Alertas: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
A reportagem abaixo trata também de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
O ex-marido da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada morta em seu apartamento com um tiro na cabeça, prestou depoimento à Polícia Civil nesta sexta-feira, 13. Ele era casado com a agente antes dela se relacionar e se casar com o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto.
De acordo com Miguel Silva, advogado que representa a família de Gisele, o ex-companheiro da soldado contou aos investigadores que ela não tinha ideações suicidas, uma das hipóteses para as circunstâncias da morte. Pai biológico da filha de 7 anos de Gisele, o ex-marido também disse que a criança, que vivia com a mãe e o padrasto, já indicava que o casal de policiais vivia uma relação turbulenta e marcada por brigas.
“Eu acompanhei o depoimento”, disse Miguel Silva ao Estadão. “Ele (ex-marido) confirmou que a filha tinha medo de voltar para a casa da mãe (Gisele), e que contava para o pai que a Gisele reclamava muito da relação com o coronel”, contou. O ex-marido passava alguns dias junto da criança. Ele teve a identidade preservada por motivos de segurança.
“Inclusive, foi uma surpresa até para mim a informação de que ele comentou que a menina estava feliz porque a Gisele já tinha decidido que elas iriam morar com os pais dela, os avós da criança. Ou seja, a separação era iminente”, acrescentou Silva.
Procurada, a defesa do tenente-coronel, que se encontra afastado das suas atividades, disse que semana que vem “vai juntar provas que desmentem” a versão da defesa da família de Gisele.
Segundo o tenente-coronel Geraldo Neto, a esposa teria tirado a própria vida dentro de casa no dia 18 de fevereiro, em um apartamento localizado no Brás, região central de São Paulo, momentos depois de uma discussão na qual ele teria proposto a separação do casal.
Na versão do tenente-coronel, ele estava no banho no início da manhã daquele dia quando ouviu o barulho de um disparo e, em seguida, encontrou Gisele já baleada no chão.
A morte chegou a ser registrada como suicídio, mas a classificação mudou após a família de Gisele afirmar que ela sofria abusos e violência por parte de Geraldo Neto. O caso passou, então, a ser tratado como morte suspeita.
Para o advogado Miguel Silva, o depoimento do ex-marido também refuta a hipótese de suicídio. “Ele, inclusive, disse à polícia que a Gisele era uma ótima mãe e que amava a filha. Não teria motivos para ela tirar a própria vida.”
Como mostrou o Estadão, com o passar das investigações, a Polícia Civil de São Paulo viu aumento nos indícios de feminicídio na morte da soldado. Nesta semana, inclusive, a Justiça de São Paulo determinou que a polícia investigue a ocorrência como feminicídio e que o caso seja redistribuído para uma Vara do Tribunal do Júri, onde são julgados crimes contra a vida.
O processo corre em sigilo e, até as últimas atualizações, não havia mandado de prisão expedido contra o tenente-coronel Geraldo Neto. “Está demorando muito. Eu entendo que ele já deveria estar preso”, afirma Miguel Neto.
Lesões contundentes
Na última sexta, 6, a Justiça já havia determinado a exumação do corpo de Gisele. De acordo com o laudo, ao qual o Estadão teve acesso, peritos constataram marcas na face e “lesões contundentes” na região cervical da vítima. “São lesões contundentes, por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal (causado por unha)”.
Fontes da polícia afirmaram ao Estadão que as investigações encontraram outras divergências em relação à versão apresentada por Geraldo Neto.
Uma delas estava no depoimento à polícia de um dos socorristas que atendeu a ocorrência, que foi divulgado pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo, 8. Ele afirmou que o tenente-coronel não parecia ter saído do banho conforme o militar chegou a alegar. Ele estaria seco e o imóvel não apresentava marcas de água.
O mesmo socorrista também disse que a arma estava bem encaixada na mão de Gisele – algo que, segundo ele, nunca havia visto em 15 anos de profissão em casos de suicídio – e que o sangue da policial já estava coagulado.
Outro indício considerado pela polícia é o tempo que o tenente-coronel teria levado para pedir socorro para a esposa após o disparo. Isso porque, segundo uma vizinha, o estampido do tiro teria sido ouvido por ela às 7h28, enquanto a primeira ligação feita pelo policial para pedir ajuda ocorreu às 7h57 – quase 30 minutos depois.
Geraldo Neto ainda teria ligado e se encontrado com um desembargador momentos depois da morte. O magistrado foi ao apartamento quando os socorristas ainda estavam no local, e o tenente-coronel ainda teria tomado banho após o corpo ser retirado – a medida chegou a ser contraindicada por outros policiais presentes, tendo em vista a possibilidade da cena da ocorrência ser alterada.
Relacionamento conturbado
Gisele era casada com o tenente-coronel e tinha uma filha de 7 anos de outro relacionamento. Em depoimento à polícia, a mãe de Gisele afirmou que a relação era conturbada e que Geraldo seria abusivo e violento, proibindo a mulher de usar batom, salto alto e perfume e cobrando a realização das tarefas domésticas de forma rigorosa.
Ainda segundo depoimento da mãe de Gisele, quando a soldado mencionou a intenção de se separar do marido, ele enviou pelo celular uma foto em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.
No boletim de ocorrência, o tenente-coronel afirma que os dois se conheceram em 2021 e se casaram em 2024. Os problemas no relacionamento teriam começado em 2025 e são atribuídos por Geraldo Neto a uma mudança de batalhão.
O tenente-coronel afirmou ter sido alvo de denúncias anônimas na Corregedoria da PM, motivadas por vingança de colegas do novo local de trabalho, com fofocas falsas de um relacionamento extraconjugal. Quando o boato chegou até Gisele, ela teria tido uma crise de ciúmes e os dois passaram a brigar com frequência e a dormir em quartos separados.
Geraldo Neto relatou que, no dia em que ela morreu, ele foi ao quarto propor a separação. Segundo o depoimento, Gisele teria se levantado exaltada, mandado que ele saísse e batido a porta. Em seguida, ele afirma que foi tomar banho e ouviu um barulho que pensou ser uma porta batendo. Ao sair do banheiro, ele teria encontrado Gisele caída no chão.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
NOTA DA REDAÇÃO: Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, o Estadão, assim como boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Estadão passa a discutir mais o assunto. Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O Estadão segue as recomendações de manuais e especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.