
Os poemas nasceram de forma espontânea, em cadernos carregados pelos alunos para todos os lugares, dentro e fora da sala de aula. Agora, os textos produzidos por estudantes da rede municipal de ensino de Maringá ganharão um espaço especial: serão publicados em um livro e lançados oficialmente durante a Festa Literária Internacional de Maringá, a FLIM, um dos maiores eventos literários do Paraná.
Sob orientação da professora Marion Rossi Mattera, o trabalho surgiu como uma atividade de incentivo à leitura e à escrita e ganhou força após os estudantes conhecerem o trabalho do escritor e cineasta Flávio Colombini, autor da coleção “Poemas Divertidos”. A história teve início em 2025, quando a professora trabalhava o gênero poesia com uma turma do 4º ano. Com o objetivo de ampliar a experiência dos alunos além do conteúdo previsto no planejamento pedagógico, ela apresentou um filme do poeta.
“Eles se encantaram porque ele traz a poesia de uma maneira muito leve, muito próxima do cotidiano. As crianças se divertiram com a história e ficaram curiosas para conhecer mais sobre o trabalho dele”, relembra a professora. Os alunos passaram a pesquisar mais sobre o autor e chegaram a manter contato com ele pelas redes sociais. O escritor respondia às mensagens enviadas pelas crianças, aproximando os estudantes do universo literário.
A partir daí, a escrita ganhou espaço. “Eles começaram a escrever em papeizinhos soltos para mim. Eu fui guardando esses papéis e por fim nós tivemos a ideia de criar um caderno exclusivo para os poemas”, diz Marion. Sem horários definidos para a atividade, os estudantes escreviam quando sentiam vontade. Alguns registravam ideias durante o recreio, outros levavam os cadernos para casa.
A proposta, segundo Marion, sempre foi baseada na liberdade criativa. “O mais importante era que eles escrevessem porque tinham vontade de escrever. Não havia obrigação. Quando surgia uma ideia, eles pegavam o caderno e registravam. Era para escrever por prazer. Eu me lembro que em um determinado momento um dos alunos que nem gosta muito de escrever chegou para mim e falou assim: ‘Prô, não tem certo e errado, né? Eu posso fazer do jeito que eu quiser?’ E eu confirmei que sim. Aí ele levantou e falou: ‘Ah, então vou lá buscar o meu caderno’. Buscou o caderninho dele, escreveu poucas linhas, mas eu vi ali que o projeto estava surtindo efeito mesmo. Esse desejo da escrita, de registrar algo que aconteceu com ele”, conta.
A liberdade resultou em dezenas de poemas sobre temas variados, inspirados em experiências pessoais, conteúdos estudados em sala e observações do cotidiano. Com o tempo, a produção chamou a atenção da comunidade escolar, ganhando destaque no prêmio Práticas Que Transformam, e surgiu a ideia de transformar os textos em um livro. A proposta era produzir uma publicação simples para circulação interna entre as famílias e a escola. No entanto, o projeto ganhou apoio de diferentes parceiros, o que possibilitou a viabilização da obra.
A impressão da publicação foi custeada pela Secretaria Municipal de Educação, com recursos próprios vinculados ao contrato de materiais gráficos vigente. Já os custos relacionados à obtenção do ISBN e à elaboração da ficha catalográfica foram assumidos pela própria comunidade escolar, que se mobilizou após a confirmação do apoio da Secretaria para a impressão dos exemplares. A publicação está em fase final de produção gráfica e terá uma tiragem inicial de aproximadamente 600 exemplares.
O lançamento ocorrerá durante a FLIM, que deve reunir escritores, artistas, editoras e leitores em uma extensa programação cultural. A relação construída com Flávio Colombini também gerou um dos momentos mais marcantes da trajetória do projeto. Mobilizações realizadas pela escola e pelo município permitiram que o escritor visitasse Maringá durante a edição da festa literária do ano passado. Além de participar da programação oficial do evento, ele fez uma visita surpresa aos estudantes, encontrando pessoalmente os jovens autores que haviam acompanhado seu trabalho. “Foi muito emocionante. As crianças puderam conhecer alguém que admiravam e que teve um papel importante no despertar delas para a escrita. É uma lembrança que certamente ficará marcada para sempre”, afirma Marion.
O projeto continua em 2026. Agora no 5º ano, a mesma turma segue produzindo poemas e já trabalha na elaboração do segundo volume da coletânea. Desta vez, as produções terão um tema específico, mantido em sigilo pela professora, que promete uma nova experiência literária para os alunos. Enquanto a nova obra não chega, os jovens escritores vivem a expectativa do primeiro grande lançamento. Eles terão a oportunidade de apresentar suas próprias histórias e versos em um dos mais importantes eventos culturais de Maringá, dividindo espaço com autores reconhecidos nacionalmente e reforçando o papel da literatura como ferramenta de expressão, criatividade e transformação.