Pesquisa realizada por um consórcio que reúne a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Cordial, em parceria com a organização global de saúde pública Vital Strategies, indica que a implantação da Faixa Azul aumentou, em média, de 100% a 120% os sinistros (acidentes) fatais com motociclistas em cruzamentos.
Os dados também mostram aumento expressivo da velocidade média das motocicletas nas vias com a sinalização especial. Embora o limite regulamentado seja de 50 km/h, a velocidade média subiu de 58,3 km/h para 72,2 km/h após a implantação da Faixa Azul.
Segundo o levantamento, 96% dos motociclistas trafegam acima de 50 km/h e 81% acima de 60 km/h nesses trechos, proporções bem superiores às observadas em vias sem a intervenção, onde 71% excedem 50 km/h e 35% ultrapassam 60 km/h.
Criado em 2022 na capital paulista como projeto-piloto nacional, o programa Faixa Azul teve rápida expansão e já supera 200 quilômetros. O modelo vem sendo replicado em outras capitais. Em São Paulo, a sinalização soma 233,3 quilômetros em 46 vias, com estimativa de atender cerca de 500 mil motociclistas por dia. A meta da prefeitura é chegar a 400 quilômetros até 2028.
O debate ocorre em um cenário de agravamento da violência no trânsito. Em 2024, o Brasil registrou 36.403 mortes em acidentes viários, o quinto aumento consecutivo desde 2019, segundo o Ministério da Saúde. Mais de um terço das vítimas, 14.994, eram motociclistas. Em São Paulo, foram 1.029 mortes, das quais 46,74% envolveram veículos de duas rodas.
Segundo o coordenador do estudo e professor da Escola Politécnica da USP, Mateus Humberto, a Faixa Azul reorganizou o fluxo viário, mas gerou um efeito colateral grave. “O que vimos foi um efeito colateral grave: a faixa tornou-se um corredor de aceleração. O motociclista ganha fluidez no meio da quadra, mas chega ao cruzamento com muito mais energia. Quando o impacto ocorre a 70 ou 80 km/h, os resultados são dramáticos. Essa dinâmica explica por que as fatalidades dobraram nos cruzamentos, mesmo quando visualmente parece haver um trânsito mais organizado”, afirmou.
O relatório conclui que a demarcação de solo, isoladamente, é insuficiente para garantir a segurança viária. Análises com uso de drones e ferramentas de georreferenciamento indicam que as marcações criam um efeito de “pista livre”, estimulando, de forma inadvertida, velocidades muito acima do limite legal.
Durante a pesquisa, motociclistas relataram sensação de conforto e pertencimento ao utilizar a Faixa Azul. “Mais espaço é mais tranquilo. Às vezes os carros estão muito juntos. Você acaba tentando desviar e batendo em algo. Caindo, sabe? Esse espaço mais livre ajuda. Ajudou muito”, disse um dos entrevistados.
O estudo, no entanto, identifica um paradoxo: a percepção de maior segurança tende a induzir comportamentos mais arriscados, como o aumento da velocidade, o que amplia a exposição a acidentes graves, especialmente nos cruzamentos.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou lamentar que o estudo desconsidere dados oficiais que, segundo a administração, indicam redução das mortes de motociclistas nas vias com Faixa Azul entre 2022 e dezembro de 2025, de 29 para 22 casos. No mesmo período, diz o município, houve queda nas ocorrências com feridos, de 1.009 para 810, e nos atropelamentos com feridos, de 61 para 39. A prefeitura afirma ainda que a velocidade média das motocicletas nessas vias foi de 49,5 km/h, dentro do limite regulamentado.
A administração municipal destaca que os dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) estão disponíveis apenas até 2021, já que o monitoramento passou a ser realizado pelo Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) a partir de 2022, e afirma que não há registros oficiais específicos sobre sinistros em cruzamentos. Ainda assim, os dados consolidados apontam crescimento dos sinistros fatais envolvendo motocicletas desde o início da Faixa Azul: foram 446 mortes em 2022, 438 em 2023, 525 em 2024 e 536 em 2025.
A prefeitura afirma que acompanha diariamente os acidentes com motociclistas e diz ter adotado medidas adicionais de segurança, como reforço da sinalização, intensificação da fiscalização e campanhas educativas.
O lançamento do relatório ocorre em um momento decisivo, enquanto a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) aguarda evidências técnicas para definir se a Faixa Azul será regulamentada e incorporada à legislação nacional de trânsito.
Para Ezequiel Dantas, diretor de Vigilância de Lesões no Trânsito da Vital Strategies, os dados exigem cautela. “Precisamos ser muito cautelosos ao expandir este projeto. Medidas como gestão de velocidade e fiscalização já se mostraram mais eficazes na prevenção de mortes”, afirmou.