
O médico Osvaldo Alves era um idealista que andava descalço e pregava o desapego aos bens materiais. Na ditadura militar, Osvaldo foi preso e torturado.
Em 1984, o médico radicado em Mandaguari criou a Comunidade Social Cristã Beneficente. Até 2017, ano de sua morte, o médico se revezou na presidência da entidade com Tânia Gomes, amiga e discípula.
Quando o médico começou a receber indenização do Governo Federal, como compensação pela perseguição sofrida no regime militar, utilizou os recursos no projeto social: comprou uma chácara e reservou uma parte para as despesas da entidade.
Após a morte de Osvaldo, Tânia se afastou do dia a dia da entidade, mas permaneceu na presidência.
No ano passado, Tânia começou a receber cobranças de gastos em nome da Comunidade e descobriu que havia um desfalque financeiro que pode chegar a R$ 1 mi.
“Esse roubo foi descoberto ano passado, entre maio e junho de 2022, após uma reunião que nós fizemos com a diretoria e a contadora, que prestou esclarecimentos sobre o balanço da comunidade, os gastos, enfim. Meu marido estava presente depois que terminou a reunião, e em uma conversa informar, onde ela [a contadora] voltou a falar dos gastos, meu marido, que tem bastante experiência e foi durante muito tempo funcionário de banco, ele logo alertou que os gastos estavam muito altos e combinou com a contadora que na semana seguinte […] ele iria até o escritório para que eles pudessem verificar a contabilidade. E quando ele fez isso, foi possível perceber, imediatamente, que haviam notas fiscais falsificadas, clonadas, e cheques com pagamentos que não eram condizentes com as necessidades da comunidade.”
A entidade registrou queixa na polícia e o inquérito foi entregue ao Ministério Público.
O processo está sob sigilo da Justiça. Mas Tânia diz que a suspeita recai sobre duas ex-funcionárias da entidade.
“A delegacia está apurando e fazendo todas as investigações. Já foram ouvidas inúmeras pessoas, muitos empresários, pessoas do comércio, todas as pessoas que também foram enganadas por elas, algumas que se dispuseram a ir e levar o que elas tinham de notas fiscais, o que elas haviam comprado. De modo a comprovar que realmente foram enganadas. E há uma grande variedade de compras, ela fizeram algumas viagens que a gente conseguiu identificar, compras de roupas, roupas de marca, bolsas, enfim. Fizeram uma festa com os bens da comunidade do Dr. Osvaldo. A comunidade atende quase 150 crianças e adolescentes, ajuda suas famílias, dá suporte psicológico, distribui cestas básicas paras as que mais precisam, oferece aulas de karatê, literatura, canto, violão, balé…e nós realmente estamos lutando para que esse serviço não seja fechado e que nós possamos continuar trabalhando a despeito dessa ação vergonhosa.”
A CBN Maringá conseguiu contato com os advogados que representam uma das ex-funcionárias.
Em nota, a defesa informou que a investigada é inocente e que a inocência será demonstrada nos autos investigatórios.
A ex-funcionária, continua a defesa, não exercia cargo de gestão e cabia à diretoria da entidade administrar e fiscalizar, sendo impossível movimentar valores sem a percepção dos gestores.
Ainda de acordo com a defesa, a investigada “nunca teve acesso a quantias além do devido pelos trabalhos prestados”.
Confira a nota na íntegra:
“Ante as acusações proferidas contra a investigada, informa a defesa que foi solicitado acesso junto ao inquérito policial, o qual ainda não fora disponibilizado.
Expõe a defesa que a inocência da investigada é fato, e que isso será
demonstrado junto aos autos investigatórios.A investigada não possuía cargo de gestão junto a entidade, sendo importante destacar que a referida comunidade possui sua gestão através da presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro e um conselho fiscal, os quais, possuem o dever de administrar e fiscalizar a entidade, sendo impossível a movimentação de valores sem a percepção dos mesmos.
A investigada nunca teve acesso a quantias além do devido pelos trabalhos prestados.
No momento, inexistem maiores informações a serem prestadas, tendo em vista o sigilo atribuído à investigação, prezando a defesa para o melhor deslinde da mesma.
No mais, a investigada fica à disposição da justiça para prestar os
esclarecimentos necessários.Por fim, a defesa repudia os atos caluniosos que estão sendo desferidos em desfavor da investigada e espera que no findar da investigação sua inocência fique demonstrada e que os verdadeiros culpados sejam apontados”.
A CBN não conseguiu contato com a defesa da outra ex-funcionária investigada.
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