Mesmo preso, mentor de fraudes na Fazenda de SP contava com ‘honorários a receber da Fast Shop’


Por Agência Estado

Promotores do Gedec, o Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos do Ministério Público de São Paulo, apreenderam na casa do ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto – apontado como o “cérebro” de um esquema bilionário de fraudes tributárias e propinas na Secretaria da Fazenda estadual -, um documento intitulado “Obrigações”. Segundo a Promotoria, o material indica que Artur, preso novamente na quarta-feira, 10, continua administrando interesses financeiros ligados ao esquema alvo da Operação Ícaro. Entre as anotações atribuídas a Artur aparecem referências a “receber os honorários da Fast Shop”, “negociar dívida”, “verificar empréstimos em moeda física” e “reativar empresas que forem possível”.

Ao Estadão, o criminalista Júlio César De Nigris Boccalini, que conduz a defesa de Artur, afirmou que “não fará juízo de mérito pela imprensa, especialmente sobre documentos cuja origem, integralidade, contexto e cadeia de custódia ainda precisam ser controlados nos autos”. A reportagem também pediu manifestação da Fast Shop sobre a menção nos documentos. O espaço está aberto.

A referência à Fast Shop nas anotações de Artur – exonerado a pedido dos quadros da Fazenda – chamou a atenção dos investigadores porque a varejista ocupa posição central em uma das frentes da Operação Ícaro.

No estouro da investigação, em agosto de 2025, o diretor estatutário da empresa, Mário Otávio Gomes, foi preso sob suspeita de repassar cerca de R$ 400 milhões em propinas a Artur para acelerar e inflar a liberação de créditos de ICMS em favor da rede.

Para os promotores, o documento “Obrigações” mostra que Artur retomou uma atuação relevante na gestão de recursos e estruturas vinculadas às fraudes investigadas após deixar a prisão, no último dia 29 de maio – ele estava preso desde agosto do ano passado, quando a Operação Ícaro foi às ruas.

O Ministério Público destaca especialmente as menções à obtenção de dinheiro em espécie e à reativação de empresas, interpretadas como indícios de uma tentativa de reorganizar mecanismos de movimentação patrimonial e financeira utilizados no esquema.

Um mês depois da ofensiva do Ministério Público, os sócios da Fast Shop, Milton Kazuyuki Kakumoto e Júlio Atsushi Kakumoto, firmaram acordos de não persecução penal, confessando participação no esquema de pagamento de propinas a fiscais da Fazenda em troca da liberação antecipada de restituição de ICMS.

No âmbito dos acordos, eles detalharam o funcionamento do esquema que, segundo seus relatos, permitiu à empresa obter quase R$ 1,6 bilhão em restituições entre 2021 e 2025.

Em maio deste ano, a Fast Shop também foi multada em R$ 1,04 bilhão pelo governo de São Paulo, na maior penalidade já aplicada no País com base na Lei Anticorrupção.

Fiscal mantinha notações sobre criptos

Detentor de 277 bitcoins avaliados em mais de R$ 90 milhões e nunca declarados oficialmente, segundo o MP, Artur também mantinha registros sobre “criptos” entre os documentos apreendidos em sua residência.”

“As anotações sobre ‘criptos’ confirmam que o réu mantém e movimenta esse vultoso acervo de criptoativos à margem de qualquer controle estatal, em evidente continuidade ao crime de lavagem de capitais”, afirma a Promotoria.

Os registros mencionam ainda nomes de outros investigados, entre eles Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, a “Nina” – apontada como contadora da trama e que está presa -, Celso Éder Gonzaga de Araújo, descrito como lobista e operador financeiro, e Kimio Mizukami da Silva, mãe de Artur que ele próprio teria usado “laranja” do esquema.

Prisão de Artur ocorreu na quarta-feira

A captura do ex-auditor foi realizada por volta das 6h de quarta-feira, 10. Segundo o boletim de ocorrência, os agentes precisaram arrombar a porta da residência porque Artur não atendeu aos chamados para abrir o imóvel. Durante a ação, foram apreendidos R$ 10 mil em espécie.

Todo o patrimônio do ex-fiscal, conhecido como “The King” entre seus pares e empresários que pagaram propinas em troca da liberação relâmpago de créditos tributários, está congelado por ordem judicial. Por isso, na avaliação dos promotores, a apreensão de dinheiro vivo em sua casa “aponta para a persistência na movimentação de numerário de origem espúria à margem do sistema financeiro, reforçando a imputação de lavagem de dinheiro”

Artur foi levado para a carceragem da Delegacia de Polícia de Ribeirão Pires e, posteriormente, à Cadeia Pública de Santo André.

Na decisão em que manda prender o ex-fiscal, o juiz Guilherme Eduardo Martins Kellner anota que “Artur foi apontado como o comandante do maior esquema de corrupção da história da Sefaz-SP”.

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