Cerâmica de Maringá atravessa o mundo e é entregue a prefeito no Japão

Uma peça artesanal de cerâmica produzida em Maringá atravessou continentes e chegou ao Japão carregando não apenas argila e esmalte, mas também história, afeto e conexão cultural. A iniciativa partiu da ceramista Camila Cole, que encontrou uma forma simbólica de participar de uma viagem internacional mesmo sem sair do Brasil.
A iniciativa surgiu a partir de uma viagem do projeto Maringá Histórica, que foi ao território japonês para uma série de entrevistas sobre a imigração japonesa no norte do Paraná. Durante a viagem, seriam realizadas entrevistas com autoridades, especialistas e representantes culturais, incluindo nomes ligados à concepção de espaços como o Parque do Japão e o templo budista de Maringá. Um dos integrantes da equipe de captação de imagens é Felipe Cosmos, marido da ceramista maringaense e, ao acompanhar a movimentação, Camila teve a ideia inicial de pedir que o marido visitasse um ateliê de cerâmica japonês.
“Era só para tirar uma foto para eu ver, porque a cerâmica japonesa é absurdamente potente. Ela é delicada, forte, cheia de significado, ela é muito rica”, relembra a ceramista maringaense, que se especializou em usar matérias primas brasileiras, mas admira a cultura vinda do oriente. “O refinamento da minha peça têm um olhar e uma atenção para o que os japoneses fazem e uma tentativa de reinterpretar. Já fiz muitas peças reinterpretando garrafinhas de saquê, copinhos de chá, cumbucas de matchá. Eu replico trazendo para o que eu sou. Mas eu sou apaixonada pela cerâmica japonesa e eu sempre tive esse sonho de ir para o Japão”, diz Camila, emocionada.
Como ela não poderia ir, decidiu pedir ao companheiro algo mais significativo: enviar uma peça autoral para ser entregue no país asiático. “Leva uma minha e entrega para alguém, para eu sentir que eu tô indo lá, para sentir que minha peça, tão simplesinha, chegou lá e que alguém vai ver que eu sou admiradora da cerâmica de lá, mas que eu também tenho a minha bagagem, eu tenho minha forma de interpretar a cerâmica. Se eu não vou, minha peça vai”, sintetiza a ceramista.
A partir disso, teve início um processo minucioso de criação. Camila desenvolveu um castiçal que mescla referências orientais com a identidade brasileira presente em seu trabalho. A peça foi produzida com argila nacional, incluindo material proveniente de uma plantação de arroz (ambiente muito presente e importante culturalmente para o Japão), e esmalte formulado no próprio ateliê, reforçando o compromisso com matérias-primas locais. O design reúne formas sinuosas e elementos que remetem à arquitetura de templos, além de incorporar a funcionalidade simbólica do objeto, associado a rituais e homenagens. “Eu fiz pensando que iria para uma pessoa muito especial, que iria para um japonês ou uma japonesa muito especial, que seria da escolha do Felipe”, conta. Outra peça, criada pela sócia de Camila, também foi enviada: um pequeno vaso criado com argila de Andirá. Ambas as peças foram cuidadosamente embaladas e transportadas na bagagem da equipe, em meio a equipamentos de filmagem, com o desafio de chegar intactas após uma longa travessia.

O desfecho foi além das expectativas. As cerâmicas foram entregues ao prefeito da cidade de Kakogawa, município considerado cidade-irmã de Maringá. A entrega seguiu tradições culturais japonesas, com o presente sendo oferecido e recebido com as duas mãos, aberto imediatamente e apreciado no momento, diante dos presentes. O gesto emocionou Camila, que acompanhou tudo à distância. Para ela, a experiência representa mais do que o envio de um objeto: simboliza o encontro entre culturas e o reconhecimento do valor da cerâmica artesanal. A confirmação de que a peça será utilizada no Japão reforça ainda mais o significado da iniciativa, carregada de intenção, fortalecendo os laços entre os países, com uma cerâmica produzida em uma cidade onde a influência da imigração japonesa segue tão presente na identidade local.
Para a ceramista, mais do que o envio de um objeto, a experiência representa o reconhecimento da cerâmica como expressão cultural e a valorização do trabalho artesanal. “Pode parecer simples, mas minha peça atravessou o mundo e agora está em um lugar especial e o prefeito de Kakogawa disse que vai usar. É uma alegria imensa”, finaliza a ceramista.
