
Um caso de possível estupro de vulnerável contra duas meninas no bairro Conjunto Guarani está gerando indignação em Umuarama. A princípio, um homem de 52 anos, tio do pai das vítimas, teria praticado abusos sexuais e psicológicos reiterados contra duas sobrinhas que atualmente têm 10 e 11 anos. Os relatos indicam que a esposa do abusador, ou seja, a tia, sabia dos fatos.
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OBemdito conversou com a madrasta das vítimas, que contou os detalhes sobre o caso. Além disso, a equipe de reportagem entrou em contato com a Delegacia da Mulher, que é responsável pela investigação.
Para preservar os envolvidos, não serão citados nomes na matéria. Cabe ressaltar que, como o caso segue em investigação e não há uma denúncia formal junto à Justiça contra o homem, trata-se ainda de um suposto crime de estupro e ele se encontra na posição de suspeito. Ressalta-se ainda que, apesar de o indivíduo ser tio do pai das crianças, ele é tratado pelos envolvidos como se fosse tio delas. Por isso, a reportagem se referirá a ele como ‘tio’.
Os fatos que envolvem os supostos estupros tiveram início no ano de 2019, quando a tia passou a ter a guarda das três irmãs (além das meninas de 10 e 11 anos, há uma criança mais nova de 7 anos que, a princípio, não foi vítima do abusador). Na ocasião, o pai delas estava cumprindo pena na Penitenciária Estadual de Cruzeiro do Oeste (Peco).
A mãe, por outro lado, estava com a guarda das crianças, mas enfrentava problemas com alcoolismo e uso de drogas. Após as meninas serem encontradas em situação de abandono e crítica junto à mãe, houve uma solicitação formal ao pai para que autorizasse a transmissão da guarda para sua tia.
A mulher já residia no bairro Guarani com seu esposo e um filho. O casal acolheu as crianças e nunca houve desconfiança da índole de ambos. Apenas recentemente tudo veio à tona.
A madrasta contou a OBemdito que tem um relacionamento com o pai das meninas há cerca de 3 anos. Eles começaram a se relacionar logo após ele terminar de cumprir sua pena. E, logo após a saída da Peco, o companheiro procurou um advogado para requerer a guarda das filhas. Contudo, a orientação era para que tivesse uma residência fixa e emprego registrado primeiramente.
Por fim, o pai acabou cedendo aos apelos da tia, que a todo momento pedia para que ele não tirasse as crianças da guarda dela. A tia afirmava que as tinha como filhas e que as meninas cresceram com sua família. Dessa forma, as três crianças seguiram sob guarda da tia, mas o pai e a madrasta as buscavam nos fins de semana.
Tio demonstrava ciúme excessivo
Há algum tempo, a madrasta começou a notar um comportamento do casal de tios que a deixou incomodada. Ambos começaram a cobrar a ‘devolução’ as meninas quando a noite de domingo chegava. Inclusive, de acordo com a madrasta, eles eram bastante insistentes.
Além disso, quando todos estavam juntos – por exemplo, em churrascos familiares – o tio demonstrava ciúme excessivo das crianças. “Ele não deixava elas quase nem chegarem perto da gente, mas imaginamos que seria apenas cuidado”, disse a madrasta.
Ela explicou que o acordo era de a tia receber um valor para se dedicar aos cuidados com as crianças. Porém, a senhora trabalhava fora e quem levava as meninas para a escola e desempenhava outras atividades era o tio. Apesar de trabalhar fora, ele mantinha bastante dedicação às garotas.
O que o suposto cuidado mascarava
No último dia 6 de fevereiro uma grande reviravolta aconteceu. A madrasta conta que ela e o companheiro iriam fazer algumas diárias extras no fim de semana e, por isso, não iriam buscar as meninas para ficar com eles.
A garota mais velha enviou uma mensagem perguntando se elas ficariam com o pai e a madrasta, como era de costume. No entanto, a madrasta explicou a situação e disse que eles tentariam buscá-las pelo menos no domingo.
A menina de 11 anos então disse que queria contar uma coisa. Em seguida, ela escreveu que o tio estava abusando delas. Entretanto, rapidamente apagou a mensagem. Mesmo assim, a madrasta viu e ficou em choque. Sua primeira atitude foi questionar sobre o que tinha lido e a menina confirmou. A mulher então falou com o marido e eles rapidamente decidiram buscar as crianças.
Eles pediram que os tios arrumassem as coisas delas, mas não deixaram transparecer nada diferente. Depois, a menina disse que o tio a ameaçou, dizendo que iria castigá-la caso o pai e a madrasta soubessem de algo. A madrasta acredita que ele possa ter desconfiado de algo, pela mudança repentina do casal (que não iria ficar com as meninas e mudou de ideia).
Pouco depois o casal buscou as três irmãs e, já em casa, sentaram para conversar. As meninas mais velhas então começaram a contar tudo o que estavam passando, desde as ameaças até os abusos sexuais.
O próximo passo, ainda na sexta-feira, foi ir até Delegacia de Polícia Civil para fazer o boletim de ocorrência. O delegado registrou a denúncia e orientou a família a procurar a Delegacia da Mulher na segunda-feira (9) para atendimento especializado. Também houve orientação para a realização do exame de corpo de delito.
Contudo, no domingo (8), como de costume, os tios começaram a perguntar quando o pai das meninas as levaria para a casa deles. “Para ganharmos tempo, ele deu uma desculpa de que a gente estava fora da cidade e que chegaria apenas na segunda. Daí, na segunda fomos na Delegacia da Mulher para fazer o boletim e soubemos que o tio esteve na nossa casa. Nossos vizinhos que viram e nos avisaram. Inclusive a tia foi uma vez junto, mas ele foi mais de uma vez lá”, disse a madrasta.
Com medo de que algo acontecesse com as meninas ou de que o pai delas reagisse contra alguma atitude do tio, a família decidiu sair da cidade. Eles organizaram algumas poucas coisas e foram para um hotel em um município da região. Enquanto isso, os tios continuaram ligando e falaram que procurariam a Justiça para pegar as crianças de volta.
A madrasta comentou que as ligações e mensagens dos tios só cessaram na quarta-feira (11). Foi neste mesmo dia que a equipe da Delegacia da Mulher conseguiu notificar o suspeito de que a Justiça havia expedido uma medida protetiva de urgência impedindo que o homem se aproxime das meninas. No entanto, a família desconhecia essa ordem judicial e OBemdito repassou essa informação para a madrasta durante conversa na última quinta-feira (18).
De acordo com a madrasta, pessoas teriam visto o tio circulando na mesma cidade em que estavam escondidos e ele fez ameaças de tomar as garotas. Por isso, o casal optou por fazer um novo boletim de ocorrência por ameaça e perseguição.
Eles retornaram a Umuarama no domingo (22) e o pai entrou em contato com a tia pedindo os pertences das filhas. Ela teria entregado apenas um pouco das coisas e pediu desculpas ao sobrinho, dizendo que o marido estava havia ‘sumido’ por ter recebido ameaças.
Porém, quando a família saiu do bairro Guarani, viu o homem dentro de um carro estacionado, a cerca de 4 quadras da sua residência. O pai das crianças foi até ele, que disse não ter feito nada. Os dois discutiram e o tio saiu com o carro, não sendo mais visto depois.
De acordo com a madrasta, o pai perguntou a elas se a tia sabia da situação e elas afirmaram que sim. Questionada pelo sobrinho, a mulher disse que tinha tentado resolver a situação há alguns anos. Ela alegou que teria “aberto um processo” contra o companheiro [a madrasta não soube explicar que processo seria esse]. Contudo, como não houve uma solução através desse “processo”, resolveu dar uma segunda chance para ele e seguiram juntos.
Quais são os relatos das meninas
Na última quarta-feira (18) o pai e a madrasta começaram a conversar de forma mais aprofundada com as meninas, mas ainda assim, com cautela para não pressionar e provocar mais traumas. O objetivo é saber quais são os abusos que elas efetivamente sofreram.
Segundo as vítimas, o tio frequentemente passava a mão em suas partes íntimas. Além disso, quando elas iam tomar banho, ele obrigava as meninas a fazerem fotos e vídeos. Ele também falava para que elas fossem ao banheiro para fazer fotos dos “peitinhos”, como ele se refere, e enviassem por WhatsApp. E sempre, imediatamente, o abusador orientava as vítimas a apagarem todas as imagens e mensagens.
Para “convencer” as crianças a fazerem o que queria, o tio usava ameaças. Ele dizia que iria machucar a menina mais nova (de 7 anos de idade) caso as outras não obedecessem. Ou, ainda, quando estava conversando com garota de 11 anos, dizia que machucaria a irmã de 10 anos e vice-versa.
No entanto, os abusos não se limitavam a isso. Ao pai e à madrasta, a menina mais velha afirmou que o tio a abusou sexualmente (conjunção carnal) pela primeira vez dois dias após seu aniversário de 9 anos. A menina de 10 anos não se recorda quando começou a sofreu o mesmo tipo de violência, mas é possível que tenha sido na mesma época.
Elas relataram que os abusos sexuais, com penetração, aconteceram inúmeras vezes. O suspeito aproveitava os momentos em que a esposa não estava em casa para estuprar as meninas. Mas ele também consumava o ato nas madrugadas. Conforme a madrasta, o homem dormia no sofá da sala – a criança mais nova dormia com a tia no quarto dela e as irmãs mais velhas tinham um quarto próprio.
Por isso, durante a madrugada, ele seguia até o quarto das crianças a abusava de uma ou de outra, enquanto a irmã presenciava. As meninas contaram que os abusos aconteceram por vários anos, seja com as duas juntas ou separadamente. E, sempre utilizando ameaças, o homem era categórico ao dizer para as meninas não contarem nada para ninguém, pois, caso contrário, machucaria elas.
Apesar das dificuldades, o pai e a madrasta estão buscando viabilizar auxílio profissional para as crianças. “Elas estão com a cabeça muito mexida e nós não estamos pressionando. É muita dor. É tudo muito pesado para elas”, disse a madrasta.
Ela acrescentou que a situação também é muito pesada para eles. “Voltamos para casa no domingo, mas está tudo uma loucura e estamos até meio perdidos. Temos medo de deixar as meninas irem para a escola. Meu marido tem emprego registrado, mas não consegue ir, porque temos medo que o tio apareça por aqui. Estamos até nos revezando para dormir, pois não conseguimos descuidar por um momento”, finalizou.
Polícia Civil investiga caso
OBemdito manteve contato com a Polícia Civil do Paraná (PCPR), que investiga o caso através da Delegacia da Mulher de Umuarama. A unidade emitiu uma nota, onde explica o andamento da investigação e presta esclarecimentos referentes ao suposto crime sexual contra vítimas menores.
De acordo com a PCPR, a Delegacia da Mulher recebeu a denúncia no dia 9 de fevereiro. Em seguida formalizou o pedido de medidas protetivas de urgência e, no mesmo dia, o Poder Judiciário concedeu as medidas.
A Justiça determinou ao suposto autor a proibição de aproximação das vítimas, mantendo distância mínima de 100 metros; e a proibição de contato por qualquer meio de comunicação.
Conforme a Delegacia da Mulher, a equipe conseguiu intimar e cientificar o suposto autor sobre essas obrigações no dia 11 de fevereiro. “A Polícia Civil ressalta que eventual descumprimento das medidas protetivas poderá culminar na decretação da prisão preventiva do agressor”.
Sobre a custódia do investigado, a PCPR ressalta que o ordenamento jurídico brasileiro permite a prisão em duas hipóteses principais: flagrante delito ou por força de mandado de prisão judicial.
“No momento do registro da ocorrência, não havia situação de flagrante que permitisse a detenção imediata. A Polícia Civil não possui autonomia para prender indivíduos fora do flagrante sem uma ordem judicial específica”, informa a nota.
Continuidade das investigações
A nota da Delegacia da Mulher segue informando que os fatos estão sendo apurados com o rigor necessário.
“O procedimento inclui:
1 – Escuta Especializada: As vítimas serão ouvidas por profissionais habilitados para lidar com crianças e adolescentes, garantindo a preservação de sua integridade psicológica.
2 – Oitiva de Testemunhas: Testemunhas e declarantes já foram identificados no boletim de ocorrência e serão ouvidos para a completa elucidação do caso”.
Quanto ao relato de que o investigado estaria rondando a residência, a Delegacia da Mulher de Umuarama informa que “a família procurou a Delegacia de Icaraíma para tal notificação. Não tendo comunicado este fato diretamente a esta unidade especializada, que é a responsável oficial pelo caso”, diz a Delegacia da Mulher.
A nota também explica que: “Diante disso, a Delegacia da Mulher intimou o genitor (noticiante) para prestar esclarecimentos formais sobre essas novas ocorrências. Em depoimento, o genitor informou que não houve ameaças após a cientificação da medida protetiva (quarta-feira, dia 11/02/2026). Ainda, o pai das crianças ressaltou que o suposto autor não esteve nas redondezas da residência após ter tomado ciência da medida protetiva (a partir do dia 11/02/2026). Portanto, o genitor não noticiou episódios de descumprimento da medida protetiva de urgência”.
Por fim, a PCPR “reitera seu compromisso com a proteção das crianças e adolescentes e permanece à disposição da família para qualquer comunicação direta e urgente”.
As informações são do O Bemdito.