Uma jornada de lealdade e sobrevivência comoveu a China e reacendeu o debate sobre o bem-estar animal no país. Sete cães de diferentes raças, que haviam sido roubados por traficantes de carne para abastecer um açougue clandestino, conseguiram escapar do cativeiro e percorreram juntos cerca de 17 quilômetros para retornar às suas casas na província de Jilin. O registro da fuga em grupo viralizou no Douyin (versão chinesa do TikTok), acumulando mais de 230 milhões de visualizações e gerando fortes apelos por leis que proíbam o consumo de carne canina em todo o território chinês.
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Entenda
- A fuga organizada: o grupo, composto por raças como pastor alemão, golden retriever e corgi, foi filmado caminhando em formação estratégica por uma rodovia movimentada para proteger os membros feridos.
- O crime: os animais foram roubados de três famílias diferentes em uma aldeia no nordeste da China por indivíduos que operam açougues de carne de cachorro, prática comum no inverno da região.
- O resgate: após os vídeos circularem on-line, voluntários de uma base de resgate local utilizaram drones para monitorar o grupo até que todos retornassem em segurança aos seus donos.
- A lacuna legal: embora cidades como Shenzhen tenham proibido o consumo de cães e gatos em 2020, não existe uma lei nacional na China que impeça a prática, o que facilita o furto de animais de estimação.
A história começou a ganhar tração global no dia 16 de março, quando um motorista identificado apenas como Lu registrou o grupo caminhando em uníssono pelo acostamento de uma estrada em Changchun. A cena chamou a atenção pela organização quase militar dos animais: o corgi liderava o caminho, olhando constantemente para trás, enquanto os cães maiores cercavam um pastor alemão que apresentava ferimentos, protegendo-o do fluxo de veículos.
“Eles pareciam irmãos em apuros, movendo-se em total sintonia. Era evidente que não eram cães vadios”, relatou Lu ao veículo chinês Dahe Daily.
De acordo com a base de resgate Bitter Coffee, que auxiliou no rastreamento, os cães pertencem a três famílias da mesma vizinhança e possuem laços sociais profundos. A suspeita dos voluntários é que eles tenham sido colocados em um caminhão de carga e conseguido saltar ou escapar durante uma parada, iniciando a caminhada de volta pela rodovia.
O mercado por trás do roubo
A Associação de Proteção Animal de Dalian destaca que a existência de fazendas de criação de cães para abate é rara devido ao alto custo. Por isso, cães de rua e, principalmente, animais de estimação roubados tornam-se o alvo principal de açougues clandestinos por serem “matéria-prima” barata. No norte da China, o consumo de carne canina ainda é associado a crenças culturais de que o alimento fornece calor e energia para enfrentar os invernos rigorosos.
Embora o roubo de animais seja punível com multa ou prisão dependendo do valor do animal, a falta de uma proibição explícita sobre o consumo cria um vácuo jurídico.
“Tivemos muita sorte de eles terem voltado, e não para serem devorados”, desabafou um dos proprietários, aliviado ao reencontrar seu pastor alemão e seu golden retriever.
O desfecho positivo da história no dia 19 de março, quando o retorno de todos os sete cães foi confirmado, serviu como combustível para ativistas. Nas redes sociais, usuários compararam a trajetória dos animais a um roteiro de cinema, reforçando a pressão popular para que o governo chinês avance em legislações de proteção animal semelhantes às de Shenzhen.
Veja o vídeo e leia a reportagem completa no Metrópoles, parceiro do GMC Online.