A Liderança que a Ficção Forma (e que a Inteligência Artificial não Substitui)

Recentemente, a Exame publicou uma reportagem interessante sobre Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, que revelou um hábito pouco comum entre altos executivos: ele lê ficção para aprender a liderar. E, por incrível que pareça, essa prática diz muito sobre o momento que estamos vivendo, especialmente agora, quando a inteligência artificial promete automatizar quase tudo, menos aquilo que nos torna humanos.
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Sarandos afirma que sua grande escola de liderança não foram manuais corporativos, e sim clássicos da literatura. Seu livro favorito é Tufão, de Joseph Conrad, a história de um capitão que atravessa uma tempestade brutal, perdendo o controle da embarcação enquanto precisa manter a tripulação unida. Ele diz que cada leitura oferece uma nova descoberta, porque a ficção revela nuances emocionais impossíveis de encontrar em ferramentas de gestão.
E esse é o ponto: liderar não é um processo técnico, é um processo humano.
A ficção nos confronta com dilemas, ambivalências, falhas, medos e decisões difíceis. Ela simula o que a vida corporativa faz todos os dias, mas sem colocar o time, o faturamento ou a reputação em risco.
No mundo corporativo acelerado, guiado por dashboards e algoritmos, existe um perigo silencioso: líderes que sabem toda a teoria, mas desconhecem a natureza humana.
Por que líderes deveriam ler ficção na era da IA?
Porque a IA entrega velocidade, precisão e volume, mas não entrega profundidade emocional.
E a liderança vive exatamente nesse território nebuloso:
- Ambiguidade moral;
- Leitura de contexto;
- Tomada de decisão com informação incompleta;
- Gestão de crises;
- Entendimento da alma humana;
São habilidades que o ChatGPT não copia. São habilidades que nascem do atrito entre pessoas, da sensibilidade, da ética e do julgamento. E a ficção é um dos poucos lugares onde essas habilidades são testadas sem consequências reais.
Além disso, ela areja o pensamento.
A mente de um líder sobrecarregado por métricas, reuniões e telas precisa de pausa, e a ficção oferece descanso mental e, simultaneamente, ampliação de repertório. Não é só cultura: é recuperação cognitiva.
E, por fim, ficção é combustível para o pensamento crítico. A leitura de diferentes narrativas, perspectivas e dilemas humaniza a tomada de decisão e dá densidade às análises, algo essencial em uma cultura corporativa que se acostumou a respostas rápidas demais.
Obras de Ficção que te ajudam e Formam Líderes (e por quê)
- Tufão — Joseph Conrad
A história de um capitão que atravessa uma tempestade quase intransponível.
Por que importa: ensina sobre calma sob pressão, decisões irreversíveis e liderança em crise, qualidades indispensáveis num mercado volátil. - O Senhor das Moscas — William Golding
Um grupo de meninos isolados em uma ilha tenta criar sua própria sociedade, e tudo dá errado.
Por que importa: é um laboratório sobre poder, cultura, conflitos e liderança disfuncional. Mostra o que acontece quando não existe propósito claro nem valores compartilhados. - 1984 — George Orwell
Uma sociedade dominada pelo medo, vigilância e manipulação da verdade.
Por que importa: alerta sobre os riscos da liderança autoritária, da comunicação distorcida e da perda da liberdade psicológica dentro das organizações. - A Revolução dos Bichos — George Orwell
Animais assumem uma fazenda e tentam criar um novo modelo de sociedade, mas o poder corrompe tudo.
Por que importa: demonstra como discursos mal formulados ou manipulados podem destruir culturas organizacionais. - O Sol é para Todos — Harper Lee
A história de um advogado que defende um homem injustamente acusado, sob forte pressão social.
Por que importa: desenvolve empatia, coragem moral e senso de justiça, pilares de um líder ético. - Os Irmãos Karamázov — Fiódor Dostoiévski
Uma família marcada por conflitos morais, paixão, culpa e escolhas difíceis.
Por que importa: aprofunda o entendimento de dilemas internos, algo fundamental para líderes que precisam decidir sem certezas. - O Conde de Monte Cristo — Alexandre Dumas
Um homem injustamente preso reconstrói sua vida e executa um plano de anos para fazer justiça.
Por que importa: é praticamente um tratado sobre estratégia, visão de longo prazo, resiliência e autocontrole. - Duna — Frank Herbert
Uma saga política, ambiental e espiritual que explora poder, estratégia e adaptação.
Por que importa: ensina sobre análise de cenários, governança, responsabilidade e tomada de decisão sob pressão geopolítica. - Moby Dick — Herman Melville
A perseguição obsessiva de um capitão por uma baleia gigantesca.
Por que importa: mostra o perigo da liderança guiada por ego, orgulho e obsessão — um alerta para gestores que confundem ambição com imprudência. - A Montanha Mágica — Thomas Mann
Um jovem vai visitar um sanatório e acaba permanecendo por anos, mergulhando em debates filosóficos, sociais e existenciais.
Por que importa: ensina sobre profundidade intelectual, reflexão crítica e a capacidade de enxergar além do imediato, algo essencial para quem lidera no longo prazo.
O que tudo isso significa para o futuro da liderança?
Significa que, na era da IA, o diferencial competitivo não está em quem responde mais rápido, isso a tecnologia faz.
- Está em quem faz as perguntas certas.
- Está em quem lê nuances.
- Está em quem entende gente.
- E gente é matéria-prima da ficção.
Ler ficção é investir em inteligência emocional, em pensamento crítico e em sabedoria prática.
É construir líderes que sabem navegar tanto tempestades quanto pessoas. E isso, ainda, nenhuma máquina sabe fazer tão bem quanto nós.
