
No Dia Mundial do Rim, a atenção se volta para uma doença que muitas vezes evolui sem sinal evidente e só é descoberta quando já está em estágio avançado. Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, mais de 170 mil brasileiros vivem atualmente em diálise, número que cresce anualmente.
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Para o nefrologista, Fábio Torres, da Santa Casa de Maringá, o maior desafio no enfrentamento da doença renal é justamente o fato de ela evoluir de forma silenciosa. “Imagine que os rins funcionam como uma grande equipe de cerca de dois milhões de filtros. Mesmo que metade deles pare de funcionar, o restante consegue trabalhar dobrado para compensar a perda”, explica. Segundo o médico, o corpo consegue manter o equilíbrio por muito tempo, o que faz com que a pessoa continue se sentindo bem mesmo quando os rins já operam com apenas 20% ou 30% da capacidade.
Os sintomas mais intensos, como náuseas, cansaço extremo e falta de ar, costumam aparecer apenas quando restam poucos “filtros” funcionando.
Antes desse estágio, alguns sinais podem indicar que os rins estão sofrendo algum tipo de lesão, mas muitas pessoas acabam ignorando esses indícios no dia a dia. Urina muito espumosa, por exemplo, pode indicar perda de proteína, um dos primeiros sinais de problema renal. Inchaço nas pálpebras ao acordar ou nos tornozelos ao final do dia também pode indicar retenção de líquidos. Outro sintoma comum é acordar várias vezes à noite para urinar, mesmo sem ter ingerido grande quantidade de líquidos.
O médico também cita cansaço frequente e anemia, já que os rins participam da produção de hormônios ligados à formação do sangue. Em estágios mais avançados, podem surgir ainda coceira persistente na pele e gosto metálico na boca, causados pelo acúmulo de toxinas no organismo.
Apesar desses sinais, o diagnóstico depende de exames simples. “O rim não dói. Por isso, a forma mais segura de detectar o problema é por meio de dois exames básicos: a creatinina no sangue e o exame de urina”, destaca Torres.
O diagnóstico tardio ainda é comum porque os sintomas iniciais costumam ser confundidos com estresse, envelhecimento ou problemas ortopédicos. Além disso, muitas pessoas com doenças que aumentam o risco de insuficiência renal, como diabetes e hipertensão, não recebem acompanhamento específico para monitorar a saúde dos rins.
No dia a dia do consultório e do hospital, o nefrologista observa que a doença renal atinge perfis variados de pacientes. Além das duas principais causas, o abuso de medicamentos e fatores genéticos também contribuem para o aumento dos casos. “O crescimento da população idosa também impacta diretamente nesse cenário. Nos últimos 15 anos, o serviço de hemodiálise da Santa Casa praticamente triplicou de tamanho para atender a demanda”, afirma.
Segundo o médico, o estilo de vida contemporâneo tem peso importante. Alimentação rica em produtos ultraprocessados, excesso de sódio, sedentarismo e obesidade sobrecarregam os rins e aumentam o risco de doenças metabólicas.
Outro fator preocupante é a automedicação. “O hábito de tomar anti-inflamatórios e analgésicos sem orientação médica pode causar lesões renais importantes. Muitas vezes a pessoa busca alívio para uma dor e acaba provocando um dano irreversível ao rim”, explica.
Quando a doença evolui e a função renal é comprometida, alguns pacientes precisam iniciar diálise, tratamento que substitui parcialmente o trabalho dos rins. Hoje existem modalidades diferentes, como a hemodiálise em centros especializados ou a diálise peritoneal realizada em casa.
Segundo Torres, embora o tratamento exija adaptação na rotina, ele permite que muitos pacientes mantenham qualidade de vida. O avanço dos medicamentos e das terapias também tem ajudado a retardar a progressão da doença.
“O mais importante é que o diagnóstico seja feito cedo. Com acompanhamento adequado, muitas vezes é possível controlar a doença e evitar que o paciente precise chegar à diálise”, conclui.