
Um episódio de racismo registrado no domingo de Páscoa em uma feira em Maringá gerou indignação e mobilização por parte de trabalhadores, empresários e profissionais do Direito. Dois funcionários de um espaço gastronômico ao ar livre relatam terem sido vítimas de discriminação por parte de uma cliente durante o atendimento.
De acordo com o empresário e atendente Michael Douglas Macedo, a mulher se recusou a ser atendida por ele por conta da cor de sua pele, solicitando que uma pessoa branca realizasse o serviço. A situação se agravou quando outro funcionário, Aílton Alves da Conceição, também negro, tentou entregar o pedido e foi igualmente rejeitado. Segundo os relatos, a cliente também evitou qualquer contato físico, chegando a jogar o dinheiro no momento do pagamento para não encostar no atendente.
“Além de ela nos tratar com racismo, ela nos tratou como animais. Foi muito constrangedor. Não é a primeira vez que acontece, mas uma situação assim mexe muito com a gente”, desabafou Michael durante entrevista à CBN Maringá, destacando que episódios de racismo ainda são frequentes no cotidiano. Aílton, que também se manifestou após o ocorrido, classificou o episódio como “triste” e “muito constrangedor”, ressaltando que a situação atinge diretamente a dignidade humana e que outros clientes presentes testemunharam a cena e se mobilizaram em apoio à equipe. Ele afirmou ainda que, apesar do impacto, os envolvidos pretendem transformar o caso em um ponto de partida para ampliar o debate sobre o tema e incentivar denúncias.
A proprietária do estabelecimento, Priscila de Oliveira Manganothi, relatou que ela e o esposo repudiaram a atitude da cliente assim que perceberam o ocorrido. “Nós falamos para ela que não aceitamos esse tipo de desrespeito no nosso estabelecimento e que a gente não queria que ela voltasse mais no nosso café”, afirmou Priscila, detalhando que a cliente chegou a ir ao caixa tentar justificar seu comportamento. Diante da gravidade, os proprietários buscaram imediatamente suporte jurídico e psicológico para os colaboradores e, no último sábado (11), promoveram uma ação de conscientização no local junto com o escritório de advocacia que atende o estabelecimento, com distribuição de materiais informativos sobre racismo e injúria racial.
A advogada Alana Gazoli, que acompanha o caso, explicou que tanto o racismo quanto a injúria racial são crimes previstos em lei, com penas de reclusão de dois a cinco anos, além de multa. Desde 2023, a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo, tornando-se também imprescritível e inafiançável. Segundo ela, situações em que há recusa de atendimento com base na cor da pele podem configurar crime de racismo por restringirem direitos. A orientação, segundo a advogada, é que vítimas e testemunhas registrem provas sempre que possível e acionem as autoridades imediatamente. “É fundamental que as empresas estejam preparadas para acolher a vítima e colaborar com a identificação do agressor”, destacou.
Os trabalhadores envolvidos afirmam que pretendem seguir com as medidas legais cabíveis e, mais do que isso, reforçam a importância de não se calar diante de situações de discriminação. “A gente não quer pena, quer respeito. Queremos que as pessoas tenham ética e moral com a gente, porque somos tão humanos como qualquer outro ser humano”, afirmou Michael.