
Um levantamento inédito sobre a percepção pública da ciência no Paraná revelou um cenário marcado por confiança elevada nas universidades públicas, mas também por contradições na compreensão de conceitos científicos fundamentais. De acordo com a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência no Paraná, 48% dos entrevistados afirmam não acreditar na teoria da evolução.
O estudo ouviu 2.684 pessoas, de forma presencial, em 88 municípios do estado. A pesquisa é uma iniciativa do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Paraná Faz Ciência, com apoio da Fundação Araucária, e teve como objetivo entender como os paranaenses enxergam a ciência, os cientistas e o impacto do conhecimento científico na sociedade. Apesar do dado sobre a evolução, o levantamento mostra que o Paraná está longe de ser um estado negacionista.
O índice de confiança em cientistas de universidades públicas é de 93%, superior à média nacional e maior do que a confiança atribuída a outras categorias, como médicos e jornalistas. Além disso, 91,5% dos entrevistados afirmam saber que a Terra é redonda e 59% atribuem as mudanças climáticas principalmente à ação humana. Quando questionados especificamente sobre o aquecimento global, 86,8% reconhecem que ele é causado total ou majoritariamente pelas atividades humanas — percentual acima da média nacional. Para a professora Débora de Mello Sant’Ana, uma das coordenadoras da pesquisa e articuladora do NAPI Paraná Faz Ciência, os números revelam uma relação complexa entre quem acredita na ciência e que compreende os conceitos científicos.
“Falar de ciência, saúde e meio ambiente desperta muito interesse do paranaense. A maioria confia nos cientistas das universidades públicas. Por outro lado, ainda temos pontos que preocupam, como a interação com fake news e um baixo índice de frequência a espaços de divulgação científica”, afirmou em entrevista à CBN Maringá. O estudo aponta que 82% dos paranaenses dizem estar frequentemente expostos a fake news. Embora o dado indique que parte da população consegue identificar conteúdos falsos, a circulação de desinformação continua sendo um desafio.
Segundo Débora, a principal orientação é atenção à fonte da informação. “É preciso procurar instituições com trajetória consolidada, jornalismo sério e órgãos de pesquisa. Muitas vezes, uma pessoa sozinha numa rede social não tem condições de fazer a checagem necessária e acredita nesse conteúdo falso”, explica.
Compreensão seletiva
A pesquisa também mostra que 58% dos entrevistados consideram ciência e tecnologia uma área de interesse no consumo midiático, à frente de temas como esportes e religião. Educação (83,4%), medicina e saúde (80,6%) e meio ambiente (70,1%) aparecem entre os assuntos mais valorizados. Ainda assim, a aceitação de conceitos científicos não é homogênea. Para a coordenadora, fatores culturais e religiosos podem influenciar respostas como a rejeição à teoria da evolução. “Não identificamos um negacionismo amplo da ciência no estado. Mas há temas que dialogam com crenças pessoais e podem gerar respostas diferentes conforme o que a pessoa acredita. São características que ainda precisamos aprofundar”.
A temática das vacinas também foi analisada: 70,9% consideram os riscos inexistentes ou pequenos, enquanto 7,4% acreditam que os riscos são grandes. Entre os dados mais emblemáticos está o desejo por mais informação: 63% dos entrevistados afirmam que poderiam ser melhor informados sobre ciência, tecnologia e inovação se os conteúdos fossem explicados com mais detalhes pelos próprios cientistas. Para Débora, esse é um chamado direto à comunidade acadêmica. “Nós, cientistas, muitas vezes publicamos em revistas internacionais, com linguagem extremamente técnica e acesso restrito. Isso acaba tornando o conhecimento inacessível para a população. Precisamos investir mais na popularização da ciência. A ciência está no nosso dia a dia, na alimentação, na vestimenta, nas questões sociais. Compreender isso é exercer cidadania científica”, acredita a pesquisadora.
O levantamento também identificou variações entre as mesorregiões do Paraná. Regiões como Curitiba e Região Metropolitana, Norte, Norte Pioneiro e Noroeste apresentaram maior interesse por ciência. Já Sudoeste e Sudeste registraram índices um pouco menores, indicando a necessidade de estratégias regionais específicas de divulgação. Os dados devem subsidiar políticas públicas, orientar investimentos e fortalecer a divulgação científica no estado.
Para os pesquisadores, o diagnóstico é claro: há confiança e interesse, mas é preciso aproximar ainda mais a ciência do cotidiano da população paranaense, inclusive em polos educacionais como Maringá, que concentram universidades e produção científica reconhecida nacionalmente.