colheita” pode ser assistido no YouTube da CBN Maringá.

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