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COLUNISTAS

Caminhos da mobilidade urbana

Publicado por Engenharia Urbana - Diego Sanches, 17:00 - 29 de Abril de 2019

O conceito de mobilidade, como intuitivamente é comum concluir, remete – na origem da palavra – à “característica do que é móvel, que pode se mover”. Logo, a mobilidade urbana nos faz pensar no movimento das coisas e seres em um ambiente específico, o ambiente das cidades.



O processo de desenvolvimento econômico e social das cidades passa pelo oferecimento de condições adequadas de mobilidade. Assim, sua presença ou ausência trará consequências no desenvolvimento urbano.



Não nos esqueçamos, porém, da população rural. Essa, como produtora e consumidora, estabelece deslocamentos urbanos, também usufruindo das condições de mobilidade proporcionadas.



Ao mencionarmos produção e consumo, então, voltamos nossa atenção à mercadoria. Ora, produtos precisam ser colhidos, processados, fabricados, entregues, instalados, vendidos, comprados, enfim, precisam se deslocar, e muito, visto que cada uma das atividades mencionadas pode ocorrer em lugares diferentes.



Assim, entendemos a colocação alguns parágrafos acima sobre a importância das condições de mobilidade. Todos nós – nas atividades cotidianas – nos locomovemos, assim como as mercadorias.


Por se tratar de uma discussão necessária, há alguns anos foi elaborada a Política Nacional de Mobilidade Urbana. Suas diretrizes e obrigações, inclusive, vêm sendo debatidas por uma subcomissão no Senado. Mas quais são essas diretrizes? Quais são seus princípios, seus objetivos?



Em sua colocação mais ampla e contundente do ponto de vista cultural, a Política determina que haja a priorização do transporte não motorizado sobre o motorizado e do transporte coletivo sobre o individual.
Infelizmente, os números nos mostram que não estamos nem perto da excelência. Alguns meses atrás, foi noticiado pelo Portal GMC Online que Maringá tem quase 4 carros para cada 5 habitantes! E o número só cresce.



Como facilmente constatamos em um passeio na hora do rush, o automóvel ocupa espaços massivos, nos dando a impressão de escassez do espaço urbano. Em uma relação de causa e consequência mútua, o crescimento horizontal das cidades aumentou a distância dos deslocamentos, facilitados pelo automóvel.


Assim, se fez conveniente seu uso por grande parte da população, diminuindo espaços disponíveis e cada vez mais aumentando o tempo de deslocamento, na medida em que as vias não conseguem suportar a quantidade exagerada de carros. Aliado ao fato da poluição ambiental pela queima de combustíveis fósseis (um fortíssimo mercado) é inviável a continuidade de políticas que incentivem o aumento da frota veicular.

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Congestionamento: um problema nem tão moderno assim.

O problema dos congestionamentos gera então o interesse da população pelas motos. Seu custo significativamente mais baixo é atraente e, consequentemente, sua frota cresce. Infelizmente, é necessário ressaltar, o grande número de acidentes envolvendo motociclistas que, pelas condições de segurança muito inferiores, estão expostos a graves lesões.



Já que começamos citando o menos prioritário, vamos seguir a ordem inversa. Com a “medalha de prata” temos o transporte motorizado coletivo. O mais popular dos meios coletivos é o ônibus. Claramente, ao transportar em um único veículo quantidades estupidamente maiores que o transporte individual, tem-se economia de espaço e diminuição de índices de poluição ambiental como causas imediatas. Há custos de implantação da infraestrutura, recompensada com a geração de empregos fixos.
Entretanto, a ação não para na instalação, a qualidade depende da manutenção e desenvolvimento do sistema.



Chegamos ao primeiro lugar: modo individual não motorizado. Ou seja, a pé ou de bicicleta. De alguma forma todos nós praticamos esse modo, seja no trajeto de casa até o ponto de ônibus, do estacionamento até as lojas, ou do bicicletário ao terminal.




“Ah, mas eu não vou atravessar a cidade inteira a pé não!”


 



 


Te entendo, está certo. Num cenário ideal, a integração entre os modos é o caminho. Porém, para isso, é necessária infraestrutura adequada e ainda não a temos.



Mas chega de falar cobre os problemas. Falemos de soluções.



Primeiramente, infraestrutura. De quais elementos precisa o pedestre? Calçadas e segurança. Simples, mas nem tanto. Como modo democrático que é, o deslocamento a pé não deve pensar só no cidadão padrão, pois pessoas com deficiências ou baixa mobilidade precisam de condições adequadas: calçadas com baixa inclinação, rampas, sinalização tátil e, principalmente, continuidade. Uma pitada de bem-estar também é muito bem-vinda: arborização, decoração, até o planejamento da fiação elétrica conta. Segurança, por sua vez, é bem mais ampla.



Falando em segurança, foi nesse contexto, que moradores de Delft (Holanda) resolveram transformar suas ruas em “jardins” no final dos anos 60. Automóveis agora concorriam com bancos, mesas e áreas de convivência. Assim, surge a base do conceito de Traffic Calming.



Traffic Calming, porém, é um conceito muito amplo: várias medidas que visam aumentar a segurança pela diminuição da quantidade e velocidade dos automóveis podem ser incluídas nesse conceito.
Apesar de parecer um conceito distante, algumas destas medidas são presentes em Maringá. Na Zona 2, nos cruzamentos de vias locais, há mudanças de geometria da via que visam reduzir a velocidade dos automóveis. Além disso, é comum encontrar faixas elevadas para pedestres.

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Faixa elevada, medida já consolidada em Maringá.

Para bicicletas, o foco é também na infraestrutura. As ciclovias segregadas dos outros meios são o primeiro passo. Sua implantação deve ser feita de acordo com estudos de deslocamentos da população e sua sinalização é imprescindível. É interessante também que não haja descontinuidade.



Atualmente, é comum vermos pessoas usando as ciclovias como calçadas. Não está certo, mas é compreensível. Com calçadas e sinalização adequadas, esse problema seria, no mínimo, (com o perdão da redundância) minimizado.



Em várias cidades do país, ja existem experiências positivas quanto promissoras: a bicicleta compartilhada. Tem um funcionamento simples, através de aplicativo próprio e sistema de créditos o usuário pode “alugar” uma bicicleta em uma estação e devolvê-la em outra, tudo feito de modo digital.


As estações estão distribuídas pela cidade em pontos de interesse e o sistema de créditos pode ser feito por mensalidades ou até anuidade. Útil para urgências, turismo, transporte cotidiano ou mesmo lazer. A experiência pode ser útil inclusive em cidades de pequeno e médio porte.



Por fim, como vimos, a integração dos modos é essencial e seu incentivo passa diretamente pelo Poder Público. Primeiramente com estudos de deslocamentos e de viabilidade, depois com a implantação, então com o incentivo através de propagandas e, por fim, com a manutenção do espaço e da segurança. Caminhos longos, mas já que estamos falando de mobilidade...

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