Impacto de meteorito formou cratera de 21 km no Piauí, a 2ª maior da América do Sul, diz estudo


Por Agência Estado

Uma cratera de 21 quilômetros de diâmetro no meio da Caatinga, em São Miguel do Tapuio, no norte do Piauí, teve origem no impacto de um meteorito com a Terra. Depois de mais de 40 anos de pesquisa, cientistas brasileiros confirmaram a presença de “cicatrizes” microscópicas que comprovam a formação. Com isso, a cratera no município de 18 mil habitantes, a 215 quilômetros de Teresina, tornou-se a segunda maior do tipo da América do Sul e a 37ª do mundo.

A erosão ao longo de milhões de anos levou boa parte do relevo da cratera de impacto – nome dado a uma grande depressão no solo formada quando um objeto espacial colide com muita velocidade contra a superfície do planeta. Mesmo assim, ainda nos anos 1970, um projeto do governo federal registrou imagens de radar da área que indicavam características típicas da estrutura geológica.

Para chegar à confirmação, o professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Alvaro Crósta, do Instituto de Geociências, tentou acessar a área desde os anos 1980. O terreno, segundo ele, é quase que impenetrável, sem trilhas de acesso e com vegetação densa, espinhosa e seca. De três expedições, a mais bem-sucedida ocorreu somente em 2017, acompanhado do professor Marcos Alberto Rodrigues Vasconcelos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Com a ajuda de um morador da região e de um grupo da Petrobras, eles conseguiram chegar a cerca de um quilômetro do centro da cratera – onde há mais chances de encontrar evidências. A missão era coletar amostras de arenito que pudessem conter provas de deformações provocadas pelo impacto do corpo celeste. “São marcas microscópicas. Foi um trabalho de detetive, de procurar agulha em palheiro”, resumiu Crósta, ao Estadão.

Tanto que, das 50 amostras coletadas num intervalo de poucos dias, foram as duas últimas, as mais próximas do centro da cratera, que continham as evidências: marcas de deformação por choque em grãos de quartzo que ocorrem somente sob pressões altíssimas e ficam registradas permanentemente. “Nenhum outro processo geológico é capaz de gerar pressões tão elevadas em rochas das porções mais superficiais da crosta da Terra”, explicou Crósta.

As amostras coletadas no Piauí foram transformadas em lâminas de rochas para serem analisadas em microscópio na Universidade de Viena, na Áustria, de onde saiu a confirmação. O estudo, que conta com pesquisadores de universidades federais de outros três Estados, foi publicado em um periódico da The Meteoritical Society, referência em pesquisa de meteoritos e crateras de impacto. Em agosto, os resultados serão apresentados no congresso anual da sociedade científica, em Frankfurt.

“Os estudos da cratera ainda estão no início. Queremos voltar na área e chegar até o centro, isso está nos planos”, contou o professor. “Esse tipo de estudo nos ajuda a prever a possibilidade de eventos catastróficos futuros. Aconteceu no passado e vai voltar a acontecer, mas são eventos de baixíssima frequência. O Brasil tem mais um pedacinho para entender a evolução da superfície do planeta”, disse Crosta.

Crateras

Segundo Crósta, a área no Piauí foi atingida por um meteorito de 2,2 quilômetros de diâmetro, com velocidade de cerca de 60 mil quilômetros por hora. “A energia é tão grande no impacto, que ele pulveriza. Uma parte sublima, vira gases, e isso tudo se perde. Uma pequena parte fica em fragmentos. Mas qualquer rocha do espaço é muito instável no ambiente da Terra e se decompõe rapidamente”, explicou.

Para se encontrar pedaços de meteorito, o pesquisador disse que só é possível em impactos “mais jovens”, como a Barringer Crater, no Arizona (EUA), formada há cerca de 50 mil anos. A idade precisa da depressão no Piauí não pode ser determinada, mas a análise realizada pelos pesquisadores indicou a possibilidade de ter ocorrido no intervalo de 159 milhões a 267 milhões de anos atrás.

Apesar da erosão, a cratera apresenta características típicas, como a forma de anel em uma borda externa, vários anéis internos e uma área central elevada. “A erosão já tirou aquela forma de relevo. Tem algumas montanhas, uma borda ou outra mais ou menos marcada, mas o resto foi erodido. Não se percebe a topografia no local porque vai parecer morro como outro qualquer. É tão grande que é difícil de perceber”, disse o professor.

A cratera piauiense foi a nona do tipo confirmada no Brasil – todas com participação de Crósta. No mundo, existem cerca de 200 reconhecidas. A maior da América do Sul é chamada Domo do Araguainha e fica na divisa entre Mato Grosso e Goiás, com cerca de 40 quilômetros de diâmetro. Calcula-se que tenha sido formada há cerca de 250 milhões de anos, após o impacto de um meteorito de cerca de 4 quilômetros de diâmetro.

“Existem outras possíveis crateras que estou estudando, nenhuma aparente como essas nove. Em Parelheiros, tem uma ainda não comprovada, de 3,5 quilômetros de diâmetro. Como foi inundada, tem 300 metros de sedimentos para penetrar. Na bacia de Santos também tem uma em estudo, submersa de água e milhares de metros de sedimentos”, contou Crósta.

Sair da versão mobile