Garantir o aprendizado básico e a erradicação do analfabetismo até 2030, intensificar os investimentos em escolas em tempo integral e melhorar a formação dos professores. Essas são as três prioridades que o presidente eleito em outubro deve implementar na educação durante os dois primeiros anos do próximo governo.
Especialistas elencaram as propostas nesta quinta-feira, 11, durante o segundo encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão até agosto (veja o cronograma ao final do texto).
O ciclo de debates busca apresentar medidas concretas para os principais problemas do País. As soluções serão consolidadas em um documento que será entregue em novembro ao vencedor do pleito.
“Se não tiver um fanatismo em educação por parte da maior liderança política do País, o Brasil não vai dar um salto. Precisamos de líderes obcecados em resolver os problemas da educação”, alerta o presidente da Fundação Lemann, Denis Mizne, um dos palestrantes do painel desta quinta.
Mizne destaca que “vontade política se cria”, por isso, mesmo que essa não seja a prioridade dos governantes, é preciso que “a sociedade civil exija esse fanatismo” deles.
Garantir o aprendizado básico e elevar a meta de alfabetização para 100% até 2030
Antes de qualquer coisa, os palestrantes frisaram ser vital não descontinuar as políticas públicas já existentes, entre elas o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA). “O pior erro que pode acontecer no Brasil é mexer no que está dando certo”, diz a cofundadora e presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz.
Ela aponta que, embora a educação básica seja responsabilidade dos Municípios, cabe ao governo federal a coordenação nacional de ensino.
De acordo com Cruz, isso significa estruturar os programas que Estados e Municípios vão executar na ponta – por exemplo, desenvolvendo material didático, metas, avaliações de resultado e incentivos financeiros.
“Se não, o aluno aprenderia de acordo com o seu CEP, e sabemos que isso não é justo. Além disso, o governo federal tem um papel muito importante de provocar o modo turbo dos Estados e Municípios”, afirma.
Em 2019, 55% dos estudantes do 2º ano da rede pública avaliados pelo MEC eram considerados alfabetizados. Mas o índice retraiu com a pandemia: passou para 49% em 2021. Por isso, em 2023, foi criado o CNCA. Naquele ano, o índice já subiu para 56%. Em 2025, último ano com dados disponíveis, o Indicador Criança Alfabetizada (ICA) saltou para 66%.
O presidente da Fundação Lemann aponta que, para esses resultados, foi necessária a união entre diferentes estratégias, baseadas em ações que já haviam dado certo em governos estaduais, como no Ceará.
“O governo federal oferece aos municípios material didático e formação de professores para alfabetização. Depois, cria uma prova (ICA) necessária para receber a formação e o material de graça. Também cria uma premiação com base no resultado da prova, em que os melhores municípios recebem dinheiro. Ainda tem uma cerimônia do prêmio com o presidente, governadores e prefeitos, e incentivos no orçamento”, diz Mizne.
Segundo ele, só com a implementação das medidas em conjunto é possível obter o resultado. “Você pode dar o bônus financeiro que quiser. Mas não terá resultado nenhum sozinho.”
Atualmente, a meta do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada é atingir 80% até 2030. Mas, para os especialistas, é necessário elevar esse objetivo.
“Precisamos subir a barra, chegar a 100% até 2030 e garantir que erradicamos o analfabetismo escolar até o final da próxima gestão”, avalia o presidente da Fundação Lemann.
Mizne não para aí. Para ele, é necessário replicar esse mesmo modelo para a matemática.
O relatório anual mais recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Education at a Glance, mostra que o Brasil investe US$ 3,8 mil por aluno/ano na educação básica. Isso é menos do que gastam Argentina e Chile e um terço do que investem os países da OCDE.
O fundador do Parceiros da Educação e da Proz Educação, Jair Ribeiro, concorda. “Precisamos dar para esses alunos o básico de matemática e língua portuguesa. E isso não é saber trigonometria avançada. Eles precisam sair do ensino médio dominando a linguagem com profundidade e sabendo o básico de matemática.”
No Pisa de 2022, 73% dos estudantes brasileiros registraram baixo desempenho em matemática e 50% tiveram o mesmo resultado em leitura. A média entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 31% e 26%, respectivamente.
“Precisamos focar muito em resgatar esses milhões de crianças, e tem muitos projetos já testados em vários estados que o governo federal deveria induzir, dar material didático e apoiar financeiramente”, avalia Ribeiro. Ele cita como exemplo o programa Professor Tutor do Estado de São Paulo. Criada em 2024, a ação prevê contratar tutores para auxiliar estudantes a superarem defasagens em matemática e português.
Intensificar os investimentos em escolas em tempo integral
O fundador do Parceiros da Educação defende ainda ser necessário expandir as escolas em tempo integral com metas “agressivas”. “Um ano de escola em período integral equivale a três anos de uma regular. Isso tem evidência, tem prova.”
“A escola em tempo integral com professores de dedicação exclusiva é fundamental”, concorda Mizne, da fundação Lemann.
Ribeiro critica o governo federal e o Congresso Nacional por priorizarem o programa contra a evasão escolar Pé de Meia em detrimento dos colégios integrais. “Ano passado, o governo reduziu em mais de 90% o volume de investimentos do MEC para as escolas de tempo integral por causa do Pé de Meia, que não tem evidência de resultado.”
A questão, diz ele, não é falta de dinheiro, mas não gastar nos projetos adequados. “Programas mais eleitoreiros, populistas e assistencialistas ganham prioridade em cima daqueles com evidência.” A sugestão dele é reduzir o orçamento do programa contra evasão e retomar esses recursos para o período integral.
Questionado sobre metas concretas para as escolas em tempo integral, o fundador do Parceiros da Educação reflete que o cenário varia entre Estados. “A população mudou de lugar. Onde há mais demanda é na periferia, porque a população mudou para lá. Então, você precisa construir escola e isso demanda tempo.”
Para Priscila Cruz, o investimento em educação não deve ser visto somente como o acesso a um direito do cidadão, mas como um “pilar” para o próprio desenvolvimento de uma nação. “Nenhum país se arrependeu de priorizar a educação.”
Segundo ela, muitos agentes políticos ainda não enxergam a educação como um tema estratégico para o crescimento do País. “Precisamos fazer a conexão da educação com crescimento econômico, com empregos melhores, preparação para o mercado de trabalho.”
Melhorar a formação dos professores
A cofundadora do Todos Pela Educação ressalta como urgente medidas para aumentar a atratividade da carreira de docentes e também para melhorar a formação deles. “Qual o fator mais importante para garantir que todos os alunos aprendam? É o professor.”
“Nossos mestres são as pessoas que menos aprenderam na educação básica, que tiveram a menor média do Enem. Os cursos de licenciatura são 80% educação a distância (EAD), ou seja, eles não aprendem nada, muito menos a ser professor”, afirma.
Mais de um terço dos professores brasileiros avaliados pelo MEC não tem condições para dar aulas. A maior falha na formação ocorre na área de Matemática, na qual mais da metade dos docentes não alcançou o nível básico considerado pelo governo federal.
Os resultados da Prova Nacional Docente (PND), conhecida como “Enem dos professores”, foram divulgados no mês passado pelo MEC e contemplam 1.508 municípios do País (incluindo 18 capitais) e 22 redes estaduais.
O dado chama ainda mais atenção quando combinado com estudo realizado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) com apoio do Instituto Península que mostrou que, no Brasil, o professor é responsável por quase 60% do resultado dos alunos no ensino fundamental. Isso quer dizer que ele é mais relevante que todas as outras variáveis da escola pública somadas, como número de alunos por turma, escolaridade dos pais, se há ou não internet e até o partido do prefeito.
Para melhorar o cenário, o governo está estruturando com a sociedade civil o programa Mais Professores. “A ideia é atrair os melhores alunos que fizeram o Enem, com nota acima de 650, com uma bolsa para quem for fazer licenciatura, em universidade paga ou pública. Ele vai ter uma bolsa para não precisar trabalhar em outra área, poder se dedicar aos estudos e conseguir pagar essa faculdade privada, se for o caso”, explica Cruz.
Para atrair talentos para a carreira, pesquisas internacionais mostram que um bom salário inicial é um fator de peso. Estudo divulgado pelo Movimento Profissão Docente este ano analisou os salários de 2025 com base em dados oficiais e mostrou que um professor no Brasil, sem contar as gratificações e prêmios, começa sua carreira ganhando uma média de R$ 6,2 mil, o que corresponde a quase quatro salários mínimos. O piso estipulado por lei no ano passado foi de R$ 4.868.
Evento faz parte do projeto Brasil Adiante; veja cronograma
Às vésperas das eleições de outubro, o Estadão promove a série de eventos Brasil Adiante, em busca de construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.
“Reunimos especialistas, gestores e lideranças para discutir como mudar o que estamos cansados de saber que precisa mudar”, disse Eurípedes Alcântara, diretor de Jornalismo do Grupo Estado.
A curadoria do projeto é do executivo Fábio Barbosa, que elaborou três eixos de trabalho para os encontros, contemplando temas como saúde, educação, segurança pública, instituições, entre outros.
No primeiro encontro, que aconteceu em maio, o debate teve como foco a eficiência do sistema de Justiça, o avanço dos custos do Judiciário e os efeitos da baixa previsibilidade judicial sobre investimentos, ambiente de negócios e atividade econômica (veja como foi).
Nesta quinta, o segundo encontro do Brasil Adiante também teve um painel sobre como a saúde precisa se adaptar ao envelhecimento da população (leia mais aqui).
Até agosto, serão realizados outros três encontros que discutirão temas como Segurança Pública e Crime Organizado, Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade.
As soluções elaboradas serão consolidadas em um documento que será entregue em novembro ao vencedor das eleições presidenciais. A ideia é encaminhar uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.
Veja o cronograma:
27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento;
11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);
23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);
19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;
27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;
Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.