Dança de salão reúne gerações e transforma rotinas em Maringá


Por Brenda Caramaschi
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Em cada sala um ritmo diferente sai das caixas de som enquanto novos passos ganham forma e vida na dança de salão. / Foto: arquivo pessoal

Enquanto a música rola, casais rodopiam pelo salão até que, numa pausa, o professor anuncia: trocou! E os pares se alternam: a jovem senhora de vestido esvoaçante agora é par do adolescente ao lado, enquanto a moça de rabo de cavalo e tênis no pé é conduzida por um professor universitário com décadas de carreira que decidiu se aventurar nas pistas e experimentar ritmos da dança de salão.

Em cada sala, inclusive, um ritmo diferente sai das caixas de som enquanto novos passos ganham forma e vida – primeiro meio inseguros, como toda novidade, mas logo com mais firmeza enquanto a contagem em voz alta passa a se repetir mentalmente: cinco, seis, sete, oito! Ali há quem tenha entrado nas aulas em busca de mais saúde, outros, uma atividade cultural para criar novas conexões, mas o que todos acabam encontrando nessa convivência dançante é uma melhora no bem-estar emocional e qualquer fase da vida 

A relação entre dança e saúde mental aparece no relato de Letícia Grochoski Felini, servidora pública de 31 anos, que começou a dançar com o marido após anos adiando a decisão.  “É impossível sair da aula com o mesmo peso que você entra. A gente chega cansado, estressado, e sai revigorado”, diz. Para o casal, a dança se tornou um espaço seguro de desconexão das pressões do dia a dia.

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“A gente se apaixonou pela dança”, diz Letícia Grochoski Felini, que aparece no vídeo dançando com o marido em uma das aulas.

“Eu não dançava, não sabia fazer nenhum ‘dois para lá, dois para cá’. Era uma verdadeira negação na dança, mas o meu marido sempre dançou, sempre gostou de dançar e a gente sempre teve essa ideia de um dia participar de algum grupo, de alguma escola, de alguma aula de dança para podermos dançar juntos, para podermos aproveitar esse momento, mas não tínhamos colocado como prioridade.  Em um determinado dia eu encontrei um post, uma divulgação do curso de férias de janeiro de 2024 da escola, e pensei que poderia ser uma ótima oportunidade para a gente experimentar, ver se a gente ia gostar. A gente se apaixonou pela dança”, conta Letícia.  

Os dois são alunos da Latitude, escola especializada em dança de salão fundada por Diego Antonio Ferreira Coelho, 34, junto com a esposa. Formado em Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá em 2015, ele já acompanha o mercado da dança na cidade há mais de uma década. Essa é a terceira escola aberta por Coelho ao longo dessa trajetória. Ele diz que Maringá ainda tem uma cena de dança de salão pequena se comparada a cidades como Londrina, mas que está em expansão. Com ritmos como forró, sertanejo, samba de gafieira, bolero e zouk, a escola que ele coordena hoje reúne cerca de 150 alunos ativos e aproximadamente 200 pessoas envolvidas nas atividades. “O nosso produto é a dança, mas o que oferecemos de verdade é qualidade de vida. Você se movimenta, você conhece novas pessoas, você se diverte, e a gente está trabalhando para crescer cada vez mais”, afirma. 

Diego Antonio Ferreira Coelho acredita na expansão do mercado com a popularização de diferentes ritmos entre os mais diversos públicos. / Foto: arquivo pessoal

Nas aulas, gente de todos os perfis, profissões e com diferentes trajetórias no mundo da dança se encontra em um momento de quebra na rotina que promove uma aproximação que, talvez, de outro jeito, não fosse acontecer. O aluno mais novo matriculado ali é João Vítor Andrade Santana, de 17 anos. O mais velho, Pedro Jorge de Freitas, tem 68. João gostava de dançar nas apresentações escolares, mas descobriu que nem toda dança precisa ser coreografada.  “Antes, dançar era algo ensaiado, repetitivo. Hoje é sentir. É natural”, diz. Para ele, a convivência com pessoas de todas as idades é um dos grandes diferenciais. “Você troca ideias com todo tipo de gente”.

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Aos 17 anos, João Vitor é o aluno mais novo nas aulas de salão e encontrou nos ritmos uma forma de expressão.

Já Pedro nunca tinha dançado antes e começou por incentivo de amigos e escolheu, como brinca, “o caminho mais difícil”: o samba. “Era duro como massaranduba, ginga zero”, se diverte. Depois de passar pelo forró, bolero e salsa, além de seguir firme no samba e no forró, a situação é outra. “Hoje, dançar ocupa um espaço muito importante na minha vida. É uma das coisas que mais me traz satisfação. Estou muito longe de aprender ainda, eu me considero sempre um iniciante. Mas o pouquinho que eu sei já dá para me divertir.E eu me divirto muito dançando”.

Para muitos alunos, a dança chega como algo adiado por anos. É o caso do copywriter Diego Miyazaki, de 37 anos, que iniciou no forró no fim de 2025, após muito tempo “postergando” o desejo de aprender a dançar. Sem experiência prévia, ele se surpreendeu logo na primeira aula.“Eu já tive experiências praticando outras formas de arte, principalmente relacionadas à música, e também outras formas de atividades físicas, principalmente relacionadas aos esportes, vários esportes diferentes. Mas a dança foi diferente pra mim, ela me pegou de um jeito diferente como atividade física, como atividade artística e como forma de expressão,  como compartilhamento também. Eu encontrei na dança uma atividade que me traz saúde e que me faz mais feliz no cotidiano. E o plano é continuar praticando. Foi uma grata surpresa para mim e é algo que eu brinco que é quase viciante. Eu tenho muita vontade de estar lá, eu sinto falta quando eu não vou”, diz.  

Música e pertencimento

O professor Rogério Carletto se encontrou na dança há cerca de 15 anos, depois de ser contratado para dançar com as mulheres que frequentavam uma casa se samba e pagode da cidade. / Foto: arquivo pessoal

Apesar de o número de homens nas aulas ser considerável, a procura maior ainda é por mulheres. Para suprir a demanda de condutores nas danças, a escola tem monitores que participam das aulas como bolsistas. É o caso de Rogério Carletto, 44, que também dá aulas na Associação Passantes e Pensantes. Ele descobriu a dança na balada e há cerca de 15 anos foi contratado para dançar com as moças em uma casa de samba e pagode da cidade. Ali, se encontrou e há mais de uma década atua como professor em várias escolas de Maringá e região. Para ele, a dança cumpre um papel social importante. “Não é só movimento. É expressão, saúde, convivência. É oferecer algo divertido e acessível para pessoas de todas as idades.”

A Passantes e Pensantes é um projeto social que nasceu focado principalmente no ballet para crianças e adolescentes. A dança de salão surgiu para “ocupar” os pais que levavam os filhos, mas passou a ganhar mais adeptos. Marina de Souza, bailarina desde a infância, formada pelo projeto, encontrou na dança de salão uma forma de integrar o namorado ao universo que sempre fez parte da sua vida. “Foi o tipo de dança que fez sentido para ele. Hoje, dançamos há mais de um ano e isso nos conectou muito”, conta.

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Marina e o namorado durantte uma aula de dança de salão na Associação Passantes e Pensantes.

Depois do namorado, ela convidou os pais, que também toparam participar da aula. A mãe, Silvia Naves de Souza, de 53 anos, destaca o impacto da dança na maturidade. “Além da atividade física, tem o estímulo mental, que nessa fase da vida é fundamental”, afirma. Mesmo se considerando iniciante, ela celebra a experiência de aprender algo novo.

Elizabeth Eriko Ishida, de 59 anos, começou a fazer aulas há apenas quatro meses e já percebe mudanças significativas na coordenação motora. “É socialização, alegria, terapia”. / Foto: arquivo pessoal

Entre os benefícios mais citados pelos alunos estão melhorias na coordenação motora, na postura, na memória e no equilíbrio emocional. A enfermeira aposentada Elizabeth Eriko Ishida, de 59 anos, aluna de Rogério na Passantes e Pensantes, começou a fazer aulas há apenas quatro meses e já percebe mudanças significativas. “Em três meses, notei uma melhora muito grande na coordenação motora”, afirma. Para ela, a dança de salão vai além da atividade física. “É socialização, alegria, terapia. É aprender a confiar, a se deixar conduzir.” Elizabeth destaca ainda um aspecto simbólico da dança: “Como mulher, dançar me trouxe a alegria de resgatar a essência do feminino. A dança mudou muito minha vida”.

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