Entre a esperança e a incerteza: venezuelanos que vivem em Maringá relatam conflitos de sentimentos
Dias após a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, registrada no fim de semana, venezuelanos que vivem em Maringá, longe do país de origem, relatam viver um misto de sentimentos que se alterna entre a angústia de saber se a família que ficou no país vizinho está bem e a expectativa de saber o que vai acontecer daqui para frente.
A dificuldade de contato imediato com parentes que ainda vivem na Venezuela logo depois dos ataques norte-americanos deixou muitos deles tensos. A estudante de arquitetura e urbanismo e assistente de e-commerce Yeynerling González, que mora em Maringá com a mãe, veio para o Brasil há cinco anos e descreve o momento como “agridoce”. A crise política, econômica e social foi o que motivou a saída das duas da terra natal. “Os salários não davam para nada, a gente não se sentia segura na rua. Quando aconteceu o ataque, eu senti sentimentos desencontrados. Em um momento, felicidade pela possibilidade de mudança, mas logo veio a preocupação com a família”, relata. Parte dos parentes de Yeynerling vive em Caracas, capital venezuelana, um dos principais alvos da ofensiva. O pai dela voltou recentemente à Venezuela para cuidar da avó da estudante, que está doente. Apesar de conseguir contato horas depois, a incerteza permanece. “Eles dizem que está tudo muito quieto. A gente não sabe o que vem agora”, desabafa.

Relatos de familiares que permanecem na Venezuela indicam um cenário instável. A jovem diz que, nos primeiros dias após os ataques, a orientação era permanecer em casa. Aos poucos, algumas pessoas voltaram ao trabalho. O pessoal que está lá, que viveu a experiência, sentiu muito medo. Porque meu país não é um país acostumado a esse tipo de situação, de guerra… A Venezuela é muito de festa, de felicidade, sabe? E esse tipo de situação não é algo que nós estamos acostumados”, conta.
O comerciante Hermes Martinez, que vive em Maringá há quase dois anos, também acompanhou os acontecimentos com o coração dividido. Ele deixou a Venezuela após enfrentar escassez extrema de combustível, falta de medicamentos e colapso nos serviços públicos. “Para conseguir gasolina, eu ficava até três dias na fila. No hospital não tinha remédio. Se você não conhecesse alguém lá dentro, você morria”, relembra. Ao falar da prisão de Nicolás Maduro, Hermes admite que sentiu alegria, mas ressalta que o medo ainda domina quem ficou no país. “Ninguém pode sair para comemorar. Os criminosos são aliados do governo. Se sair à rua, apanha”, afirma o venezuelano.
Em Maringá, onde há uma presença significativa de venezuelanos, a comunidade tenta se apoiar mutuamente enquanto acompanha os desdobramentos políticos. Dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) mostram que o Paraná é um dos estados com maior número de venezuelanos no Brasil. Em 2024, cerca de 65% dos imigrantes residentes no estado eram da Venezuela, e Maringá concentra parte expressiva desse contingente. Só em 2025, mais de 800 venezuelanos vieram para a Cidade Canção em busca de uma nova vida. No fim de semana, após a prisão de Maduro, alguns deles se reuniram na Vila Olímpica em uma comemoração, como mostram vídeos nas redes sociais.
Para o futuro, as expectativas variam, mas giram em torno de uma mesma esperança: estabilidade. “Meu sonho é o futuro da minha filha”, resume Hermes, pai de duas adolescentes que vivem com ele no Brasil. “Se o governo mudar de verdade, a educação pode melhorar, a vida pode melhorar.” Já Yeynerling diz que, embora exista esperança, a sensação predominante ainda é de cautela. “É um primeiro passo para o que a gente quer, que é conseguir que o regime saia do nosso país, mas é meio que esperar para ver o que vai acontecer”, finaliza, torcendo para que o país de origem encontre um caminho de paz.

