
A chef paranaense Angélica Salvador, nascida em Engenheiro Beltrão, a 60 quilômetros de Maringá, conquistou uma estrela no Guia Michelin Portugal 2026 com o restaurante In Diferente, localizado no Porto. O reconhecimento marca um feito histórico: Angélica se tornou a primeira chef brasileira a receber uma estrela Michelin na Europa.
Mas a trajetória da chef começou longe das cozinhas de alta gastronomia. Angélica viveu em Engenheiro Beltrão até os 11 anos e guarda memórias da infância no interior do Paraná, especialmente da convivência com a família na cozinha. Em entrevista ao Portal GMC Online, ela relembrou as experiências que ajudaram a despertar seu interesse pela culinária.
“Eu sou a menina que brincava na terra vermelha do Paraná. Cresci vendo minha mãe e minha avó cozinhar, ajudando nas panelas, aprendendo a fazer arroz soltinho. Lembro das matanças do porco, e eu estava sempre em volta do fígado do porco, para fazer acebolado. Sempre fui a mais moleca nesse sentido. O ‘bichinho’ estava aqui, mas ele estava escondido, não nego, porque no Brasil eu nunca exerci a função de cozinheira”, relembrou.
Aos 21 anos, Angélica decidiu se mudar para Portugal com uma amiga, em uma viagem que descreve como uma “aventura”. Chegou ao país em 2005 e começou trabalhando na copa de um hotel, lavando louça. Foi nesse período que conheceu o companheiro, o chef Tiago Bonito, com quem passou a dividir também a trajetória profissional. Ao longo dos anos, trabalhou em diferentes cozinhas e eventos gastronômicos, aprendendo na prática e convivendo com chefs renomados, até construir seu próprio caminho na gastronomia portuguesa. O restaurante In Diferente foi inaugurado em 2018.
No restaurante da chef paranaense, o espaço intimista se destaca por uma proposta de cozinha autoral que combina técnicas e tradições da gastronomia portuguesa com influências brasileiras. Entre os ingredientes que aparecem em suas criações estão elementos típicos do Brasil, como o tucupi, reinterpretados em pratos sofisticados. Entre os maiores desafios desde que passou a empreender, Angélica destaca o período da pandemia da Covid-19. A chef e a equipe buscaram alternativas para manter o negócio ativo, criando menus especiais para entrega e experiências gastronômicas adaptadas ao momento. Segundo Angélica, esse período também ajudou a ampliar o público e a visibilidade do trabalho desenvolvido no restaurante. “Nós fizemos ‘take and go’, fizemos cabrito assado, que é uma tradição aqui na Páscoa. Nós criamos o menu da trufa em casa, que foi uma coisa que deu muito retorno. E tinha clientes que me diziam assim: ‘nossa, você veio mais à minha casa do que eu fui no seu restaurante’. E as pessoas passaram a me conhecer”.
A conquista da estrela Michelin era um objetivo, mas não uma certeza. “A gente sempre tentou fazer bem feito, melhorar a cada dia. Mas a decisão não é nossa”, afirmou. Ao receber o prêmio, a chef descreveu o momento como um dos mais marcantes da vida e da carreira. A noite da vitória, aliás, foi uma comemoração dupla, já que o restaurante do marido e sócio, o Eon, também foi agraciado com uma estrela Michelin na mesma cerimônia.
Mesmo vivendo há duas décadas na Europa, Angélica faz questão de destacar suas origens. “Sou paranaense de gema. Minha humildade e minha criação vêm da minha família. Meu pé vermelho não está vermelho, mas está aqui”, disse.
Hoje à frente do In Diferente, Angélica Salvador comanda uma equipe de nove colaboradores e celebra o reconhecimento internacional sem esquecer o caminho percorrido desde a infância no interior do Paraná. Uma história que agora leva o nome de Engenheiro Beltrão e do noroeste paranaense para o cenário da alta gastronomia mundial.
Assista a entrevista na íntegra: