Filho doa o próprio cabelo para mãe em tratamento contra o câncer em Sarandi


Por Brenda Caramaschi
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Lice Ferreira e o filho Oscar em dois momentos: com o garoto ainda com o cabelo longo que doaria, e com a mãe usando os fios recém-cortados, em um mega hair. Fotos: Arquivo pessoal

A história de Lice Ferreira, moradora de Sarandi, é marcada por dor, superação e, principalmente, por amor. Há 17 anos enfrentando o câncer, ela encontrou no apoio da família a força para seguir em frente mesmo diante de um diagnóstico considerado grave desde o início.

Tudo começou em 2009, quando Lice identificou um pequeno nódulo durante o autoexame. Após insistência para conseguir atendimento especializado, veio a confirmação: um câncer de mama já em estágio avançado. À época, a previsão médica era de apenas três meses de vida. “Mas para Deus nada é impossível”, diz ela com fé. 

Oscar tinha apenas sete anos quando a mãe recebeu o primeiro diagnóstico e a cada vez que os cabelos dela caíam, ele raspava a cabeça junto, para incentivá-la. / Foto: Arquivo pessoal

“Meu chão caiu.  Parecia que tinha aberto um buraco e eu caía sem parar. Mas eu pensei: eu quero ver meus filhos crescerem”, relembra. De lá para cá, foram cirurgias, quimioterapia, radioterapia e novos diagnósticos. A doença se espalhou para o pulmão, voltou anos depois e, mais recentemente, atingiu também os ossos. Mesmo diante das recaídas, Lice nunca interrompeu a luta. 

“Eu nunca reclamei. Sempre agradeci por estar viva e por ter pessoas maravilhosas cuidando de mim”, afirma. Ao longo desse percurso, o apoio da família foi decisivo. O marido e os dois filhos estiveram presentes em todas as etapas. O filho Oscar, que tinha apenas sete anos quando a mãe recebeu o primeiro diagnóstico, cresceu acompanhando de perto cada fase do tratamento. A cada vez que os cabelos da mãe caíam, ele raspava a cabeça junto, para incentivá-la, e sempre pensou em como poderia ajudar a cuidar de quem precisa.

Quando decidiu doar os cabelos para a mãe, Oscar passou a ter uma rrotina ainda mais disciplinada de cuidados com os fios. / Foto: Arquivo pessoal

O primeiro desejo do garoto foi o de doar sangue, mas por questões de saúde, ele não podia. No entanto, encontrou outra forma de ajudar. Em 2022, depois de deixar o cabelo crescer por cerca de sete anos, fez a primeira doação para confeccionar uma peruca para pacientes em tratamento contra o câncer. Mais recentemente, repetiu o gesto, desta vez com um destino especial: a própria mãe. No novo tratamento da mãe, os cabelos cairiam de novo, mas em vez de raspar a cabeça junto com ela, dessa vez Oscar faria a doação da cabeleira, que já estava longa, direto para Lice.

Lice não se adaptava ao uso de perucas e a ideia de uma amiga foi utilizar o cabelo do filho para a aplicação de um mega hair. Oscar cuidou dos fios durante meses com disciplina, fazendo hidratação e cortando as pontas, até o momento da transformação. “Para mim não muda nada. O cabelo cresce de novo. Mas para quem precisa, pode mudar tudo”, diz o jovem. A aplicação foi feita com acompanhamento de uma cabeleireira amiga da família e exigiu horas de trabalho. 

O resultado emocionou mãe e filho. “Eu estou me sentindo maravilhosa com o cabelo dele”, conta Lice. Mais do que uma mudança estética, o gesto representa um símbolo de afeto construído ao longo de anos de convivência com a doença. “Você ver seu filho pensando no próximo já é lindo. Agora imagine ele fazendo isso por você, sabendo tudo o que você passou”, afirma. Mesmo ainda em tratamento contínuo (atualmente com medicações regulares e acompanhamento paliativo), Lice mantém o olhar voltado para o presente. Celebra cada conquista, cada dia ao lado da família e cada demonstração de carinho.

Ao lado dos filhos já crescidos e usando o mega hair com os fios doados por Oscar, Lice celebra o fato de estar viva e redoada de amor. / Foto: Arquivo pessoal

“Pode ser que o cabelo do Oscar não dure muito tempo na minha cabeça, mas eu vou aproveitando até quando Deus quiser.  Porque eu sou muito grata por cada manhã que eu acordo. Eu achei que eu nunca ia ver meus filhos crescerem, se formarem. E os dois fizeram faculdade. São duas riquezas da minha vida. Completei 25 anos de casamento com meu marido. Eu só tenho que agradecer”, diz a mãe, orgulhosa. 

Inspirado pela experiência, Oscar já pensa em novas doações no futuro e reforça a importância de pequenos gestos. “Se alguém olhar isso e decidir ajudar outra pessoa, já valeu a pena”. Entre cicatrizes, recomeços e incertezas, a trajetória da família mostra que, mesmo nos momentos mais difíceis, o amor pode ser um dos remédios mais poderosos.

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