Jovem da região pode se tornar o procurador da República mais novo do Brasil


Por Brenda Caramaschi
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Aos 25 anos, Guilherme de Melo Sphair, de Mamborê, município com pouco mais de 13 mil habitantes, foi aprovado no 31º Concurso para Procurador da República do Ministério Público Federal, considerado um dos mais difíceis do país, e pode se tornar o procurador da República mais jovem em atividade no Brasil. / Foto: Arquivo pessoal

Guilherme de Melo Sphair, de 25 anos, liderou a classificação da Região Sul no concorrido concurso do Ministério Público Federal. A trajetória dele começou em escolas públicas da pequena cidade de Mamborê, a pouco mais de 100 quilômetros de Maringá e a 35 de Campo Mourão. 

Vindo de um município com cerca de 13 mil habitantes, o rapaz acaba de alcançar um feito raro no cenário jurídico brasileiro. Sphair foi aprovado no 31º Concurso para Procurador da República do Ministério Público Federal (MPF), considerado um dos mais difíceis do país, e pode se tornar o procurador da República mais jovem em atividade no Brasil. A conquista ganha ainda mais destaque diante da concorrência: 10.372 candidatos disputaram apenas 58 vagas e desse total, somente 43 chegaram à prova oral, etapa em que Guilherme obteve a maior nota entre todos os concorrentes, com média de 92,85. 

Ele foi o único candidato que recebeu três notas máximas (100) dos seis examinadores, incluindo uma do procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco. Na classificação final, terminou em sexto lugar no país e foi o primeiro colocado da Região Sul. “O bom desempenho na prova oral me permitiu essa colocação e a felicidade foi tão grande quanto a minha surpresa”, celebrou Guilherme, que aguarda a data de posse e da cidade de atuação.

Nascido e criado em Mamborê, onde ainda vive com a família, Guilherme estudou toda a educação básica em escolas públicas. Filho de servidores públicos (a mãe é professora da rede estadual e o pai atua na emissão de documentos de identidade no município), ele afirma que desde cedo encontrou nos estudos o caminho para realizar os objetivos.

Em 2017 Guilherme foi presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Estadual João XXIII, em Mamborê e, enquanto os colegas liam romances obrigatórios para vestibulares, ele lia a Constitiuição Federal. / Foto: Arquivo pessoal

“O meu interesse pelo Direito começou ainda criança, durante as eleições municipais de 2008. Eu queria entender como funcionavam os processos eleitorais, as decisões da Justiça e como elas impactavam a vida da minha cidade”, conta. O interesse precoce virou dedicação. Ainda no ensino médio, Guilherme leu a Constituição Federal, acompanhava sessões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e mantinha um caderno para estudar a terminologia jurídica utilizada pelos ministros. Na graduação em Direito, cursada entre 2018 e 2022 no Centro Universitário Integrado, em Campo Mourão, a rotina de estudos se intensificou. Participou de eventos científicos, olimpíadas jurídicas e conquistou a Láurea Acadêmica ao concluir o curso com média geral de 9,67.

Na colação de grau no Direito, em2023, o jovem de Mamborê foi surpreendido com duas Láureas Acadêmicas, pela maior média de nota entre os formandos do curso de Direito e pela maior média de nota entre os formandos de todos os cursos. / Foto: Arquivo pessoal

Curiosamente, o sonho inicial não era ingressar no Ministério Público Federal como procurador. Durante anos, Guilherme se preparou para concursos da magistratura estadual. A mudança aconteceu apenas após decidir prestar o concurso do MPF, inicialmente sem grandes expectativas. “Eu praticamente fui fazer a primeira fase para conhecer como era a prova. Depois que avancei no concurso, comecei a estudar mais profundamente a atuação do Ministério Público Federal. Eu acabei me apaixonando pela carreira. A atuação prática do MPF é muito bonita. Você tem a possibilidade de atuar pensando no Brasil de um modo geral. É uma das poucas carreiras, senão a única, que permite isso”, afirma.

O trabalho desenvolvido pelo MPF, especialmente nas áreas de proteção ambiental, direitos humanos, defesa do patrimônio público e combate à corrupção, foi determinante para a mudança de planos. Mas pela Constituição Federal, candidatos ao cargo precisam comprovar três anos de atividade jurídica na fase de inscrição definitiva e Guilherme conseguiu cumprir o requisito literalmente no limite do prazo. “Completei três anos e um dia exatamente no último dia previsto pelo edital. Foi um período de muita ansiedade. Hoje olho para trás e vejo como tudo aconteceu no tempo certo”.  A história do jovem que saiu de uma pequena cidade do interior paranaense para alcançar uma das melhores classificações do concurso mais disputado da carreira jurídica nacional reforça o peso que dedicação, disciplina e educação pública tiveram, mas ele também atribui a conquista à fé. Ao longo da entrevista, Guilherme mencionou diversas vezes que acredita ter sido conduzido por Deus em cada etapa da preparação e considera que acontecimentos decisivos ao longo do concurso aconteceram no momento exato.

Enquanto aguarda a nomeação e a definição da cidade onde irá atuar, o jovem jurista já projeta os desafios da carreira. A expectativa é que boa parte dos novos procuradores seja destinada a estados da Amazônia Legal, onde a atuação do MPF envolve temas como proteção ambiental, combate ao garimpo ilegal e defesa de comunidades tradicionais. Para Guilherme, o papel de procurador do Ministério Público vai além da atuação judicial. “O Ministério Público é um defensor da sociedade. Vivemos um momento em que também precisamos fortalecer formas consensuais de resolução de conflitos. A Justiça não deve ser a única porta para resolver todos os problemas”, finaliza.

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