O médico e professor da Universidade de São Paulo (USP) Júlio Cesar Acosta Navarro, pai do estudante de Medicina Marco Aurélio Cardenas, morto a tiros por um policial militar em novembro de 2024, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, afirma que está sofrendo supostas perseguições e intimidações por defender a prisão dos agentes envolvidos na morte do filho, os PMs Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho Prado.
Entre os dias 29 de março e 9 de maio deste ano, Navarro teve o carro furtado no estacionamento do local onde trabalha, no Instituto do Coração (InCor), e a casa invadida. Objetos, como joias e um notebook, foram levados pelos bandidos. O médico acredita que as ações criminosas foram realizadas com o objetivo de intimidá-lo.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo esclarece que os policiais envolvidos na ocorrência permanecem afastados do serviço operacional e atuando em funções administrativas. “Os inquéritos da Polícia Militar e Civil já foram concluídos e relatados aos respectivos judiciários (Militar e comum)”, disse.
Conforme a SSP, as ocorrências registradas por Navarro são investigadas pelo 14º e 27º Distritos Policiais. “O veículo furtado em março foi recuperado, periciado e devolvido ao proprietário. As investigações prosseguem para o esclarecimento dos fatos”, acrescentou a pasta.
Em relação ao furto da residência, que foi registrado no dia 9 de maio, a perícia foi acionada e as diligências seguem em andamento. “A eventual relação entre os casos é apurada no curso das investigações”, disse a SSP.
As defesas dos policiais citados, Macedo e Prado, não foram localizadas pela reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
“Foi uma série de ataques”, diz Navarro à reportagem. “Mas o risco de vida não vai me impedir de defender a memória do Marco Aurélio”.
Em novembro de 2024, o jovem foi baleado pelo policial Macedo dentro de um hotel na Vila Mariana. A discussão entre o estudante e os agentes começou após o jovem dar um tapa no retrovisor da viatura dos PMs. A Polícia Civil e o Ministério Público pediram a prisão dos policiais, mas a Justiça decidiu aplicar apenas medidas cautelares (entenda o caso mais abaixo).
Desde então, a família do estudante defende publicamente punições mais severas aos policiais e a responsabilização do Estado de São Paulo no caso. No ano passado, os pais de Cardenas fizeram um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU) alegando que a morte do filho configura um caso grave de violação dos direitos humanos.
Na segunda, 18, o médico enviou uma carta para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), criticando a brutalidade da Polícia Militar e reforçando o pedido de prisão dos dois policiais e a expulsão de ambos da corporação.
“Na angústia e na dor pela impunidade dos assassinos, nestes 542 dias, gritei nas ruas e nos quartéis que a Polícia Militar do Brasil se tornou ‘não somente a polícia mais violenta… mas também a mais covarde do mundo'”, diz trecho da carta, finalizada com um pedido ao governador. “Salve sua própria corporação, da qual uma vez também foi parte. Prenda e expulse os PMs assassinos de Marco Aurélio!”.
Questionado se Tarcísio recebeu e respondeu à carta, o governo de São Paulo não deu retorno até a publicação do texto.
Intimidações
Navarro relatou à reportagem três episódios considerados suspeitos e que, na sua avaliação, estão ligados ao caso que terminou com a morte de seu filho em novembro de 2024.
O primeiro aconteceu em 29 de março. Ele teve o carro furtado do estacionamento do Hospital InCor enquanto realizava um plantão. Mais tarde, ele recebeu ligações de duas pessoas que se identificaram como “Advogado Lucas” e seu assistente “Tiago”, exigindo que o médico se deslocasse até a Rua Itapeva, no centro da capital, para a devolução do veículo.
Segundo Navarro, os interlocutores disseram a ele que o carro teria sido furtado por uma mulher em surto psiquiátrico, e que ela não queria devolver o carro no InCor por uma questão de segurança.
Ainda de acordo com o médico, os homens com quem ele conversava alteraram os endereços combinados para recuperar o automóvel. Ele, então, foi aconselhado a não ir sozinho até o local. Policiais militares foram acionados e encontraram o veículo estacionado na Avenida Senador Queiroz, na altura do número 512.
Segundo o boletim de ocorrência registrado na época, as chaves do carro e da casa foram encontradas no capô do carro e, em nenhum momento, houve pedido de resgate ou de quantias em dinheiro para recuperar o veículo. Nenhum objeto chegou a ser levado.
Navarro descreve a conversa como “suspeita” e “estranha”. “Eu achei esquisito. Como é possível que roubem um carro dentro do InCor e o carro ser meu?”, indaga.
“Apesar de tudo isso, eu não liguei para nenhum jornalista. Eu pensei: ‘Eu não posso denunciar isso como algo claramente ameaçadora ou intimidante porque ainda é uma suspeita’. Esse foi o primeiro episódio”, diz ao Estadão.
Em nota, o InCor, via Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, disse que tomou conhecimento sobre o caso, mas que as operações do estacionamento são realizadas por empresa terceirizada. “Todas as informações relacionadas à ocorrência foram compartilhadas com as autoridades policiais”, acrescentou.
O segundo episódio aconteceu no fim de abril. Uma mulher que se identificou como ex-esposa do policial Prado teria pedido ajuda a Navarro porque estaria sofrendo violência doméstica por parte do PM e que estava temendo pela segurança do seu filho.
Na ocasião, o advogado da família do médico orientou que ela buscasse uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência e que procurasse um local seguro para ela e para a criança. “Só que nenhuma denúncia foi feita”, diz Navarro. “Ficou como suspeito esse contato por parte dessa mulher, tentando fazer uma isca ou ter mais informações”.
O terceiro episódio foi registrado na madrugada do dia 9 de maio. Navarro e a família tiveram a casa, localizada no bairro Vila Mariana, invadida quando todos os moradores estavam ausentes. Segundo o médico, um grupo de homens entrou na residência, revirou armários, gavetas e levou joias da família e um notebook da esposa do médico.
Outros objetos de valor acabaram sendo poupados. “Deixaram objetos de prata, obras de artes. Um atitude totalmente ousada”, disse o médico, que considera a região segura. “Nunca teve assalto na minha casa. (Mas acontece) Justo em meio a todos esses incidentes, que estão associados diretamente a soltura dos PMs, que estão em atividade”.
Relembre o caso
Em novembro de 2024, Cardenas foi baleado na região abdominal por um policial militar dentro de um hotel na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. A discussão entre o estudante e os agentes começou após ele dar um tapa no retrovisor de uma viatura da PM que estava parada em um semáforo próximo ao local.
No veículo estavam os policiais Macedo e Prado, que reagiram de forma imediata. Eles saíram do carro e perseguiram Cardenas, que entrou no hotel onde estava hospedado com uma companheira.
Os policiais encurralaram o jovem na entrada do estabelecimento e abriram fogo contra o estudante. Ferido, Cardenas se contorce no chão. Com a arma apontada para ele, Macedo o ameaça: “Se você se mexer vai tomar mais um”, diz o agente.
Toda a ocorrência – desde a perseguição até o atendimento hospitalar – foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes. Em um dos vídeos, Macedo relata a colegas que atirou porque Cardenas “jogou o Prado longe” e que o estudante “tentou vir pra cima de mim”.
A versão foi contestada pela Polícia Civil, que instaurou um inquérito e pediu a prisão de Macedo. No relatório final da investigação, concluído em janeiro deste ano, o delegado Gabriel Tadeu Brienza Vieira afirmou que o uso de arma de fogo por parte do militar foi ilegítimo, uma vez que a vítima não estava armada e não representava risco aos policiais.
O Ministério Público também solicitou a prisão de Macedo, mas a Justiça negou o pedido. A juíza Luciana Menezes Scorza, da 4ª Vara do Júri da capital, entendeu que o policial não apresentava periculosidade que justificasse a medida e determinou que ele passasse a atuar em funções administrativas na corporação. A magistrada aplicou apenas medidas cautelares a Macedo e a Prado.