Taxas de juros longas sobem com expectativa para Selic e proposta de tarifa extra dos EUA
Após subir em bloco com a reprecificação na trajetória esperada para a Selic na segunda, a curva de juros futuros ganhou inclinação nesta terça-feira, 2. Para profissionais de renda fixa e economistas ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o movimento ainda refletiu o aumento das apostas em uma interrupção do ciclo de calibração da Selic após a reunião deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom), mas não somente. Os contratos mais distantes também incorporaram prêmios maiores, devido ao risco trazido pela ameaça dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% ao Brasil.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 14,175% no ajuste anterior a 14,16%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,015%, de 13,98% no ajuste de segunda. O DI para janeiro de 2031 subiu de 13,96% no ajuste a 14,035%.
“Acho que a inclinação reflete um pouco da digestão de ganhar força o cenário de o Banco Central parar mesmo os cortes em agosto”, afirmou um gestor de renda fixa de uma das maiores assets do mercado, sob anonimato. Isso porque, com apenas mais uma redução de 0,25 ponto do juro básico no radar, há um limite para que as taxas curtas avancem, o que acaba resultando em abertura maior dos juros longos em momentos de estresse. Pela precificação da curva futura, a Selic vai encerrar 2026 em 14,25%.
Na mesma linha, Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, avalia que
a dinâmica observada no mercado de juros refletiu a continuidade das movimentações registradas no pregão anterior. Em sua visão, as taxas ainda foram influenciadas pelas revisões para cima das projeções para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e para a Selic realizadas por importantes instituições financeiras.
“Esse cenário tem levado a uma recalibração de posicionamentos, com redução da expectativa de retorno nas estratégias aplicadas em juros”, disse. Segundo Lima, os últimos dados de atividade econômica vieram mais fortes do que o previsto, ao mesmo tempo em que a inflação segue apresentando uma composição menos favorável, marcada pela deterioração dos núcleos e dos preços de serviços.
“Além disso, mesmo que de forma gradual, as expectativas de inflação continuam se afastando da meta de 3%, reforçando a percepção de um ambiente mais desafiador para a condução da política monetária”, ressaltou o profissional.
Em meio a um pano de fundo já adverso para o mercado local de renda fixa, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou nesta madrugada uma proposta para aplicar tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 15 de julho, com exceções, no âmbito de investigação da Seção 301.
Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal aponta que a notícia não é exatamente uma novidade, mas não é positiva, uma vez que as primeiras reações do governo brasileiro à medida foram agressivas. “O clima com essa notícia não ficou muito bom”, afirmou.
A nova tarifa poderia, ainda, diminuir a competitividade do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, o favorito do mercado, uma vez que uma ala do PT já começou a relacionar a proposição da sobretaxa ao encontro de Flávio com o presidente Donald Trump, acrescenta Leal. “Isso aumenta a percepção de risco, devido à possibilidade de o governo usar a reciprocidade, por exemplo. Em um ano eleitoral, essas bravatas ficam mais prováveis, sendo que o Brasil é o elo fraco da discussão”, comentou.
