Dia do cacau: chocolate “de verdade” ganha espaço em Maringá 


Por Brenda Caramaschi
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Nova regra estabelece percentuais mínimos de cacau para que um produto seja considerado chocolate. / Foto: Lena Chocolate

Uma mudança recente na legislação brasileira promete impactar diretamente o que chega às prateleiras e ao paladar dos consumidores. A nova regra estabelece percentuais mínimos de cacau para que um produto seja considerado chocolate e ainda determina que essa informação esteja visível na parte frontal das embalagens.

Nessa tentativa de dar mais transparência ao consumidor, a lei diz que chocolates meio amargos deverão ter pelo menos 35% de cacau, enquanto os ao leite precisam atingir o mínimo de 25%. A medida surge em meio a críticas crescentes sobre a qualidade dos produtos disponíveis no mercado, muitas vezes marcados pelo excesso de gordura vegetal e pela redução do ingrediente principal: o cacau.

Chocolates “bean-to-bar” têm foco na qualidade da matéria-prima. / Foto: Lena Chocolate

Esse cenário tem aberto espaço para um movimento que cresce também em Maringá: o dos chocolates “bean-to-bar”, expressão em inglês que significa “do grão à barra”. Trata-se de um modelo de produção mais artesanal, com controle de todas as etapas e foco na qualidade da matéria-prima. Fundadora da primeira fábrica desse tipo na cidade, a Lena Chocolates, a empreendedora Laís Ferrari explica que o conceito valoriza o cacau de origem e de alta qualidade. “Estamos falando de um cacau selecionado, sem defeitos, que respeita todo o processo produtivo. Isso permite que o chocolate expresse aromas e sabores naturais, sem a necessidade de aromatizantes”.

Segundo ela, o chamado cacau fino representa menos de 10% da produção mundial, mas o Brasil tem destaque nesse segmento. “Muitas vezes, o melhor cacau brasileiro é exportado e reconhecido por países como Bélgica, França e Suíça, enquanto aqui consumimos produtos de menor qualidade”, pontua, citando que um dos fornecedores da fábrica maringaense foi premiado com medalha de ouro no “Oscar dos chocolates”, o Cocoa of Excellence, na Holanda.

Para a empresária Carolina Gonçalves, que trabalha com a curadoria de produtos de origem na Maria Iguaria, armazém especializado no segmento em Maringá, o consumidor está cada vez mais atento ao que consome. “Existe uma busca crescente por alimentos mais ‘limpos’, com menos ingredientes e mais transparência. O chocolate de verdade, na essência, leva cacau, açúcar e manteiga de cacau. Às vezes leite, no caso do ao leite. É uma lista muito mais simples”, explica.

O processo de produção, colheita, fermentação e torra da castanha influencia no sabor do chocolate quando o cacau é protagonista. / Foto: Lena Chocolate

Além da composição, o processo também influencia no resultado final. Desde a colheita até a fermentação e torra, cada etapa interfere no sabor. “É um produto que exige cuidado e, por isso, tem um valor diferente. Não é só preço, é valor agregado”, destaca Carolina.

O aumento no preço do chocolate como um todo, e não apenas nos “bean-to-bar”, e que é especialmente percebido em datas como a Páscoa, também está ligado a fatores globais. Problemas na produção africana, que é a principal fornecedora mundial de cacau, reduziram a oferta e impactaram o mercado internacional. Ao mesmo tempo, a busca por qualidade e rastreabilidade eleva os custos de produção de chocolates artesanais. Ainda assim, especialistas apontam que o consumidor começa a entender essa diferença.

Outro desafio é a chamada “educação do paladar”. Acostumado a produtos mais doces e padronizados, o consumidor pode estranhar, num primeiro momento, chocolates com maior teor de cacau. “Quando a pessoa prova um chocolate intenso de verdade, ela percebe notas frutadas, florais. Já tivemos clientes que juraram sentir frutas vermelhas em uma barra que leva apenas cacau”, relata Laís. “No começo, muita gente estranha. Mas depois que entende e se acostuma, não volta atrás”, completa Carolina.

Em Maringá, iniciativas como degustações, visitas a fábricas e curadorias especializadas têm ajudado a apresentar esse novo universo ao público. E, com a nova legislação, a expectativa é de que o consumidor tenha mais ferramentas para escolher  um chocolate de melhor qualidade. Como resume Laís, “é um passo importante para valorizar um produto que tem a cara do Brasil e que já é reconhecido lá fora, mas ainda precisa ser mais explorado aqui dentro”.

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