Na calmaria da Praia de Caieiras, em Guaratuba, no Litoral do Paraná, um pedaço enferrujado de ferro rompe a paisagem sempre que a maré baixa. Para muitos banhistas, trata-se apenas de uma curiosidade histórica. Para quem conhece a história, porém, aquele fragmento é o que restou do Vapor São Paulo, um navio envolto em mistério, guerra, promessas de liberdade e personagens do Brasil do século XIX.
O Vapor São Paulo está encalhado no local desde novembro de 1868. A embarcação, pertencente à Marinha Mercante Brasileira, retornava da Guerra do Paraguai quando acabou tombando próximo à costa de Guaratuba. O comando era do oficial Jacinto Ribeiro do Amaral, figura que atravessa a história não apenas pela carreira naval, mas também por sua vida pessoal: ele foi casado com a compositora Chiquinha Gonzaga, uma das maiores referências da música brasileira, com quem teve três filhos.
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Durante a guerra, o navio teve papel fundamental no resgate de soldados brasileiros. A maioria desses combatentes era formada por homens negros, muitos recrutados para lutar no lugar de filhos de autoridades e pessoas influentes da época. A promessa de alforria após o retorno do conflito era o principal incentivo. No entanto, a falta de preparo e as condições extremas da guerra fizeram com que grande parte desses soldados não sobrevivesse aos combates.
O acidente que levou ao encalhe do Vapor São Paulo permanece cercado de incertezas. Estima-se que cerca de 600 pessoas estavam a bordo, entre tripulantes, médicos e soldados. Todos foram resgatados, com exceção de um soldado que morreu após ficar gravemente ferido. Apesar da gravidade do episódio, não há registros oficiais detalhando o ocorrido, nem mesmo nos arquivos da Marinha, o que alimenta especulações e lendas locais até hoje.
Entre as hipóteses levantadas estão a baixa visibilidade provocada por uma densa neblina, um erro de cálculo do comandante em relação à distância da costa ou uma tentativa de acessar o canal da barra em direção à baía de Guaratuba. Qualquer uma dessas situações poderia ter resultado no encalhe e no posterior tombamento do navio, que acabou abandonado no local.
Com o passar das décadas, o Vapor São Paulo foi sendo desmontado. Diversos utensílios e peças foram retirados da estrutura, incluindo uma mesa de madeira entalhada à mão, com mais de quatro metros de comprimento, que se manteve surpreendentemente preservada. Esses móveis chegaram a ser adquiridos por uma empresa de Joinville, em Santa Catarina, com fins comerciais, mas o projeto acabou abandonado. Posteriormente, os objetos foram vendidos a uma empresa que existia em Guaratuba na época.
Outro item que chama atenção nos relatos históricos é um sino de prata que fazia parte da embarcação. Ele chegou a ser oferecido à Igreja Matriz de Guaratuba, mas o peso elevado e as dificuldades para a remoção impediram que o objeto fosse retirado do local.
Em 1928, novas intervenções ocorreram no que restava do navio. Mancais em excelente estado de conservação foram removidos, alguns deles com marcas de desgaste externo causadas pelo movimento constante quando o navio ainda estava em operação. Essas peças eram essenciais para o funcionamento da embarcação, pois acionavam o eixo principal que atravessava o casco de um lado ao outro e sustentava as grandes rodas responsáveis pela propulsão.
Hoje, o que se vê na Praia de Caieiras é apenas uma pequena parte do Vapor São Paulo. Após o acidente, grande parte da estrutura de ferro foi vendida para uma metalúrgica de Santa Catarina. Ainda assim, o fragmento que resiste ao tempo continua despertando curiosidade, especialmente quando surge entre a areia e o mar durante a maré baixa.
Mais do que um vestígio metálico, o Vapor São Paulo se tornou um símbolo silencioso de um período marcado por guerra, desigualdade e histórias que nunca foram totalmente contadas. Em Guaratuba, ele segue como uma atração pouco conhecida, mas carregada de significado, ligando o litoral paranaense a um dos capítulos mais complexos da história do Brasil.
Com informações do Portal Litorânea