Maringá mobiliza para inclusão real de autismo e neurodivergências


Por Redação GMC Online

O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem crescido de forma expressiva nas últimas décadas. No início dos anos 2000, estimava-se que 1 em cada 150 crianças estivesse no espectro. Em 2014, o índice passou para 1 em 68. Em 2020, para 1 em 44. Em 2023, para 1 em 36. Os dados mais recentes apontam que 1 em cada 31 crianças recebe hoje um diagnóstico de TEA — um salto histórico que reflete mudanças profundas na forma como a sociedade identifica e compreende o autismo.

Foto: Freepik

Esse crescimento não significa que o autismo esteja “aumentando” ou que exista uma epidemia. O TEA não é doença, não é contagioso e não tem relação com surtos populacionais. O que aumenta é a capacidade de reconhecer sinais, diagnosticar precocemente e acolher famílias que antes não tinham acesso à informação, profissionais capacitados ou ambientes preparados. Como escreveu a professora, pesquisadora, escritora Ana Kafa, o autismo envolve “uma variabilidade de sintomas e alterações nas funções multissensoriais”, que afetam comunicação, interação social e comportamento — características que sempre existiram, mas que só recentemente passaram a ser compreendidas com maior precisão.

Números em Maringá

Esse movimento também aparece nas escolas. Em Maringá, a Rede Municipal de Educação atende quase 2.000 crianças, sendo 639 na educação infantil e 1.173 no ensino fundamental. Desses, 301 crianças estão no nível de suporte 3.

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento, e não uma doença. Ele se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, motivo pelo qual se fala em “espectro”. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais organiza o TEA em três níveis de suporte, que indicam o grau de apoio necessário:

Importância das escolas

A escola desempenha um papel decisivo nesse processo. É no ambiente escolar que surgem as primeiras comparações naturais entre crianças da mesma idade, permitindo observar atrasos na linguagem, dificuldades de interação, comportamentos repetitivos, sensibilidade sensorial e desafios no brincar ou imitar. Como escreveu a professora, pesquisadora, escritora Ana Kafa, a escola é um “agente potencializador de aprendizagem e interação sociocomunicativa”, e um espaço privilegiado para identificar sinais que a família, por conviver diariamente, muitas vezes não percebe. Além de identificar, a escola acolhe, orienta, adapta práticas pedagógicas e garante direitos. Uma escola preparada muda o destino de uma criança.

Apesar disso, políticas públicas de formação e conscientização sobre o autismo ainda são raras no Brasil. A maioria das redes de ensino não oferece formação continuada sobre TEA, não dispõe de materiais pedagógicos adequados e não articula ações entre saúde, educação e assistência social. O resultado é que professores se sentem despreparados, famílias ficam desamparadas e crianças perdem oportunidades fundamentais de desenvolvimento. A falta de políticas estruturadas não reflete a importância do tema: o autismo é uma realidade crescente e impactante, que exige conhecimento, planejamento e compromisso institucional.

Foto: Freepik

Virando a página

É justamente por isso que o programa construído em Maringá representa um marco. Por iniciativa do prefeito Silvio Barros, a Secretaria de Educação, liderada pela professora Adriana Palmieri, desenvolveu um projeto inovador que pretende “virar a página” do autismo na educação infantil e fundamental. O programa leva conhecimento científico aos professores, oferece literatura especializada, materiais pedagógicos para as crianças e ações informativas para toda a comunidade escolar. O objetivo é transformar o acolhimento e a inclusão, criando um ambiente mais preparados, sensível e humano para crianças com TEA, outras neurodivergências — e para suas famílias.

A secretária Adriana Palmieri resume esse compromisso: 

“Estamos começando o ano com um compromisso claro: garantir que cada criança e cada família seja bem acolhida. Para isso, toda a rede precisa trabalhar unida, organizada e preparada. Nada pode ser improvisado. Quando planejamos juntos, evitamos falhas e garantimos que nossos estudantes sejam recebidos com qualidade, cuidado e humanidade desde o primeiro dia de aula.”

A mobilização já começou e envolve toda a rede municipal. A expectativa é que Maringá se torne referência nacional em inclusão, formação docente e políticas públicas baseadas em ciência — exatamente como defendem pesquisadores, profissionais e famílias que lutam por uma educação verdadeiramente inclusiva.

No próximo dia 4 de fevereiro, no Parque de Exposições, será realizada a Jornada Interdisciplinar 2026, com o tema “Inclusão real, neurodiversidade e o professor como transformador de trajetórias”. 

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