Em uma única sala da UEM, 100 mil formigas impressionam; número equivale a quase 25% da população de Maringá


Por Thiago Danezi

Uma sala no bloco 4, um dos prédios mais antigos do câmpus sede da Universidade Estadual de Maringá (UEM), guarda muito mais do que livros, fósseis e materiais de pesquisa. No local, funciona o Laboratório de História, Ciências e Ambiente (LHC), espaço que reúne pesquisadores da iniciação científica ao pós doutorado e que chama atenção por um detalhe bastante incomum: cerca de 100 mil formigas quenquém vivem dentro do laboratório.

O que para muitos poderia parecer apenas uma curiosidade inusitada, na prática se tornou uma poderosa ferramenta de ensino, pesquisa e divulgação científica. Entre folhas, flores e um elaborado sistema de organização social, as formigas ajudam a explicar conceitos de biologia, saúde coletiva, ecologia, cooperação e até organização social humana.

Coordenado pelo professor Christian Fausto Moraes dos Santos, do Departamento de História da UEM, o laboratório rompe barreiras entre áreas tradicionalmente separadas. História, Biologia, Medicina, Alimentação, Saúde e Ambiente convivem no mesmo espaço, criando um ambiente interdisciplinar que desperta fascínio em estudantes e visitantes.

Coordenado pelo professor Christian Fausto Moraes dos Santos, do Departamento de História da UEM, o laboratório rompe barreiras entre áreas tradicionalmente separadas. Foto: ASC | UEM

“O LHC é um laboratório de História que conversa o tempo todo com as ciências, com o ambiente e com a sociedade”, explica o professor. Segundo ele, até o nome do laboratório carrega uma referência curiosa. “Existe uma brincadeira no nome, porque LHC lembra o Large Hadron Collider, o grande acelerador de partículas da Física. No nosso caso, em vez de colidir partículas, colocamos em diálogo História, Biologia, Medicina, Alimentação, Saúde, Ambiente, Antropologia, Cultura Material e Divulgação Científica.”

O espaço funciona como um centro de pesquisa, formação acadêmica e divulgação científica. As linhas de estudo abrangem História das Ciências Naturais, História da Alimentação e História das Ciências da Saúde, permitindo investigações sobre temas que vão desde epidemias e medicamentos até alimentação de rua, plantas, animais venenosos, saberes indígenas e racismo científico. Mas é impossível falar sobre o laboratório sem mencionar suas moradoras mais famosas.

As formigas que roubam a cena

Dividir o ambiente de trabalho com uma colônia de aproximadamente 100 mil formigas pode soar incomum, mas, para Christian, essa convivência já faz parte da rotina e se tornou um dos maiores atrativos pedagógicos do laboratório.

“Dividir o laboratório com cerca de 100 mil formigas é uma experiência curiosíssima, porque elas são ao mesmo tempo objeto de observação, material didático e, de certo modo, colegas de trabalho”, afirma.

Segundo o professor, as formigas acabam se tornando protagonistas sempre que alguém visita o local. “Elas roubam a cena o tempo todo. Muitas vezes a pessoa chega interessada em conhecer o espaço, os livros, as plantas carnívoras, os fósseis e os objetos de pesquisa. Mas basta ver o circuito das formigas em funcionamento para a conversa mudar completamente.”

Foto: ASC | UEM

O fascínio acontece porque, ao observar a colônia, o visitante percebe uma organização extremamente sofisticada. O que inicialmente parece apenas um inseto comum revela um sistema complexo de trabalho coletivo.

“Muita gente chega pensando na formiga apenas como praga, aquela que corta a roseira ou aparece no quintal. Quando vê a colônia por dentro, a percepção muda. A pessoa entende que ali existe uma sociedade complexa, com divisão de trabalho, agricultura, cuidado sanitário, manejo do ambiente e cooperação.”

Agricultoras em miniatura

As quenquéns foram escolhidas por um motivo específico: elas desafiam a ideia de que insetos são seres simples ou puramente instintivos. “As formigas quenquém são fascinantes porque desmontam rapidamente uma ideia muito comum, a de que insetos são seres simples.

Na verdade, estamos falando de animais sociais extremamente complexos”, explica Christian. Uma das características mais impressionantes dessas formigas está em sua relação com o alimento. Apesar de carregarem folhas constantemente, elas não se alimentam diretamente delas.

“As folhas são levadas para dentro da colônia, preparadas, higienizadas e usadas como base para cultivar um fungo, que é o verdadeiro alimento delas. Ou seja, estamos falando de formigas agricultoras.” Na prática, isso significa que as quenquéns já desenvolviam formas sofisticadas de agricultura muito antes dos seres humanos estabelecerem sistemas agrícolas complexos.

Dentro do laboratório, os estudantes conseguem observar diferentes funções na colônia, desde as operárias forrageadoras, responsáveis por buscar folhas, até as que cuidam do fungo e da manutenção sanitária do ninho. “Existe, por exemplo, uma área que funciona como uma espécie de cemitério sanitário, onde elas descartam o que pode representar risco para a colônia.”

Para o professor, as formigas oferecem uma lição valiosa também para a sociedade humana. “Se as formigas pudessem dar uma aula para nós, talvez a principal lição fosse esta: nenhuma sociedade complexa sobrevive sem cooperação, cuidado com o ambiente e preocupação com a saúde coletiva.”

Ciência com linguagem acessível

Além da pesquisa acadêmica, um dos principais objetivos do laboratório é tornar a ciência mais acessível para o público geral. Essa missão ganhou ainda mais força com a frente de divulgação científica nas redes sociais, por meio do projeto História com Ciência. A proposta é simples e poderosa: usar curiosidades históricas e científicas para despertar interesse imediato nas pessoas.

“A gente quer produzir conteúdos curtos capazes de fazer a pessoa parar por alguns segundos e pensar: ‘nossa, eu nunca tinha pensado nisso’”, diz o professor. Entre os temas que mais surpreendem o público está a história do curare, veneno indígena amazônico que contribuiu para avanços na cirurgia moderna.

“Muita gente conhece a palavra como sinônimo de veneno, mas poucos imaginam que conhecimentos indígenas amazônicos ligados ao curare ajudaram a transformar a cirurgia moderna.” Outro exemplo curioso envolve a medicina do século 19, quando a necessidade de corpos para o ensino de anatomia abriu espaço para comércio ilegal de cadáveres e grandes escândalos públicos.

Também há histórias que misturam fascínio científico e absurdo histórico. Um dos casos mais surpreendentes envolve kits radioativos vendidos para crianças durante a Guerra Fria. “Nos anos 1950 existiu um brinquedo radioativo vendido como kit educativo para crianças. Era como um kit de química, só que com contador Geiger e amostras de elementos radioativos, incluindo urânio.”

Há ainda temas mais sensíveis, como o racismo científico, que mostram como a autoridade da ciência também foi usada historicamente para legitimar desigualdades e violências. “O racismo científico no século 19 mostra que a autoridade da ciência já foi usada para justificar desigualdade, escravidão, colonialismo e violência.”

Encantar para ensinar

Para Christian, ensinar ciência vai muito além da transmissão de informação. Trata se de despertar curiosidade, provocar questionamentos e mostrar que conhecimento científico tem relação direta com o cotidiano.

No LHC, isso acontece de maneira quase orgânica. Livros, fósseis, microscópios antigos, plantas carnívoras, artefatos históricos e uma colônia viva de formigas transformam o laboratório em um espaço de encantamento e descoberta. Isso explica por que o professor vê o local como a realização de um sonho antigo. “Quando eu era garoto, achava a figura do cientista super fascinante.”

Ao abrir as portas do laboratório para a sociedade, o objetivo permanece claro: mostrar que a ciência não está distante da vida das pessoas. “Isso tudo ajuda a mostrar uma coisa essencial para nós: a ciência tem história, tem contexto, tem disputas, tem erros, tem descobertas, tem beleza e tem impacto direto na vida das pessoas.”

E talvez a prova mais viva disso esteja justamente nas pequenas trabalhadoras que cruzam o laboratório todos os dias carregando folhas muitas vezes maiores que seus próprios corpos. Antes mesmo de qualquer aula começar, elas já estão ensinando.

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