Fotógrafo da região transforma relação com o pai em projeto premiado internacional

O fotógrafo Danilo Zocatelli Cesco, natural de Marialva, na região de Maringá, tem conquistado reconhecimento internacional com o projeto “Querido Pai”, uma série fotográfica construída a partir da própria história familiar e realizada no sítio da família, na área rural do município. Radicado em Londres desde 2012, Danilo iniciou a trajetória artística de forma inesperada.
Formado em gastronomia, ele trabalhava como chef quando começou a fotografar como uma forma de se comunicar com a família no Brasil, mostrando um pouco dos cenários e paisagens que encontrava vivendo a quase dez mil quilômetros de distância. Anos depois, foi incentivado por um amigo a estudar fotografia, entrou na universidade e, com a exibição que criou como trabalho de conclusão de curso, recebeu dos professores o conselho de entrar em um mestrado. O fotógrafo paranaense acabou ingressando no prestigiado Royal College of Art, considerada a melhor escola de artes do mudo, e ali desenvolveu o projeto que mudaria sua carreira: a exposição “Querido Pai”.

O projeto fotográfico que investiga as complexas relações entre masculinidade, memória, afeto e identidade, nasceu de um desejo profundo de estabelecer uma conexão entre o fotógrafo e o pai. As imagens foram produzidas no sítio da família de Danilo, em Marialva, tendo como protagonista o pai do artista. A proposta parte de uma inversão de papéis. O fotógrafo, que se descobriu gay durante a adolescência e se identifica como queer, durante boa parte da vida sentiu a necessidade de performar uma masculinidade para corresponder às expectativas e se encaixar no ambiente rural, mas para criar o ensaio convidou o pai a experimentar a estética drag, oferecendo um espaço para uma escuta mútua e um encontro transformador.
“Parece que eu já entendia o peso desse trabalho poderia ter. E falei para ele: ‘esse trabalho pode mudar a minha vida. Só que é um trabalho que eu não consigo fazer sozinho. Eu preciso que o senhor me ajude. E não vai ser fácil, porque nós vamos ter que falar sobre coisas que a gente nunca falou antes Eu preciso pintar o rosto do senhor com maquiagem de drag queen’. E aí ele falou assim: ‘desde que você me traga uma peruca bonita e uma pra sua mãe, eu faço’. Então esse foi o sim dele. Eu sinceramente não achava que ele ia dizer sim”, conta, recordando o momento em que fez o convite ao pai.
O resultado é uma série potente, que mistura performance, fotografia e memória. Nas fotos, o pai aparece maquiado enquanto executa atividades típicas do cotidiano masculino rural, como dirigir tratores, jogar bola e até abater um animal. “Não quero te transformar em outra pessoa, porque aprendi a te amar e te entender como você é, só quero poder te mostrar como pertenço ao mundo e como me sinto”, explica o artista em uma carta, endereçada ao pai, que integra o projeto.

A produção das imagens aconteceu ao longo de cinco dias no sítio, em um processo que, segundo Danilo, foi tão transformador quanto o resultado final. No início, o pai demonstrava estranhamento, mas, com o passar dos dias, passou a se envolver ativamente nas cenas. “Criamos um espaço íntimo de troca, de olho no olho. Não se trata de transformá-lo em outra pessoa, mas de abrir-lhe uma janela para o meu mundo. Juntos instauramos um espaço visual onde a aceitação radical pode existir sem julgamento ou medo, onde pai e filho se reconhecem e se refletem. Teve um momento em que ele mesmo começou a performar, a me guiar. Virou um processo compartilhado”, relembra.

Já para o pai, foi como um retorno ao passado, mas por outra visão. “Fui me encontrando diante o que ele me proporcionou, foi como voltar ao tempo em que ele era criança. Fomos a vários lugares que a gente ia quando ele era pequeno e foi muito gratificante para mim. Não hesitei em participar com ele e me dispus a fazer tudo que ele queria”, diz o agricultor João Cesco, pai de Danilo.
A carta escrita para o pai deu nome ao trabalho. Trechos do texto aparecem como títulos das imagens, reforçando o caráter íntimo da obra. “Eu precisei viver tudo aquilo para depois conseguir escrever”, conta. O impacto do projeto ultrapassou o campo pessoal e ganhou dimensão internacional: a exposição “Querido Pai” já foi exibida na França, Bélgica, Suíça, Holanda e Reino Unido, além de integrar importantes mostras e premiações, como o Dior Photography and Visual Arts Award. O trabalho também foi selecionado pelo programa New Contemporaries, que destaca novos artistas no cenário britânico.
Apesar da repercussão global, o fotógrafo faz questão de destacar a origem da obra. “É um projeto que nasceu lá, no sítio, no Paraná, em Marialva, com meu pai. E eu quero muito que ele volte para o Brasil, que as pessoas vejam e se reconheçam”, afirma. A mostra foi exibida na cidade mineira de Tiradentes e chega a São Paulo no segundo semestre. De acordo com Danilo, o trabalho tem provocado reações intensas do público, que frequentemente compartilha histórias pessoais após entrar em contato com as imagens. ““Eu já tive que abraçar muita gente, que ouvir muito choro, muitas histórias lindas de superação, mas muitas histórias tristes”.
Para o artista, o projeto representa também uma reconciliação. “Eu te vi olhando para mim, e você me viu como eu realmente sou”, escreve na carta ao pai, sintetizando o percurso que começou na infância do fotógrafo, na área rural de Marialva, e hoje ecoa em galerias ao redor do mundo. Mas na percepção do filho, o pai ainda não se deu conta do tamanho da repercussão causada ao dizer “sim” para aquelas fotos. “Meu pai é um cara que tá ali, naquele sítio, e cresceu no sítio. Acho que ele só vai conseguir entender o que a gente criou quando ele puder ver as fotos pessoalmente. Vou levar ele para exibição em São Paulo e ele vai poder ver pela primeira vez. Eu tô muito curioso pra ver como vai ser. O The Guardian falou sobre o meu trabalho, o El País… Eu tive um menino da Polônia me escrevendo e falando, ‘olha, eu vou sair do armário com a minha família’. Me sinto muito feliz, muito feliz mesmo de poder falar sobre isso. Porque a gente precisa de histórias como essa pra mostrar que desenvolver aceitação e afeto é possível”, comemora o paranaense.

Apesar de não mensurar totalmente o impacto global que as fotos em que aparece captado pelas lentes do filho estão tendo, João sabe que cada diálogo familiar facilitado por essa exposição é valioso e fala, orgulhoso, sobre sua relação com Danilo. “Estou feliz por ele ter conseguido aproximar muitos pais dos filhos. Filho é filho, e ele é simplesmente meu filho, que amo com muita gratidão por ele ser essa pessoa maravilhosa que ele é. Sempre fui aberto com ele, sempre apoiei e a partir do momento que ele se abriu comigo, parece que eu trouxe ele mais perto de mim. Eu penso nele como um grande filho, como uma grande pessoa, e tenho orgulho, sim, dele ser essa pessoa lutadora e com grandes sonhos que ele tem”.
Assista ao vídeo da aplicação da maquiagem enquanto o fotógrafo lê a carta ao pai.
Leia abaixo a carta na íntegra:
Querido Pai,
Eu me lembro que aprendi a palavra hipócrita com você, essa talvez não seja a forma mais romântica de te introduzir para o mundo, mas me marcou. Até hoje eu não tive coragem de olhar no dicionário o que essa palavra significa, mas dado os momentos que ela era usada, eu não acho que significa algo bom.
A primeira vez que você falou que me amava foi quando eu tinha 17 anos, eu estava morrendo de medo de você, foi pela manhã, tinha café na mesa, a TV estava ligada, minha mãe tinha te contado que eu tinha me assumido gay. Acho que naquele dia foi a primeira vez que nos conectamos, foi estranho porque você não reagiu como eu antecipei, e isso me fez tão bem.
Nosso relacionamento não é como aquelas músicas românticas, ou aqueles filmes antigos de “bang bang” que você tanto adora, onde o pai e o filho saem montados em seus cavalos pelos desertos nos Estados Unidos matando gente e conquistando terra juntos. Mas você nunca me deixou faltar nada, eu sei que você já teve que tirar de você para dar para mim.
Eu me lembro ainda pequeno prometer a mim mesmo que nunca iria tomar cerveja, tem um gosto amargo, eu não conseguia entender como você gostava tanto. Você nunca foi violento, mas chegava tarde em casa, bêbado, deitava no sofá e em segundos estava roncando, muitas vezes me atrapalhando assistir meu programa favorito. Hoje, voltando naqueles momentos, eu acho que você só queria estar ali, perto da gente, incomodando ou não, você estava ali.
Paçoca! Meu doce favorito de domingo. Eu lembro que esse era meu “pagamento” por ir com você jogar bola todo domingo em uma comunidade na beira de uma rodovia, onde eu não tinha para onde fugir. Lá eu não podia te embaraçar na frente dos seus amigos. Me lembro pouco daquele lugar, acho que guardei em um espaço que não quero acessar, mas cheirava a suor. Eu lembro de algumas vezes entrar no vestiário, as camisetas de time penduradas na parede verde, o banco de cimento, e o vapor dos chuveiros. Lá era um lugar calmo para me esconder do barulho lá de fora.
Papi, essa carta não é para te cobrar reparação do passado, ela é uma ponte para esse momento que nos trouxe até aqui. Eu uso cola para bloquear suas sobrancelhas enquanto você tem os braços cruzados sem entender muito o que está acontecendo. Por mais que a gente se abrace e se ame, acho que eu nunca tinha olhado para você tão de perto: seus pelos nascendo de dentro da sua pele, as marcas de sol de um homem que vive da terra, rugas dadas pelo tempo e marcas de contato com agrotóxicos e produtos para cuidado da plantação.
Desenhar um rosto novo em você me serve como um exercício de liberdade. O senhor não imagina como me sinto por dentro — aquele menino que se culpou por ser gay, que não se tornou engenheiro e até hoje não aprendeu a dirigir estava em festa. Eu não quero te transformar em outra pessoa, porque eu aprendi a te amar e te entender assim como você é. Eu só quero, por um dia, poder te mostrar como eu pertenço no mundo, como eu me sinto. Eu quero te olhar e me ver refletido em você, sem ter medo de ser assim como sou — gay, cabelo comprido, brincos, piercing e unhas pintadas.
Essa ideia toda surgiu quando um dia eu estava lembrando do dialeto que nossa família tem, e como isso nos torna únicos, mas a palavra “golo” (‘viado’) sempre me assombrou. Crescer com essa palavra e sabendo que eu checava todas as características para ser um golo não podia me assombrar mais. Eu tenho orgulho do que me tornei e de como lidei com minha sexualidade. Tomar controle e ser dono dessa palavra me inspirou, e só você poderia me ajudar nessa busca.
Te olhar na sua roupa de sítio com a cara pintada e usando uma peruca enorme foi como todo filho deveria ver seu pai: um herói! O senhor embarcou nessa jornada comigo, me deu as mãos e, pela primeira vez, me deu controle. Ali nós invertemos papéis, nos tornamos parceiros, colaboradores, amigos, iguais. Pai e filho, filho e pai.
Eu sempre tive o sonho de conhecer o mundo, de provar comidas exóticas e procurar beleza em terras desconhecidas — e eu fiz isso —, mas parece que ir embora foi necessário para que eu entendesse que precisava voltar. Ter suas fotos no meu estúdio e olhar para o que criamos juntos me enche de esperança e sentimento de dever cumprido. Nós conquistamos o que foi proposto. Eu vi você me olhando de volta, e você me viu como eu realmente sou.
Nesse processo, nós nos conectamos. Por mais que você tivesse o rosto pintado, eu te vi cru — o suor brotando na sua testa, os olhos apertados no sol quente e até o seu ronco no sofá soou diferente. Acho que encontramos nossa paz. Nos colocamos no nosso lugar e nos olhamos. Nossa história vai ser colocada em uma parede de galeria, e as pessoas vão sentir seu amor a nove, dez, quinze mil quilômetros de distância da sua casinha no sítio. Porque eu descobri a fonte infinita de amor que jorra dentro de você, e eu sou tão grato de ter descoberto a tempo de poder te falar isso tudo enquanto ainda estamos aqui.
Muito obrigado por ser meu pai.
Muito obrigado por me deixar te mostrar ao mundo.
Muito obrigado por dizer que me amava no momento em que eu me senti mais vulnerável.Essa é minha carta de amor para você.
Te amo.
