
Com dor que não passa, mas com a memória transformada em luta, a família da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges, a Magó, segue aguardando justiça seis anos após o crime de feminicídio que interrompeu a vida da jovem em janeiro de 2020, em uma cachoeira de Mandaguari. Mesmo com o réu preso desde então, o julgamento ainda não foi realizado, e a espera segue como uma ferida aberta para familiares, amigos e para toda a rede de pessoas que se formou em torno da história de Magó.
Nesta segunda-feira, 26, data que marca o aniversário da morte de Maria Glória, a família promove mais um ato público em memória da bailarina e em cobrança por justiça. A movimentação está marcada para acontecer em frente ao Teatro Reviver Magó,espaço que carrega o nome da artista e se tornou um símbolo permanente de resistência, arte e memória. O encontro integra o movimento “A Vida Pede Passagem”, criado ainda nos primeiros meses após o crime e que, desde então, reúne manifestações artísticas, atos públicos e mobilizações contra o feminicídio.
Para a mãe de Magó, Daísa Poltronieri, a data carrega dor, mas também a reafirmação de um compromisso coletivo. “Dia 26 de janeiro completam-se seis anos sem minha filha, vítima de feminicídio. O réu continua preso, perdeu todos os recursos no Tribunal de Justiça do Paraná, no STJ e no STF, e agora aguardamos o retorno do processo para Mandaguari para que o júri aconteça”, afirma. Segundo ela, todos os pedidos de liberdade foram negados, e o acusado deve responder por feminicídio, estupro e ocultação de cadáver, com qualificadoras, além de ser reincidente.
Mais do que um processo individual, a família reforça que o julgamento de Magó representa uma luta mais ampla. “Não é apenas o caso da Magó. É um julgamento que diz respeito a todas as mulheres que têm seus direitos violados diariamente. A condenação exemplar simboliza justiça não só para nós, mas para toda a sociedade”, destaca Daísa, que costuma repetir a frase que se tornou lema do movimento: “A vida pede passagem, Magó presente”.
Ao longo desses seis anos, a memória da bailarina foi perpetuada de diferentes formas: em obras de arte, músicas, espetáculos, no Teatro Reviver Magó, na Lei Magó, instituída em Mandaguari, e no Dia Municipal de Combate ao Feminicídio, celebrado em 26 de janeiro em Maringá. “Nós sentimos saudade de um futuro que nunca vai acontecer. Mas fomos tecendo uma rede de pessoas que continuam fazendo a Magó existir no tempo”, resume a mãe.
“É por todas as mulheres”
A irmã de Magó, a bailarina e artista Ana Clara Poltronieri Borges, reforça que a mobilização anual é uma forma de manter viva a cobrança por justiça e o enfrentamento à violência contra as mulheres. “O julgamento ainda não aconteceu, então ele não é só sobre a minha irmã. É por todas as mulheres que tiveram seus direitos básicos violados. Sem luta coletiva, a gente não consegue acabar com essa violência”, afirma.
Essa resistência encontrou na arte um dos seus principais caminhos. Ana Clara percorreu o Brasil e outros países com o espetáculo “Amana”, inspirado na história da irmã, enquanto outras montagens teatrais, músicas e produções audiovisuais também surgiram a partir da trajetória de Magó. Agora, esse percurso de dor, memória e transformação começa a ganhar forma em um documentário, que está em fase de produção.
Intitulado provisoriamente “Amana – A Vida Pede Passagem”, o filme começou a ser rodado neste mês de janeiro, em Maringá. A direção é da cineasta Arlene Flores, de São Paulo, com assistência de direção de TH Fernandes, e parte da equipe formada por profissionais de Maringá — muitos deles ligados à trajetória do pai de Magó, o publicitário Maurício Borges, que também faleceu. O projeto foi contemplado com recursos do Fomento Multiarte, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, por meio da Política Nacional Aldir Blanc.
“O filme não é só sobre a história da Magó, mas sobre como uma família lacerada pelo feminicídio consegue continuar vivendo através da poesia e da arte”, explica Ana Clara. A água, elemento presente tanto no espetáculo quanto no processo de luto da família, também aparece como símbolo central da narrativa. A previsão é que o documentário seja lançado entre outubro e dezembro deste ano.
Enquanto o júri não acontece, a família segue transformando a ausência em presença, ocupando espaços públicos, palcos e telas com a história de Maria Glória. “A gente quer que nenhuma mulher precise viver o que a Magó viveu e que nenhuma família atravesse a dor que atravessamos”, resume Ana Clara.
Na segunda-feira, em frente ao Teatro Reviver, mais uma vez a vida vai pedir passagem — em nome de Magó e de todas as mulheres.