
Em 18 de março de 2020, a Secretaria de Saúde de Maringá confirmou o primeiro caso de covid-19 na cidade. A apreensão que já rondava o país e já fazia vítimas pelo mundo, enfim, havia chegado à Cidade Canção. No mesmo dia, a prefeitura decretou situação de emergência em saúde pública e determinou um mês de isolamento quase total. Este foi o primeiro de uma série de mais de 90 decretos publicados só nos dois primeiros anos.
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Seis anos depois de tudo começar, o Portal GMC Online relembra alguns dos principais fatos da pandemia em Maringá. Um período que deixou marcas nas famílias, trouxe desafios à administração pública e novos rumos para empresas e profissionais.
Mulher que chegou da Espanha foi o primeiro caso confirmado de covid-19 em Maringá
O novo coronavírus foi confirmado pela primeira vez em Maringá em uma mulher que, na época, tinha 46 anos. Residente na Espanha, que já vivia uma crise epidemiológica, ela desembarcou na cidade no dia 11 de março e, no dia seguinte, procurou atendimento médico. Os sintomas se agravaram no dia 17, quando ela precisou ser internada.
Mesmo tendo artrite reumatoide, considerada uma comorbidade, o caso não evoluiu. O quadro foi considerado leve, e ela se recuperou em isolamento domiciliar. No entanto, o pai dela, de 84 anos, foi a segunda pessoa a perder a vida para a covid-19 em Maringá. Ele tinha comorbidades e apresentou os primeiros sintomas em 15 de março. O falecimento ocorreu no dia 26 daquele mês, em um hospital da rede privada.
Primeiro óbito em Maringá foi de uma cuidadora de idosos e marcou o início da pandemia no Estado
A morte de Rosângela Machado, aos 54 anos, marcou de forma definitiva o início da pandemia de covid-19 em Maringá e no Paraná. Registrado em 25 de março de 2020, o caso foi o primeiro óbito causado pela doença no Estado e expôs, ainda nos primeiros dias da crise sanitária, a gravidade de um vírus até então pouco compreendido.
Para o marido, José Francisco Oliveira da Silva, a perda representou não apenas o luto pessoal, mas também o choque diante de uma realidade que mudaria a vida de milhares de famílias. Ele também foi contaminado, mas não apresentou sintomas graves.
Segundo ele, o casal havia retornado poucos dias antes de uma viagem de férias a João Pessoa, na Paraíba, onde comemoraram o aniversário dele no início de março.
Os primeiros sintomas de Rosângela surgiram em 15 de março e, inicialmente, foram tratados como um quadro de dengue. Sem melhora, ela buscou atendimento novamente. Só no dia 20, com o agravamento do estado de saúde, foi internada. A partir daí, o marido não conseguiu mais vê-la. No dia seguinte, Rosângela sofreu uma parada cardíaca, entrou em coma e, cinco dias depois, morreu.
José Francisco recorda que os últimos contatos foram por telefone, já com a esposa apresentando grande dificuldade para respirar. “Era como se estivesse se afogando”, descreve. O sofrimento rápido e intenso evidenciou a agressividade da doença, que, naquele momento, ainda não tinha protocolos consolidados de tratamento.
Além de ser o primeiro óbito por covid-19 no Paraná, o caso também marcou um período de despedidas sem rituais tradicionais. Rosângela foi uma das primeiras vítimas a ser cremada, seguindo protocolos sanitários, o que aprofundou o impacto emocional da perda. O casal estava junto havia 38 anos, e ela era considerada a principal referência da família.
Número de mortes por covid-19 em Maringá passa de 1.800
Até o fim do ano passado, foram registrados 172.129 casos de infeccção por coronavírus em Maringá. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde e consideram apenas os residentes da cidade. Já as mortes passam de 1.800, conforme tabela abaixo cedida pela prefeitura:
| Ano | Distribuição de casos confirmados | Distribuição dos óbitos |
| 2020 | 21.878 | 311 |
| 2021 | 45.267 | 1.252 |
| 2022 | 88.285 | 205 |
| 2023 | 8.115 | 24 |
| 2024 | 5.830 | 17 |
| 2025 | 2.754 | 15 |
| Total | 172.129 | 1.824 |
Fonte: e-SUSNotifica, SIVEP e sistema de informações sobre mortalidade (SIM/DATASUS).
Prefeito da época relata solidão e medo, mas se orgulha do trabalho realizado: ‘Nenhum maringaense ficou desamparado’, diz
Conduzir a cidade em um cenário de pandemia foi mais do que um desafio na administração pública; foi um desafio pessoal para o então prefeito Ulisses Maia. Segundo ele, a maior dificuldade não foi a logística, embora reconheça que montar leitos de UTI do zero tenha sido uma corrida contra o tempo. Para ele, o desafio real foi lidar com o próprio medo e com o de toda a cidade.
“Eu me lembro do silêncio ensurdecedor da Avenida Brasil vazia. Aquilo doía. Maringá é uma cidade viva, pulsante, e vê-la pausada era contra tudo o que eu acreditava como gestor”, diz.
Ao olhar para trás, ele descreve o período de pandemia como uma fase de solidão. “Por mais que eu estivesse cercado de técnicos e médicos competentes, a caneta que assinava o decreto era a minha. E eu sabia que cada linha escrita ali mudaria a vida de alguém. Hoje, durmo com a consciência limpa. A gente montou uma estrutura que não deixou nenhum maringaense desamparado. Ninguém morreu na fila, ninguém ficou sem oxigênio, sem máscara ou sem UTI, e isso é o que realmente importa”, afirma.
Vacinação começou por grupos prioritários e, em junho de 2021, chegou ao público geral
Em 19 de janeiro de 2021, as primeiras doses de vacina finalmente chegaram a Maringá, trazendo alívio e esperança para a população. A técnica de enfermagem Ana Paula de Oliveira Machado foi a primeira pessoa imunizada na cidade. A partir daí, profissionais de saúde tiveram prioridade para receber as doses, seguidos de outros grupos prioritários.
A imunização dos grupos prioritários seguiu até meados de junho, quando o público geral passou a ser contemplado. A estratégia adotada foi começar pelos mais velhos e reduzir a idade em dois anos por dia.
| Ano | Doses aplicadas |
| 2021 | 811.373 – Min. da Saúde |
| 2022 | 364.534 – Min. da Saúde |
| 2023 | 96.819 – Sistema Gestor Saúde PR |
| 2024 | 33.154 – Sistema Gestor Saúde PR |
| 2025 | 29.631 – Sistema Gestor Saúde PR |
| 2026 (jan/fev) | 1.056 – Sistema Gestor Saúde PR |
Fonte: Secretaria de Saúde de Maringá
Segundo a Secretaria de Saúde de Maringá, desde 2024 a vacina contra a covid-19 passou a fazer parte do Calendário de Vacinação de Rotina para crianças de 6 meses a menores de 5 anos; em 2025, foi ampliada também para o calendário de gestantes e idosos (60 anos ou mais).
Ainda segundo a pasta, a distribuição das doses atende todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS), mas a procura atualmente varia bastante ao longo dos meses, muitas vezes influenciada pelo cenário epidemiológico ou pelo período do ano (ex.: inverno e/ou férias).
Pandemia impulsionou mudança de rumo de casal empreendedor de Maringá
Em 2017, a maringaense Aline Vieira e o marido decidiram tirar do papel o sonho de empreender. Naquele ano, o casal inaugurou a Gelateria Artesanal Flor do Ingá, na Avenida São Paulo, em frente ao Parque do Ingá. Eles começaram vendendo gelatos industrializados, mas os desafios que surgiram por causa da pandemia, em 2020 e 2021, os fizeram repensar os planos e mudar de rumo.
“Já tínhamos vontade de produzir nossos próprios gelatos, mas, naquele momento, o desejo apenas ventilava em nossas cabeças. Porém, as dificuldades durante a pandemia foram o ‘start’ para nossa mudança de rumo”, lembra.
Aline passou a se dedicar a cursos nacionais e internacionais para dar início à produção artesanal, enquanto o marido pesquisava os melhores maquinários para a gelateria. Juntos, eles criaram mais de 20 receitas próprias e, em 2024, alcançaram um marco: foram classificados entre os 15 melhores no Gelato Festival World Masters Brasil e conquistaram o título de melhor sorvete do país em 2025.
Agora, eles se preparam para representar o Brasil na final mundial, que acontece entre os dias 24 e 26 de março, em Las Vegas, nos Estados Unidos. “Foi aquele cenário complexo da pandemia que nos impulsionou, com toda certeza, e hoje, com o reconhecimento que temos tido, sentimos que estamos no caminho certo”, comemora.
Com colaboração de Brenda Caramaschi.